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Confira o relato desse passeio de bike, que percorreu as estradas de Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Às 9h da manhã, acabávamos de retirar as quatro bicicletas e as mochilas do ônibus que nos levara de Porto Alegre (saída às 6h) a São Francisco de Paula. Era Sábado, 24/08/2002.
Dali sairíamos para a mais longa pedalada que jamais havíamos feito: 153 Km de retas, curvas, subidas e descidas. Quilômetros de companheirismo, reminiscências e aventura.
Após alguns contratempos e ajustes com uma das bicicletas, saímos às 10h15min de São Francisco, sob um céu cinza e friozinho agradável, pela RS-020. Quatro amigos de infância (hoje na casa dos 30 anos): Everton, José Ronaldo, e os irmãos Paulo Henrique e Alexandre — um técnico em ótica, dois empresários e um jornalista.
Vencemos os primeiros 40 Km em duas horas, parando no Café Tainhas para um lanche, depois de alguns alongamentos. Comentávamos como havia sido fácil até ali. Era apenas o começo. Os próximos 35 Km até Cambará do Sul seriam bem mais desafiadores para nossos músculos e bicicletas sobrecarregadas.
Estávamos preparados para acampar. Por isso, levávamos barraca, panelas, comida, etc. A RS-020, depois de atravessar a BR-453 (Rota do Sol), tem muitas subidas e descidas. A cada nova subida, os músculos pareciam perguntar: “Dá pra tomar uma Kaiser antes?”, como na propaganda de cerveja. Mas o cérebro respondia: “Falta pouco...” pra terminar aquela subida, é claro, pois logo viria outra e outra e outra, até que a cãibra nos fizesse parar. E foi o que aconteceu.
Após uma redistribuição do peso, algum descanso e muitas — mas muitas — risadas, saíamos novamente. Fizemos duas paradas até Cambará do Sul, e lá chegamos um pouco antes das 18h.
Muito cansados e com o sol se pondo, decidimos dormir em uma pousada. Paramos na Pousada Fortaleza — muito agradável —, tomamos banho e saímos para a melhor refeição que um sujeito poderia fazer: churrasco e comida caseira, com os temperos adicionais da fome e do desgaste físico.
Talvez fosse melhor o dono da churrascaria não ter aberto naquela noite, pois éramos quatro bocas sem fundo. Comemos muito as saborosas carnes, pratos quentes e saladas da Churrascaria Fogão Campeiro e brindamos com uma cerveja bem gelada.
Caminhamos um pouco pelo centro — pra baixar a comida e eliminar os gases — e fomos dormir por volta das 22h.
Acordamos às 7h30min e tomamos um amargo e forte chimarrão com a erva Martin Fierro, enquanto um sol morno anunciava um bonito dia.
Logo tomamos o café da manhã, arrumamos as bicicletas e saímos para a segunda etapa: uma estrada de chão batido, com visual deslumbrante, seria nossa companheira até o Parque Nacional dos Aparados da Serra.
A partir dali a viagem passava a ficar mais emocionante: subidas que lavavam o corpo de suor e descidas que lavavam a alma com descargas abundantes de adrenalina. Era algo como se sentir realmente livre e parte de um mundo belo e sem problemas. Pelo menos ali, naqueles instantes.
Nada comparado com o impacto visual — espiritual, diria — dos paredões de pedra, donde surgiam arbustos e belíssimas quedas d’água: o Cânion Itaimbezinho.
Ali éramos pequenos diante da majestosa natureza. Nenhuma palavra. Exatamente nenhuma palavra foi o que dissemos nos primeiros eternos segundos diante daquela vista. Mudos, contemplávamos a fenda ambígua que nos levava ao mundo natural, real, ao mesmo tempo que nos elevava sobre ele, carregados pela fantasia: o mundo era generoso!
Era o topo da aventura. Dali passávamos a voltar para casa. Desceríamos a Serra do Faxinal até Praia Grande–SC e pegaríamos o ônibus de volta a Porto Alegre, em Vila São João–SC.
Essa narrativa poderia terminar aqui, porém, muita coisa ainda estava por acontecer. Na delirante descida da serra, uma das bicicletas teve o pneu furado, e, numa sucessão de desencontros e afobamentos, acabamos nos separando. Eram 5 e meia da tarde de Domingo, quando, sem querer, ficamos em duplas: uma concluindo a descida e outra tentando consertar a bicicleta no meio da serra.
Só fomos nos encontrar às 7 e meia da noite, em Praia Grande, quando já perdêramos o ônibus. Mais uma câmera teve de ser trocada e, então, partimos com novo destino: Torres–RS, onde esperávamos encontrar um ônibus para Porto Alegre.
Chegamos a Torres por volta das 11h da noite de Domingo, depois de pedalarmos aproximadamente 50 Km na companhia de uma belíssima lua cheia. Rodoviária fechada, só restava um bom banho e uma cama merecida para o descanso.
Às 5h da manhã de Segunda-feira, acordamos para a última pedalada antes de chegarmos a Porto Alegre, da pousada até a rodoviária. Depois de alguns contratempos para embarcarmos as bicicletas, lá estávamos nós no ônibus de volta à vidinha na capital.
Participantes:
Alexandre Leboutte da Fonseca, 32 anos.
Everton Fonseca Peter, 33 anos.
José Ronaldo Noble Morsch, 33 anos.
Paulo Henrique Leboutte da Fonseca, 33 anos.
Fonte:
Alexandre Leboutte da Fonseca
Fonte:
José Ronaldo Noble Morsch Cidade:
Porto Alegre-RS Fotos: Alexandre Leboutte da Fonseca Publicado: Patrícia Mallmann Garcia DATA: 03/02/2003
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