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Conhecendo o Chile numa moto

Aventura sobre duas rodas: minha solitária viagem até o Chile

Foi na manhã do dia 15 de novembro de 1999 que iniciei essa aventura, saindo de moto de Porto Alegre rumo a Uruguaiana. Não houve muito planejamento; tive contato apenas com Hélio Mendes, de Curitiba, que era a única pessoa que eu conhecia que já havia feito tal viagem. Procurei “parceiros” para uma possível companhia, chegando a colocar anúncios na Internet; porém não houve sucesso, e decidi que iria sozinho. Houve apenas uma preparação com relação ao tempo.

Sabia que naquela época eu pegaria muito frio na viagem. Por isso, as poucas roupas que levei eram de inverno. Para minha surpresa, chegando em Uruguaiana, os termômetros marcavam 37ºC!

Passei a noite em Uruguaiana. No dia seguinte é que a viagem realmente começou, pois estava saindo do Brasil. Foi entrando na Argentina (Passo de los Libres) que senti a realidade da minha aventura, pois me sentia sozinho num país estranho. Mas a vontade de conhecer a Cordilheira dos Andes era tão grande que superava esse medo do desconhecido. A partir de agora, tudo era novidade...tudo era desafio. Comecei a seguir em direção às cidades de Paraná e Santa Fé.

Percorri trechos com apenas alguns vilarejos, sem muitas cidades por perto, com pavimentação de concreto armado. Havia muitas fazendas de plantações de trigo, proporcionando um visual muito bonito. Porém, havia também muitos pássaros no trecho, às vezes eu era até obrigado a desviá-los. Não houve problema com a polícia argentina; as estradas não possuíam radares, não havendo limite de velocidade. Chegando em Paraná, uma das atrações turísticas mais conhecidas é a passagem de Paraná para Santa Fé, feita através de um túnel subfluvial do rio Paraná. Segui até a cidade de Vila Maria, onde pernoitei.

Após alguns contatos à procura de hotel, encontrei um bem acessível. No outro dia pela manhã, saí para a cidade de Mendonza. As estradas eram boas, sendo possível andar em altas velocidades, sem problemas com a polícia. Fiquei encantado com Mendonza, que é a “capital do vinho” na Argentina. Caracteriza-se pela sua irrigação, onde todas as ruas contêm canais de irrigação, sendo assim uma cidade muito arborizada. Aconselho fazer um “citytour” como eu fiz, pois são muitos os pontos turísticos. Não se pode deixar de visitar as “bodegas”, que são as vinícolas de lá.

Também se destaca a grande quantidade de cafés, parecendo países europeus, com mesas e cadeiras nas ruas, sob as árvores, podendo-se sentar e ler seu jornal sem ser obrigado a consumir nos restaurantes. Permaneci lá dois dias e meio, saindo de lá depois do almoço. É interessante notar que o comércio abre às 8h30, fecha às 12h30 e só reabre às 16, fechando às 21h, obedecendo, assim, o horário da “cesta”. Sem dúvida, vale a pena conhecer Mendonza. Uma curiosidade sobre a cidade é que ela escurece por volta das 21h, estando bem claro às 6h30 da manhã!

A viagem continua, com destino a Santiago. Depois de rodar aproximadamente 120 km, cheguei na “pré-cordilheira”. Assim como eu, quem não conhece já acredita estar na Cordilheira dos Andes. Ao me defrontar com esse visual, novamente me invadiu uma sensação de solidão e medo; a estrada vazia e aquelas montanhas enormes me olhando... São interessantes os leitos dos rios vazios, que só enchem quando há o degelo da Cordilheira. Com a idéia de economizar no combustível, utilizei gasolina de baixa qualidade. Subindo a pré-cordilheira, em direção à verdadeira Cordilheira, comecei a notar que o motor apresentava pequenas falhas; a partir daí, fui ficando tenso, pois não havia nada por perto, o movimento era baixíssimo e estava escurecendo; ainda por cima, eu não entendia nada de mecânica, o que só me deixava mais preocupado.

Fui sendo tomado por uma tristeza, uma vez que eu não estava conseguindo gozar com tanta intensidade o motivo principal da minha viagem, que era a travessia pelos Andes. À medida que eu subia, o problema aumentava, falhando o motor cada vez que diminuía a rotação; isso me deixava cada vez mais nervoso. Não havia nada, nenhuma vila por perto, somente em Ponte de los Incas. O único hotel que havia ali estava desativado. Minha sorte foi ter descoberto uma guarnição do exército argentino, graças à ajuda de um pessoal que encontrei e que me recomendou que eu falasse com o comandante da guarnição para que eu pudesse ficar no alojamento. Consegui a hospedagem por $30, sem café, almoço ou janta.

Fiz amizade com os militares do local, todos foram muito atenciosos, dizendo para não me preocupar que o problema do motor da moto era devido à altitude. Foi na verdade um azar que deu sorte, pois tive a oportunidade de conhecer um local maravilhoso. Um fato do qual não vou me esquecer foi que à noite, nesse local, não havia como jantar, já que não havia mais nada nas redondezas. Eu estava escrevendo uns postais num lugar aconchegante, com lareira e tudo, quando alguns oficiais vieram me pedir licença, uma vez que era hora do jantar, e eles iriam tomar uma sopa de capelleti com vinho tinto.

Tive que ficar ali, sentado, só olhando e sentindo aquele cheirinho de sopa quente, com um frio de 0ºC lá fora e a fome aumentando cada vez mais... Achei melhor me recolher e ir pro quarto.

No outro dia pela manhã, a angústia voltou. Devido à baixíssima temperatura, que era de 0ºC (mesmo assim, eu estava suando de tanto nervoso!!!) o motor não ligava, e fiquei ainda mais preocupado. Felizmente tive sucesso depois de algumas tentativas, quando a bateria já estava quase “morrendo”. Continuei a travessia em direção à fronteira. Chegando lá, era necessário que eu apresentasse um documento que registrava minha saída da Argentina, o qual eu já havia conseguido na Ponte de los Incas. Porém, como o formulário era do dia anterior, fui obrigado a voltar 20km para pegar outro documento atualizado. Tentei de tudo para convencer os militares a me deixarem passar, já que minha moto estava apresentando problemas. Infelizmente não teve jeito.

Fui até lá e, enquanto estava retornando para a fronteira, os problemas na moto reapareceram. Foi quando conheci um grupo de motociclistas chilenos, todos com motocicletas BMW 1100, que estavam passando pela fronteira. Como há um entrosamento entre motociclistas, contei meu problema a eles, que me tranqüilizaram dizendo que era comum esse tipo de problema, causado pela grande altitude. Como daqui a alguns km eu começaria a descer, o problema iria amenizar e eu chegaria numa cidade (Los Andes) onde algumas pessoas poderiam me ajudar. No percurso, o problema não se manifestou mais, então decidi continuar a viagem até Santiago. Cheguei entre 16h e 17h; a cidade estava vazia. Fui procurar um hotel, até que me deparei com o Palácio da Moneda, onde tirei várias fotografias. Depois de rodar muito, encontrei um hotel. Era domingo, e tive que esperar até segunda-feira para resolver definitivamente o problema da moto. Aproveitei para fazer um “citytour”, uma vez que a cidade é grande e possui vários pontos turísticos.

Segunda-feira, pela manhã, mandei consertar a moto numa oficina conforme a indicação do dono do hotel onde eu estava. Enquanto isso fui conhecer mais a cidade, e no fim da tarde fui buscar a moto. Haviam trocado as velas, onde estava todo o problema.

À noite decidi que na terça-feira iria conhecer as praias de Valparaiso e Vina Del Mar, que se situam no Oceano Pacífico. Até então, não tinha tido nenhum problema com a Polícia Rodoviária argentina e chilena. Estava indo a aproximadamente 180km/h, o que foi me dando muito frio. Por isso, resolvi reduzir a velocidade para 120 km/h. Para minha surpresa, fui pego pela Polícia Rodoviária. Conversei com eles e expliquei que eu era brasileiro e que não sabia que havia limite de velocidade. Eles não me multaram, mas me deram um sermão e me deixaram ali parado por quase 1 hora! Chegando em Valparaiso, queria muito conhecer o local, mas estava totalmente perdido. Acabei conhecendo dois policiais “carabineiros” motociclistas e expliquei que não conhecia a cidade. Eles foram muito atenciosos e começaram a falar rápido, querendo me ajudar e me explicar como chegar nos pontos turísticos.

Como meu espanhol é meio fraco não entendi quase nada, e eles então resolveram me levar pessoalmente para conhecer os locais! Foi muito agradável! Como meu destino era o sul do Chile, teria que voltar a passar em Santiago; resolvi então cortar caminho por algumas estradas secundárias. Tiveram trechos em que me perdi, uma vez que foi difícil me localizar no mapa. Finalmente, cheguei na Ruta 5, que me levaria ao meu destino final: a cidade de Puerto Montt, no sul do Chile. No caminho, dormi numa cidadezinha chamada Los Angeles, num hotelzinho bem simples, o pior que fiquei durante toda a viagem. Minha idéia era conhecer Pucón e dormir por lá, pois havia lido na Internet. Porém, era o tipo de cidade com um turismo mais “caro” e ideal para ir acompanhado, diferente do que eu estava procurando. Resolvi então ir para Osorno e dormir lá. Quando estava chegando na cidade, parei num quiosque de informações turísticas, onde me indicaram uma cidade turística com estilo alemão chamada Frutillar, situada na beira do Lago Llanquihue, maior lago do Chile.

Nesse trecho há uma visão permanente do vulcão Osorno. Lindo! Aconselho não deixar de conhecer Frutillar, bem como chegar até o pé do vulcão Osorno contornando o Lago. É uma paisagem fantástica. Nesse caminho também não se pode deixar de visitar o Lago de Todos los Santos, onde as excursões vão de barco até Bariloche, na Argentina. Nesse trecho, saí da estrada para tirar fotografias na margem do lago, onde a moto afundou na areia, sendo um sufoco tirá-la de lá. Acelerava devagar, colocava objetos sob os pneus, mas parecia que ela afundava cada vez mais. Finalmente, depois de muita tentativa, conseguimos sair dali... Outro espetáculo imperdível são as corredeiras de águas azul-turquesa do Rio Petrohué (no Parque Nacional do Salto do Rio Petrohué). Nessa cidade, Frutillar, há várias pousadas, e fiquei na casa de uma senhora de 75 anos. Eu era o único hóspede, e era tratado com muitos cuidados especiais, como um parente! A cozinha é pequena, bem rudimentar, mas aconchegante, com fogão à lenha, panelas de ferro... A casa fica na beira do lago, e eu podia visualizá-lo, com o vulcão ao fundo, da janela do meu quarto. Minha vontade era de ficar lá por uns 15 dias! Além do mais, a senhora me cobrou um valor irrisório em relação aos outros lugares que parei.

De lá fui para Puerto Montt, e permaneci 4 dias na cidade. Depois que percebi que, por um lado, foi mal planejado. Estava interessado em conhecer a Ilha de Chiloé, que fica a mais ou menos 120km de Puerto Montt. Mas achei que seria um lugar deserto, sem muita coisa para fazer. Então programei ir para lá no 4º dia, depois que já teria conhecido toda Puerto Montt. Infelizmente, foi o único dia que choveu. O vento era tão forte que me empurrava enquanto andava de moto, quase me derrubando. Fiquei bem assustado, e resolvi andar bem mais devagar. Chegando lá, descobri que é na realidade bem diferente do que eu imaginava. São três cidades, com muito movimento e vários pontos turísticos, impossível de conhecer num dia só. A chuva e o vento fortes me impediram de andar muito por lá, dando para conhecer somente uma cidade, Ancud.

Iniciei meu retorno. Já havia programado voltar pela Argentina para passar por Bariloche. Tive que atravessar a Cordilheira, bem ao sul, passando perto de Osorno. Mas o trecho é bem diferente da parte norte, possuindo uma mata densa, com muitos rios. A estrada é menos movimentada que a principal; existe um trecho de aproximadamente 30km sem asfalto. Tive dificuldade nesse pedaço, já que minha moto é uma esportiva. Chovia muito, e devido à floresta próxima a estrada, havia muita cerração. Era muito comum atravessar pontes sobre águas transparentes e pedras ao redor, como vemos nos filmes. Dava gosto de parar para admirar a clareza das águas e o próprio trecho dos rios. Viajei o dia inteiro com chuva, até chegar em Bariloche. Depois de atravessar a Cordilheira, já na Argentina e chegando em Bariloche, me deparei com um trecho lindo, cheio de flores ao redor do lago Nahuel Huapi. Um visual maravilhoso!!!

Bariloche é uma cidade essencialmente turística. O que me chamou a atenção foi um restaurante “giratório”, ponto turístico famoso situado no Cerro Otto, todo envidraçado, que gira tão devagar que mal dá para notar. É bem interessante, pois ora se vê o Lago, ora se vê a cidade de Bariloche, e até a Cordilheira. Seu acesso é feito por um teleférico, que me custou $20 (!!!!); um cafezinho no restaurante, acabou me saindo por $3 (!!!!!!). Bariloche dispensa muitos comentários: uma rede hoteleira extremamente desenvolvida, um comércio todo voltado para o turismo...Enfim, uma cidade turística.

Quando saí de lá as rádios indicavam chuva. Depois de percorrer uns 100 km, cheguei numa estrada extremamente deserta, sem vilas nem lugares para parar ou abastecer. Comecei a ficar com medo, viajando muitas horas sob tempestade e vento muito forte; no horizonte, via só raio. Às vezes, tinha que parar na estrada para descansar. Percorri mais ou menos 800km nessas condições, ou seja, sob chuva permanente. Já estava cansado, andando bem devagar, até que passei por um posto policial. Um policial veio querer me multar por excesso de velocidade, mas estava óbvio que eu andava numa velocidade bem inferior. Sem argumentos, ele acabou confessando que queria dinheiro, e que eu só sairia dali se deixasse $30. Enfim, fui “batizado”.

Parei numa cidadezinha pequena, chamada Rio Colorado, e dormi num hotel na entrada da cidade. Estava tão cansado que só comi um lanche e fui dormir, na esperança de que o dia seguinte seria diferente, sem chuva. Porém, acordei às 6h30 da manhã com o barulho dos trovões! Pois é...seria mais um dia bem “molhado”... Viajei toda a manhã e uma parte da tarde sob muita chuva. Fui até a cidade de Lujan, na grande Buenos Aires, onde dormi, assim como havia programado. A chuva já havia parado, mas o jornal estava avisando a população que no dia seguinte haveria um temporal com rajadas de vento muito fortes. Saí antes da tempestade, mas viajei tenso, com medo de pegar chuva e vento. Felizmente, dessa vez tive sorte, e nada disso aconteceu. Minha intenção era entrar no Uruguai pela cidade de Fray Bentos. De lá, segui até Payssandú. No trecho de Payssandú até Tucuarembó, de aproximadamente 300km, não há uma cidade, somente uma parada, a uns 150 km depois de Paissandu, onde há um armazém com uma bomba de gasolina manual.

Cheguei para abastecer, mas fiquei um tempão parado esperando ser atendido; não havia movimento nenhum. Até que apareceu um homem que me disse que não tinha mais gasolina e que talvez eu encontraria numa fazenda a uns 100km dali. Segui numa baixa velocidade, muito tenso, com medo de ficar parado na estrada sem gasolina (finalmente, o dia estava maravilhoso!). Consegui chegar em Tucuarembó e enchi o tanque da moto. Mesmo estando anoitecendo, fui “voando” para Rivera, apesar de nunca viajar à noite, e entrei em Santana do Livramento. Fiquei lá dois dias, passeando, fazendo um tempo para depois ir a Bagé, no 3º encontro de moto da cidade. De Bagé, segui para Porto Alegre.

Total do percurso: 7862 km
Tempo de viagem: 19 dias, de 15/nov até 04 /dez
Gasto aproximado: $1100
OBS: fiquei nos hotéis mais baratos, e fiz uma refeição por dia.

Fato decepcionante - Depois de alguns dias de ter retornado, surgiu um problema no carburador, sendo constatado que o problema era na bóia: essa não era a original, que foi substituída por outra que havia sido quebrada e remendada. Como só um mecânico, de minha confiança, mexe na moto, tive a comprovação de que essa substituição fora feita na cidade de Santiago do Chile, onde a deixei para ser concertada.
Fora isso, não tive nenhum problema: lâmpada queimada ou pneu furado...somente alguns sustos que, só quem anda sobre duas rodas, sabe!…

Colaboração

Renato H. Demartini

Fonte: Renato Demartini
Cidade: Brasil - Chile-EX-Chile
Fotos: Renato Demartini
Publicado: Rafael Franca da Silva
Date: 01/03/2001 <%insert_data_here%>


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
  Evento 122 - Aventura de moto pro chile

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