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Desafio Punta del Este- Corrida de aventura

No último fim de semana do mês de abril, realizou-se no Uruguai a segunda etapa do Circuito Uruguaio de Corridas de Aventura, denominado Desafio Punta del Este.

Nesta 2ª prova, seriam praticadas as modalidades de trekking, mountain bike, canoagem em canoas canadenses e orientação, através de 80 km da região de Punta del Este.

Para o sábado 27, estavam marcados a verificação de equipamentos e briefing. Entre 15:00 e 19:00 hrs, foi realizada a verificação dos equipamentos com entrega do projeto social (1 kg de alimento não perecível ou 1 peça de roupa deveria ser doada) e entrega das bicicletas e canoas para que a organização às levassem às respectivas áreas de transição.

Às 19:30 hrs, começou o briefing da prova com a apresentação de um vídeo da primeira etapa, explicação da prova e apresentação das equipes participantes. Haviam 25 equipes inscritas no total, mas 3 equipes brasileiras não puderam comparecer devido a problemas com o transporte, o ônibus que haviam alugado em conjunto com outras equipes não compareceu em Porto Alegre.

A reunião atrasou e estendeu-se, deixando pouco tempo para as equipes jantarem antes da prova já que ainda não conhecíamos o trajeto.

Em uma nova reunião, realizada às 22:00 hrs, foram entregues os mapas em que estavam marcados os PCs e ATs. As equipes tiveram somente uma hora para preparar suas estratégias já que a saída do ônibus com as equipes em direção à largada estava marcada para as 23:00 hrs.

Algumas equipes improvisaram mesas com as cadeiras da sala enquanto outras foram traçando seu recorrido nos mapas espalhados pelo chão.

Todos embarcaram no ônibus já preparados para o primeiro trecho de trekking. Viajamos por cerca de uma hora até a largada. Ali, ao descer do ônibus, demos de cara com o frio da noite uruguaia. Faziam cerca de 10º C, mas com o vento forte que soprava, a sensação térmica era de uma temperatura bem mais baixa.

Aguardamos todos em um bar (junto ao local da largada) até nos posicionarmos para partir pontualmente a 1:00 da manhã.

A equipe Oskalunga, antes mesmo da largada, deparou-se com um problema sério que poderia tira-la da prova. Perdeu sua bússola, equipamento obrigatório, sem o qual seriam desclassificados. Felizmente, outra equipe tinha duas, podendo emprestar-lhes uma para a competição.

Apesar do frio e do vento, a noite estava clara, o céu limpo sem nenhuma nuvem sequer e a lua cheia iluminava todo o percurso claramente. Ao som da buzina largamos. A distância até o primeiro PC era curta, cerca de 1,5 km através de campos de pasto para o gado, o problema eram os últimos 500 metros onde começava a ascensão até o pico da primeira colina da Sierra de los Caracoles com uma altura de 283 m.

Nossa equipe estava junto do primeiro pelotão, entre as 8 primeiras ao passar pelo PC. As instruções diziam que deveríamos prosseguir pelo cume em direção ao segundo PC.

Seguimos então até o fim desta primeira colina. As primeiras equipes desligaram as luzes para evitarem ser seguidas e não podíamos avista-las. O descenso foi difícil já que não havia trilhas e a vegetação local era muito fechada (composta por “coronillas”, “talas”, “espinas de cruz” e “uñas de gato”).

Fomos abrindo caminho junto com uma equipe masculina uruguaia, tendo outras cinco equipes nos seguindo.

No sopé corria um pequeno riacho que foi nosso primeiro encontro com as águas geladas naquela noite. Dali algumas equipes optaram por seguir costeando a colina e voltar a subir em direção ao próximo PC ou, como fizemos, voltar a subir e continuar pelo cume.

O PC era virtual e estava a mais ou menos 5,5 km em linha reta do PC 1. Deveríamos anotar o que estivesse escrito sobre um enorme cata-vento localizado no topo, a 303 m. Ao chegar lá o vento estava fortíssimo, gelando-nos até os ossos.

Como já tínhamos nossa estratégia definida, não perdemos tempo e passamos duas equipes que estavam decidindo que direção tomar a partir dali.

Nossa opção era descer a encosta por uma ravina. Marcamos a direção e saímos prontamente, pois sabíamos que era difícil nos perdermos pois teríamos, obrigatoriamente, que cruzar por um caminho que levava à AT1 que ficava a 4,7 km de distância.

Conforme caminhávamos, vimos várias equipes tomando diferentes rotas e deixamos nossas luzes apagadas na esperança de não sermos seguidos. Não fomos felizes. Nossas camisas eram brancas e podiam ser avistadas de longe.

A área era de pastos. Encontramos várias vezes pequenos grupos de vacas e bois que fugiam com nossa aproximação e atravessamos varias vezes pequenos córregos e encontramos muitas áreas com o solo encharcado. Isso era comum na região, mesmo em encostas, já que sob a cobertura, a rocha encontra-se muito próxima da superfície.

Ao nos aproximarmos da AT1 divisamos luzes nos dois lados de varias equipes distantes, e nesse momento, ao olhar para trás vimos duas equipes que nos estavam seguindo se aproximarem. Como faltavam ainda cerca de 500 metros, uma equipe começou a correr chegando um pouco antes de nós.

Na AT pegaríamos somente uma bicicleta tendo que percorrer um trecho de 4 km na modalidade bike & run. Estávamos 25 minutos atrás dos líderes e isso nos deu motivação. O Luiz, mais acostumado a correr, seguiu na frente com o mapa e eu levaria a Rita na barra da bicicleta.

Ao chegar na primeira interseção, continuamos por onde a equipe anterior foi pois queríamos ultrapassa-los e retomar nossa posição, mas a sorte nos abandonou quando atravessávamos uma ponte e uma aresta, oculta pelas sombras estourou o pneu dianteiro da bike.

Nos prontificamos a substituir a câmara quando nos demos conta de um erro que cometemos: decidimos por usar a bicicleta da Rita neste trecho por não ter suspensão dianteira mas esquecemos de colocar uma bomba no quadro. Ou seja, podíamos consertar o pneu, mas não tínhamos como enche-lo.

Como não nos restava outra opção, continuamos os 3 a pé. Mantivemos mesmo assim a distância até a equipe na nossa frente.

Seguimos caminhando por um tempo, mas eu estava com uma sensação estranha. Alguma coisa não estava certa. Quando chegamos ao cruzamento seguinte, pedi o mapa e sentei para analisa-lo. Fiquei chocado, a direção da estrada estava certa, mas o sentido não. Consultei a bússola.

Ela indicava que estávamos indo para o norte mas deveríamos estar indo à direção sul. Olhei para o céu. O Cruzeiro do Sul confirmou meus temores, tínhamos tomado o caminho errado. Em vez de seguirmos o mapa, seguimos quem estava na frente. Só que eles nos estavam nos seguindo antes, eles não sabiam o caminho. Tanto que não se deram conta do erro, continuaram a frente e não pudemos avisá-los.

Estávamos arrasados. Havíamos caminhado mais de 1 hora na direção oposta à que deveríamos seguir. Nos reunimos e decidimos que estávamos lá e iríamos completar a prova. Não desistiríamos.

Resolvemos que não tínhamos como saber o caminho por onde a equipe na nossa frente ia tomar pois estavam fora de vista, então avisaríamos a organização no próximo PC. A equipe se chamava Los Anônimos e acabou abandonando a prova.

Voltamos juntos até o ponto onde tomamos o caminho errado e de lá, após conferir o mapa, o Luiz foi à frente até a AT2 para arrumar o pneu furado enquanto que a Rita e eu íamos num ritmo um pouco mais lento. Ela estava um pouco abatida e lembrei de um livro sobre corridas de aventura que li que dizia que não se deve deixar um membro da equipe se abater.

Quando notarmos alguma diferença é bom mantê-lo ocupado e dar-lhe algo para fazer. Como sabíamos a distancia que faltava até a AT, 3,8 km, fui contando a distância e ia dando para ela as centenas de metros para sabermos quanto faltava. Depois da prova ela disse que talvez tivesse parado se não estivesse fazendo isso.

Na AT havia uma fogueira acesa que nos ajudou a levantar os ânimos, já que a noite parecia ficar cada vez mais fria. Mas após a alegria do fogo veio a triste constatação: passamos de estar no pelotão das equipes de frente para a antepenúltima posição.

Atrás de nós estavam somente a equipe que se perdeu e outra brasileira de Novo Hamburgo (que também não completou a prova). O lado bom é que sabíamos que as outras equipes haviam saído mais ou menos 20 minutos antes.

O trecho seguinte eram 42 km de mountain bike com 3 PCs virtuais. Antes de sair, um membro da organização nos avisou: “Esperem água até a cintura!”. Não entendemos muito bem o que ela quis dizer, porque a carta só mencionava alguns arroios, mas fomos em frente.

A trilha estava muito marcada, pois todos já haviam passado por ela, portanto o perigo de nos perdermos era nulo. Andamos 2,5 km por muito barro e grama encharcada, muito pesada para pedalar e tivemos que empurrar em alguns trechos, e chegamos ao ponto onde teríamos água realmente.

Havia um riacho não muito caudaloso mas muito gelado que tínhamos que atravessar. O Luis foi à frente seguido por mim. Ao chegar ao meio da travessia, vi que a correnteza estava um pouco forte e gritei para a Rita que esperasse que eu voltasse para ajudá-la com a bicicleta para evitar quedas.

Pensamos que o pior tinha passado. Ledo engano. Dali pra frente foram dois quilômetros muito duros de “hike a bike” (empurrar a bicicleta) ou melhor “carry a bike” porque não havia a menor condição de sequer colocar a bike no chão e empurrar.

A posição de viagem era nas costas. Penamos muito pelo frio, pelo barro que já estava muito pisado e tinha buracos fundos que seguravam os tênis e pelos longos trechos sem descanso. Para completar, furamos mais um pneu no fim do trajeto pelos banhados.

Com o nascer do sol, saímos para terra firme. O calor dos primeiros raios da manhã ajudava a aliviar a dor que sentíamos de tão fria que estava a água. Divisamos a estrada que demarcava o fim dos banhados, e quando entramos no asfalto, vimos outras duas equipes que iam e voltavam.

Paramos para conversar com eles. Eram a equipe sênior local e a equipe de Livramento. Eles estavam pedalando na região a mais de uma hora sem encontrar a entrada certa. Como havíamos aprendido a lição sobre orientação, sugerimos que fossemos todos juntos dali em frente.

Encontramos a entrada imediatamente (em nossa carta tínhamos traçado um caminho diferente para chegar a ela e foi fácil). Como os outros viram que sabíamos o que estávamos fazendo (aprendemos na marra) não se importaram de nos seguir.

A partir dali fomos todos conversando deixando o cansaço e frio para trás apreciando as belas paisagens e a boa conversa. A camaradagem é um aspecto maravilhoso das corridas de aventura. Não havia subidas muito íngremes e apesar de encontrarmos alguns banhados mais, seguimos sem mais percalços.

Esta perna de bike acabou sendo muito agradável. Nosso próximo destino era a AT3 a oeste da cidade de San Carlos para o início do trecho de canoagem.

Faltando alguns quilômetros para chegar em San Carlos nos deparamos com uma surpresa da equipe sênior. Eles haviam combinado com amigos que os encontrassem em um ponto do trajeto para poderem trocar de roupa e tomar algo quente.

Beber um café quente as oito da manhã no meio de uma prova é revigorante. Eles decidiram que ficariam para descansar e nos disseram para ir e seguimos em frente.

Chegamos à AT3 com uma grata surpresa, havíamos ultrapassado 5 equipes sobre as bicicletas. Entramos na água do Arroyo Maldonado para enfrentar os 16 km de canoagem. A correnteza era mínima e tivemos que remar por quase 3 horas para transpor esta etapa.

No último quilômetro fomos ultrapassados por uma equipe que remava muito bem e apesar de nosso esforço não conseguimos acompanhar.

A AT4 era na foz do Maldonado. Devíamos deixa um intregante na margem oeste e remar até um ancoradouro na outra margem enquanto que o outro membro fazia o trajeto por sobre a ponte existente.

Ali estava a AT5, última troca de modalidade. Ao sair da canoa para iniciar o trekking final, senti uma forte dor na parte posterior da perna. Havia distendido um músculo e me custava muito andar.

A organização havia informado da existência de um PC em algum ponto ao longo de 6 km da praia de San Rafael em Punta del Este mas sua posição não estava marcada, só se sabia que ele estaria na praia.

Isso obrigaria as equipes a seguir pela areia todo o tempo. Lá, nem sequer a areia molhada fica firme, é sempre fofa. Como não conseguimos nos mover com velocidade pelo problema na minha perna, fomos ultrapassados por 2 equipes pouco antes do final.

Nossa posição geral ficou sendo a 16ª e 8ª equipe mista. Ficamos um pouco desapontados com nosso desempenho final na prova pois gostaríamos de retornar para o Brasil com um resultado melhor, mas vimos que isso só depende de nós pois se conseguirmos evitar erros primários como os que cometemos, lá poderemos chegar muito melhor.

Fonte:

Marcos Gressler
mgressler@viavale.com.br
Luiz M. Faccin
faccin@viavale.com.br

Fotos:

Luiz M. Faccin

Fonte: Luiz Maganini Faccin
Cidade: Punta del Este-RS
Fotos: Luiz Maganini Faccin
Publicado: Luciane Rocha Martins
DATA: 07/05/2002 <%insert_data_here%>

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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