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Em 1959 Yushin Miyazaki embarcou em um grande navio do Japão com destino ao Brasil levando consigo a esposa e cinco filhos em uma grande aventura que durou 45 dias.
A década de 50 foi um período difícil para o mundo todo. A Segunda Grande Guerra Mundial havia recém acabado e suas más conseqüências iriam perdurar ainda por muito tempo na vida da sociedade moderna.
Nesta época o Japão também atravessava anos escuros. As dificuldades em conseguir um emprego digno eram enormes e a desilusão em relação a um futuro próspero fazia muitas pessoas desistirem de seus sonhos, se acanharem diante do mundo.
A luz no final do túnel aparecia timidamente apenas quando se pensava na mudança, apesar do comodismo prender muitas pessoas para o mais conveniente. É por isso que a imigração acontecia constantemente.
Insatisfeitos, muitos japoneses deixavam sua terra natal em busca de um mundo melhor em outro país. Mesmo que este lugar estivesse do outro lado do mundo, como o Brasil.
A família Miyazaki é um grande exemplo. Em 1959, sem perspectiva futura em sua cidade Kumanoto, que se localiza ao norte do Japão, largaram todas as suas atividades e embarcaram em um grande navio de 20 toneladas na companhia de mais 1000 japoneses com destino ao Brasil.
Eram pessoas diversificadas. Cada uma possuía suas próprias características, mas todos seguiam com um único e semelhante objetivo: conquistar uma vida melhor.
“Um amigo meu tinha ido no ano anterior ao Brasil e começou uma plantação de tomates. Ele me escreveu dizendo que estava super bem lá. Desde então eu quis ir para o Brasil”, lembra Yusuke Myiazaki que, na época, tinha apenas 18 anos e era o mais velho dos quatro irmãos que possuía.
No início, o pai Yushin, não gostou muito da idéia. Ele já contava com 53 anos e não se sentia apto a ter que atravessar o mundo e deixar tudo que havia conquistado para recomeçar uma vida nova.
Contudo, a determinação e insistência de Yusuke era tanta que conseguiu convencer o pai a largar tudo e embarcar naquele grande navio levando consigo a família toda (esposa e cinco filhos) e a única bagagem que possuía e que lhes fazia ir adiante: coragem e esperança.
A viagem foi de 45 dias e eles chegaram diretamente no Porto do Rio de Janeiro. Lá, para a surpresa de todos, estavam os esperando o amigo que havia se comunicado com Yusuke por carta e que estava plantando tomates no sul do Brasil.
“Nós realmente não esperávamos. Estávamos pensando em ir para São Paulo, onde já havia sido criada uma colônia japonesa”, conta Yusuke.
Contudo, diante da figura do amigo que havia enfrentado uma semana de viagem apenas para chegar no Rio de Janeiro, não tiveram como negar o convite em se instalar no sul do país.
A visão do Brasil o surpreendeu. “Imagina que fosse só mato, mas vi que já existiam cidades enormes, muito bonitas”, afirma Yusuke.
Mais uma semana de viagem sem saber falar uma sequer palavra em português, Yushin, a esposa Mie e mais os cinco filhos Yusuke, Shinsuke, Miyuki, Katsumiko e Kenjiro partiram rumo àquela terra desconhecida que os inspiravam muitos sonhos.
Chegando em Porto Alegre, começaram a se ocupar na plantação de tomates do amigo e assim o fizeram por muito tempo até substituírem as verduras pelas flores. O negócio prosperou e Yusuke continua comerciando flores até hoje.
Muitas vezes, porém, eles pensaram em desistir da lavoura devido a instabilidade de colheita da mesma.
Eles passavam o ano inteiro cuidando das sementes que haviam plantado e vinha alguma tempestade ou forte geada e arrasava com tudo. Mais de uma vez eles tiveram simplesmente que assistir as intempéries levarem embora todos os meses de suor e trabalho sem conseguirem fazer absolutamente nada. Tinham que olhar àquela cena estarrecedora incólumes.
Imagina o desespero de Yushin, sabendo que esta era o único meio de subsistência, a única forma de sustentar a família...
Mesmo assim eles foram valentes o suficiente e conseguiram superar todos estes desafios.
O clima no Brasil não o assustou, tampouco a alimentação, apesar desta ser bastante diferente da japonesa. “Logo que cheguei aqui gostei do feijão e da cachaça”, revela Yusuke, bem humorado, falando um português ainda carregado de sotaque estrangeiro.
É claro que foi difícil se adaptar e ele admite que sentia falta da comida japonesa, mas ela era totalmente substituível. Não era necessária, como ele mesmo salienta.
A bebida típica foi sendo alterada pela cachaça que servia ao paladar tanto de Yusuke quanto do seu pai.
“Só que quando eu tive diabetes, fui obrigado a cortar”, lamenta Yusuke.
Apesar das belas moças que residiam na capital do Rio Grande do Sul, Yusuke queria casar com uma japonesa. Usou a determinação e persistência que tanto eram fincadas em sua personalidade para conseguir que isso se tornasse realidade e, mais uma vez, foi um vencedor.
Começou, então, a se comunicar com uma mulher do Japão. Um tempo depois ela decidiu embarcar em um navio com destino ao Brasil somente com uma foto de Yusuke no bolso.
Ele não a conhecia nem por foto, mas arriscou assim mesmo. Estava decidido a casar com uma japonesa e iria realizar seu desejo, como sempre fazia. Resultado? “Foi como acertar na loteria”, resume. Eles se deram tão bem que vivem juntos até hoje, 35 anos depois de casados, com o mesmo carinho de quando se conheceram.
Logo depois vieram os filhos Ayumi, Silvia e Roberto e Yusuke orgulha-se em dizer que conseguiu proporcionar aos filhos muito conforto e comodidade. “Todos eles fizeram faculdade e estão trabalhando”, afirma Yusuke.
Para ele, a maior dificuldade adveio do domínio do português, língua tão diferente da sua. “Imagina só, estou aqui há 32 anos e mesmo assim não sei falar direito”, brinca Yusuke, completando. “Lidar com o português foi minha maior dificuldade. E ainda o é. É difícil dizer, por exemplo, ‘cobra coral’”, diz com um largo sorriso no rosto.
Os filhos, contudo, não tiveram tanto problema em assimilar uma língua diferenciada. Tão logo entraram na escola, começaram a se acostumar com a nova linguagem. “A professora só dizia que era para nós pararmos de falar em japonês dentro de casa, pois isso estava dificultando a adaptação ao português”, recorda Yusuke.
Contudo não foi necessário que parassem de falar japonês em casa pois os filhos conseguiam conciliar os dois idiomas. Assim, eles cresceram ouvindo a língua de origem dentro de casa e o português fora dela.
Yusuke já voltou ao Japão para visitar o país que deixou há 32 anos atrás. Entretanto, diz que não se acostumaria mais com o país de origem. “Quando eu voltei da minha viagem ao Japão, vi que era realmente feliz aqui no Brasil. Acho que não iria mais me acostumar com todos os costumes do meu país”, observa.
Ele se diz contente com o Brasil, país que o acolheu tão bem. “Eu gosto desse povo. Eles são muito inteligentes”, afirma Yusuke, que nunca se arrependeu de ter vindo para o Brasil, pois colheu bons frutos aqui, nesta terra.
O irmão mais novo que atualmente mora em São Paulo, se diz também muito feliz no Brasil. “Eu conquistei muita coisa aqui. Não posso reclamar mesmo. Só sinto não ter podido proporcionar aos meus pais todo o conforto que eu adquiri hoje”, finaliza, mesmo sabendo que sua mãe está com 89 anos e pôde dar a ela o que não conseguiu dar ao pai.
Ayumi Myazaki, fotógrafa e coordenadora da Equipe INEMA, neta de Yushin, também agradece a coragem e o espírito desbravador de sua família por terem tomado uma decisão tão importante em suas vidas e terem obtido um enorme sucesso com a mesma.
"Eu realmente me sinto muito feliz por eles terem escolhido o Brasil como país para fixarem moradia, visto que aqui o povo sempre foi muito acolhedor", opina Ayumi.
Ela agradece, também, toda a proteção que recebeu dos pais, já que não se sentiu atingida por todos estes obstáculos pelos quais eles tiveram que atravessar.
Para ela, é muito importante fazer este resgate da história dos seus antepassados para manter vivo os laços que uniram tantas pessoas e hoje forma sua família.
Fonte:
Yusuke Miyazaki
Equipe INEMA
Fonte:
Ayumi Miyazaki Cidade:
Porto Alegre-RS-Brasil Fotos: Ayumi Miyazaki Publicado: Ayumi Miyazaki Date: 17/01/2003
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Yusuke, na escola no Japão
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No navio: vinda para o Brasil!
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As fotos relacionadas abaixo foram tiradas no Brasil
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Fotos da vinda da minha esposa do Japão
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Gincanas que eram feitas dentro do navio, pois a viagem era longa
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A famíla completa, todos que vieram do Japão
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