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Lançamento do livro de Guzinski -Entrevista

Confira a entrevista feita por Karla Monteiro ao site "no" em relação ao lançamento do livro de Ênio Guzinski, "Voando em um céu solitário".

Do início da década de 60 até meados dos anos 90, uma trupe de pilotos, vindos de diferentes países, viveu agrupada no Paraguai sob a tutela de uma organização apelidada de "Legião Estrangeira".

O trabalho do bando era voar de um lugar para o outro na América Latina contrabandeando cigarro e uísque. Entre os destinos mais corriqueiros estavam Brasil, Uruguai, Bolívia, Chile e Argentina. Ganhava-se pequenas fortunas a cada decolagem. Cerca de quatro vezes mais do que na aviação comercial.

Dinheiro a parte, corria-se riscos impagáveis: vôos noturnos, quase sempre solitários, em aviões com excesso de peso que pousavam e decolavam de pistas precárias de qualquer cafundó. Muita gente morria ou simplesmente desaparecia. Sem contar o cara a cara constante com a polícia.

A tal "Legião" sobreviveu até 1995. Com a queda do ditador Alfredo Stroessner, em 89, aos poucos, o Paraguai foi fechando as porteiras.

Essa história de heróis sem ética permaneceu clandestina até novembro do ano passado, quando o piloto gaúcho Ênio Guzinski, 59 anos, integrante da "Legião" por mais de 40 anos, lançou o livro "Voando em um céu solitário", um relato em primeira pessoa de quase 300 páginas, bancado do próprio bolso.

A autobiografia, que foi lançada pela Editora Record, é romântica e apaixonada. Não pode ser encarada como boa literatura, mas vale pelo que conta.

O aviador descreve vôos malucos, resgates de pilotos pegos pela polícia, rotas inusitadas, convivência do grupo, gambiarras nos aviões para aumentar a autonomia de vôo e toda a sorte de pirações que envolvia o trabalho.

Termina-se a obra com enorme simpatia pelos contrabandistas. Mais ou menos aquele sentimento que inspira o ladrão inglês Ronald Biggs ou a dupla Butch Cassidy e Sundance Kid.

Ênio e seu bando eram pessoas viciadas no perigo que viam as rotas clandestinas do contrabando como caminhos para lugares onde jamais chegariam se estivessem na aviação comercial.

"Não enxergávamos o risco. A adrenalina é um vício estranho. A gente não pensava em largar aquele mundo, que nos oferecia a oportunidade de voar para lugares onde jamais iríamos na aviação comercial. O perigo, a morte, tudo era secundário", conclui Ênio.

Quando os pilotos da Legião foram obrigados a pendurar os macacões, o gaúcho, nascido em Porto Alegre, ficou "como um soldado sem guerra", como gosta de se definir. Resolveu trocar o ar pelo mar. Comprou um veleiro, o "Lord Jim" e viveu à bordo por dois anos, onde escreveu sua biografia. De volta a Porto Alegre e sonhando em comprar um avião acrobático, Ênio deu a seguinte entrevista a no.

Porque o senhor resolveu escrever um livro contando os seus tempos de fora-da-lei?
O meu livro é o primeiro que conta como funcionou o contrabando aéreo na América Latina dos anos 60 até o final da década de 90. Não escrevi para me tornar um herói sem ética. Escrevi para registrar este capítulo da história da aviação. Escrevi para contar a história da minha vida. Assim como existiram os piratas, os cangaceiros etc, existiram, ou existem, os pilotos de contrabando.

No livro, o senhor transmite uma visão romântica e apaixonada do contrabando aéreo.
Eu narrei a história exatamente como ela aconteceu. Os pilotos da 'Legião Estrangeira' eram jovens apaixonados por aventura. Vivíamos em um clima de completa solidariedade e amizade. O livro serve também para mostrar que não se tratava de bárbaros com uma arma na mão, como muitos pensam. Os pilotos eram pessoas normais, que gostavam de café quente, de namorar, de dormir em cama macia.. Mas, principalmente de correr riscos e voar.

Qual a diferença entre essa sua vida e dos contrabandistas de drogas, por exemplo?
Não tem nada a ver. Em mais de 40 anos de vôo clandestino, eu nunca transportei drogas. Muitos pilotos que conheci acabaram enveredando por este caminho. Eu não. Sempre vi o contrabando de drogas como um caminho sem volta por causa da violência que envolve. A minha paixão sempre foi voar. Quando criança, minha diversão era ver os aviões decolando do aeroporto de Porto Alegre. Eu dizia para a minha mãe: vou voar um dia. As minhas cargas eram cigarro e uísque, mercadoria sem nota. O contrabando era uma forma de voar para lugares onde eu jamais iria se estivesse na aviação comercial.

O senhor optou pela Legião Estrangeira por dinheiro ou pela aventura?
Eu conheci a Legião com 19 anos. Era um jovem louco e apaixonado pela aviação. Fiquei fascinado com a aventura que aquele trabalho iria me oferecer. Depois, com o passar dos anos, foi ficando quase impossível mudar de vida. Eu construí um círculo de relações e não conseguia sair fora, mesmo com todas as tragédias que nos rodeava: mortes, prisões, acidentes graves etc. O diretor técnico do aeroclube do Rio Grande do Sul, o Machado (o piloto Sérgio Machado), depois de ler o meu livro, me comparou a um meteoro. Acho que é isso mesmo. Eu não tinha rota, como os pilotos convencionais. Fui a lugares que, tenho certeza, muito pouca gente foi.

Mas ganhava-se muito dinheiro?
Muito. Os pilotos de contrabando ganhavam o que queriam. Não havia limite de valores. Barbaridade, dava para tirar 4 vezes mais do que na aviação comercial. Um piloto começava na legião e seis meses depois já tinha o seu próprio avião;

O senhor ficou rico?
Fiquei milionário. Quando a Legião acabou, eu tinha uns 10 aviões novos. Mas aí eu perdi a cabeça. Fiquei como um piloto sem guerra. Como não tinha trabalho e não conseguia me ajustar à vida normal, eu fui vendendo tudo. Não sabia o que fazer com a minha frota. Taxi aéreo paga muito pouco. Aviação agrícola também. A manutenção de um avião é muito caro. Hoje eu não tenho nada. Cheguei a comprar um veleiro e viver à bordo por dois anos. Depois, vendi o veleiro para volta ao contrabando aéreo. Só que não dava mais. A liberação de fronteiras e a criação de mercados comuns pôs fim ao meu tipo de atividade. Se tivesse surgido trabalho na África, na Ásia, eu teria ido. Sem dúvida.

É difícil interceptar um vôo clandestino?
Não. O governo, ou os governos, poderiam reduzir muito, por exemplo, o contrabando de drogas caso houvesse vontade política. Hoje em dia todas as pistas de onde decolam aviões com drogas são mapeadas. Os cartéis não são uma estrutura tão forte quanto a imprensa faz parecer. Mesmo com todo o dinheiro que têm, seria impossível manter as rotas da forma como é feito. Um piloto, por melhor que seja, não é invisível. A polícia sabe exatamente quais e quantas são as pistas usadas. É fácil fazer um vôo ou outro, mas, com fiscalização adequada, seria impossível manter um esquema comercial.

O senhor não fala de problemas com a polícia no livro. Já chegou a ser preso?
Só uma vez. Eu tinha muita sorte. Fui pego no Uruguai uma vez. Meu avião deu uma pane e tive que fazer um pouso forçado em uma fazenda. Eu avisei os meus contatos em terra e eles mandaram um caminhão buscar a mercadoria. Mas, a polícia pegou o avião, que não tinha autorização de vôo. Passei 25 dias preso em Punta Del Leste. Aí, foi só soltar um monte de dinheiro para ser liberado.

Quais as rotas que o senhor mais gostava de fazer?
Estando no ar, qualquer lugar era bom. Mas existiam os lugares mais "quentes", como a gente chamava. Na Bolívia, por exemplo, nas áreas onde tinha embarque de cocaína, era um perigoso. Enfrentávamos dois riscos: de um lado, a fiscalização, de outro, o pessoal dos cartéis que não nos queria naquela área para não tumultuar a rota deles. A adrenalina ficava a mil. Era maravilhoso.

Qual a situação mais difícil que o senhor enfrentou?
Foram inúmeras. Uma das situações mais loucas está relatada no livro. Em uma ocasião, fui escalado para libertar um piloto da "legião estrangeira", o Benti, que estava detido no Brasil. O caso tinha dado muita repercussão. O resgate precisava ser relâmpago. Traçamos um esquema de vôo, com pousos em várias pistas diferentes para despistar a polícia. Quando pousei na pista onde Benti estava aguardando, eu olhava para todos os lados e não o via. De repente, ele apareceu correndo. No mesmo momento, um carro entrou em alta velocidade na pista. Fixei a visão no veículo e no Benti. No exato momento em que ele pulou dentro do avião, eu iniciei a decolagem. A porta continuava aberta e eu olhava o carro, que vinha na nossa direção. Continuei a decolagem, pois tinha certeza que o motorista sairia do eixo da pista. O carro saiu da frente e conseguimos decolar. Já no ar, vi quando apontaram as armas para nós e começaram a atirar contra o avião. Quando escapamos do ângulo de tiro, olhei para o Benti e ele chorava como uma criança.

Porque o senhor parou de fazer contrabando aéreo?
Quando houve a abertura no Paraguai, em meados dos anos 90, ficou impossível continuar o mercado. Nos tempos do Stroessner, o Paraguai era um porto livre. A permanência dos aviões era completamente liberada, sem controle algum. Eles cobravam as taxas de trânsito e de permanência da mercadoria. Só isso. Não questionavam o nosso destino. Com o fechamento do Paraguai, ficamos como soldados sem guerra. Acabou o nosso porto seguro. Não havia mais de onde e para onde correr.

Como foi a repercussão do livro? O senhor não teve medo de enfrentar problemas legais?
Não. Algumas pessoas sabiam das minhas atividades. Mas a maioria dos meus conhecidos em Porto Alegre, não. Quando o livro saiu, fui entrevistado por jornais e televisões locais. Passei a receber emails e convites para fazer palestras. Virei celebridade. O Amyr Klink, que eu conheci velejando, ligou dizendo que eu sou o real aventureiro profissional.

O senhor tinha uma vida normal nos tempos em que voava?
Normal? Eu vivia no ar. Dormia na cabine do avião muitas vezes. Um piloto comercial faz 90 horas de vôo por mês. Eu fazia 280. Hoje eu me sinto desajustado na vida dita normal. Voar me faz muita falta. Estou com 59 anos. Sou um moleque ainda.

O senhor se casou, teve filhos?
Eu nunca quis me casar. Não queria construir família, essas coisas. Mas aconteceu. Hoje estou divorciado e tenho um filho, o Jim, de 9 anos.

E qual será a próxima aventura?
Quero comprar um avião acrobático para dar shows em festas da uva, do abacaxi, de peão de boiadeiro etc. Outro dia li um livro de um piloto de guerra alemão que conta os seus tormentos por ter parado de voar. Eu vivo assim: atormentado. Por enquanto, a minha diversão está sendo arrumar namorada nova todo dia e escrever as minhas histórias. Quero continuar o livro. Falta muita história para contar.

Fonte:
Ênio Guzinski

Fonte: Enio Guzinski
Cidade: Porto Alegre-RS-Brasil
Fotos: Enio Guzinski
Publicado: Patrícia Mallmann Garcia
Date: 03/12/2002 <%insert_data_here%>

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  Evento 1043 - Lançamento do livro de Guzinski

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