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Cicloturismo São Paulo - Santa Cruz do Sul

"Foram 19 dias, mais de 2000 Km rodado, mas o mais importante: o sentimento de missão cumprida!"

Saí de ônibus de Santa Cruz do Sul às 20:00 hs do dia 03 de Dezembro, com destino a Curitiba. Saí de ônibus de Santa Cruz do Sul às 20:00 hs do dia 03 de Dezembro, com destino a Curitiba. Saí de ônibus de Santa Cruz do Sul às 20:00 hs do dia 03 de Dezembro, com destino a Curitiba. Chegando na capital paranaense tive que embarcar em outro ônibus para Jacupiranga, chegando nesta cidade no estado de São Paulo por volta 17 horas.

Conhecendo o Vale do Ribeira: a Queda do Meu Deus, a Caverna do Diabo e Petar.
Saí de Jacupiranga por volta das 5:30 hs do dia 04 de dezembro, pedalei uns 24 Km até Eldorado, estrada muito boa, pois não tem muita subida e o cenário é muito acolhedor para quem procura tranqüilidade. Vale lembrar que essa cidade teve a busca do ouro como ícone de sua história, visto a olho nu, o metal era retirado do fundo dos rios e das minas em abundância. Na verdade o ouro já acabou há muito tempo, e as riquezas encontradas lá hoje em dia são as belezas naturais e eram estas belezas que eu estava a procura. Depois de Eldorado, aproveitei o final do dia, para pedalar mais 32 Km, sempre tendo a companhia do rio Ribeira, ao lado direito da estrada. Pousei na casa do Sr. Tirso, que tem um bar a beira da estrada e onde fica a cachoeira do Sapatú.

No 2° dia, fui conhecer a Queda do Meu Deus e a Caverna do Diabo. A Queda do Meu Deus é uma cachoeira de 53 m de altura e faz parte de um roteiro chamado Vale das Ostras, que consiste em 10 cachoeiras menores de 10 e 25 m e várias piscinas naturais para banho e mergulho. Já a Caverna do Diabo localiza-se a 45 Km da cidade, e é sem dúvida a mais visitada do Brasil, nesta caverna possui um riacho que entra pela boca da caverna e percorre toda ela, descendo pelo seu terreno acidentado. Existe imensas formações na Caverna do Diabo, colunas com mais de 5m de diâmetro e 20m de altura, os primeiros salões chegam a ter 60 m de altura,e são mais de 8 km de caverna.

É praticamente impossível chegar em Iporanga , sem parar para observar a quantidade enorme de belezas naturais, suas majestosas colinas com seu ar misterioso e saudável. Depois de conhecer essa pequena e antiga cidade, que foi colonizada no Brasil colonial devido às minas de ouro, fui até o Núcleo Santana, parque do Petar, onde montei acampamento. Este abriga um valioso patrimônio natural da Região do Alto Ribeira composto por sítios paleontológicos, arqueológicos e históricos além da grande diversidade biológica característica da Mata Atlântica preservada em todo o parque, mas a maior atração é sem dúvida sua riqueza espeleológica. São mais de 250 Cavernas cadastradas o que faz uma das maiores concentrações deste gênero no Brasil. A ação da água ácida, provocada pela alta precipitação chuvosa nesta região, sobre as rochas calcáreas, propiciou durante milhares de anos a formação de cavernas com piso, paredes e tetos ornamentados por inúmeros espeleotemas (estalactites, estalagmites, colunas, cortinas, etc).

Tive o prazer de sentir de perto o clima da mata atlântica, pois no Núcleo Santanna, dormi em baixo de uma cabana, no meio da natureza, tinha muita vida neste lugar, pois eram intensos os diversos tipos de sons que surgiam de dentro da mata. Depois de cruzar as corredeiras do rio Bethary, boa para a prática do bóia-cross, fui conhecer as Caverna Santana, Morro Preto, Água Suja e fiz uma travessia na Caverna do Couto. Além das cavernas, há cachoeiras, mata preservada e piscinas naturais. Seguindo para Apiaí, tive que me superar bastante para vencer as longas subidas com muita lama, são 23 Km só de morro. Na saída de Apiaí em direção a Barra do Chapéu, também se sobe praticamente uns 7 Km, mas depois a estrada compensa com um visual muito bonito de cima da serra. A cidade de Barra do Chapéu, é movida pela agricultura do tomate e seu povo simples tem um espírito muito acolhedor, pois até dormi em uma creche da prefeitura. Contando com a ajuda de guia local, fui até a Cachoeira da Usina, uma imensa queda d’água, que gerava energia em um gerador antigamente.

PERCORRENDO A ROTA DOS TROPEIROS.
Itararé – Piraí do sul – Castro – Ponta Grossa – Lapa – Rio Negro
Vencido um trecho de estrada de chão, que separa as cidades de Barra do Chapéu de Bom Sucesso de Itararé. Fui recompensado por uma estrada asfaltada muito boa. Na saída de Bom Sucesso a estrada recorta imensas formações de pedras, lugar muito bonito, ideal para escaladas. Neste trecho, a ação humana fez com que a mata atlântica desse lugar às florestas artificiais de pinnus e eucaliptos, por sinal, são as maiores do mundo. No caminho para Itararé descobri uma enorme queda d’água, com mais de 100 m, num lugar espetacular, em meio a grandes cânions. Foi em uma parada para tomar água, próximo a um assentamento dos Sem Terras, que fui informado da tal cachoeira e contei com o auxilio de um dos assentados, que me mostrou o caminho.

Conhecer a Gruta da Barragem faz parte do roteiro de quem vai a Itararé, lugar sagrado onde muitos dizem terem seus pedidos atendidos por uma santa que lá existe. Depois de fazer meus pedidos, seguia em direção à Piraí do Sul, gradativamente vão surgindo copas de pinheiros, afloram pequenos capões de mato com árvores pequenas e tortas do cerrado, despontam rochas arenosas de forma estranhas, inúmeros riachos corriam por dentro de lajeados de pedra, formando seqüências de pequenas quedas d’água. Não era por acaso que os antigos tropeiros escolheram esse caminho como passagem para São Paulo, pois as belezas que esse trecho nos mostra são para sempre lembrados.

CONHECENDO O CÂNION GUARTELÁ EM CASTRO.
Uma grande surpresa estava por vir no 6° dia de viagem, o grande Parque do Guartelá. Chegando em Castro, segui por uma estrada asfaltada que segue para Tibagi, depois de uns 60 Km, cheguei no tal parque onde possui o 6° maior cânion do mundo em extensão. Com 798,8 ha, guarda muitos atrativos como a Cachoeira da Ponte de Pedra com seus 200 m de queda d’água, a gruta da Pedra Ume, a panela do Sumidouro, quedas d’água, corredeiras, formações areníticas e inscrições rupestres, sem falar das espécies animais e vegetais típicas do cerrado, além do cânion com aproximadamente 32 Km ao longo do rio Iapó, afluente do rio Tibagi. A origem do nome Guartelá vem de uma expressão antiga “Guarda-te-lá, que aqui bem fico”, forma de comunicação entre os pioneiros para se prevenirem de ataques indígenas. As marcas de seus primeiros habitantes estão registradas nas pinturas encontradas nas rochas.

PONTA GROSSA E SUAS DVERSAS ATRAÇÕES.
Em meu 7° dia de viagem estava em Ponta Grossa, cidade esta que servia de pouso para aqueles que passavam pelo “Caminho do Viamão”, tradicional rota utilizada pelos tropeiros que traziam o gado do Rio Grande do Sul p/ ser comercializado em São Paulo. Ponta Grossa congrega um complexo de atrativos naturais, que se revelam em meio à paisagens da região dos Campos Gerais que me proporcionou a oportunidade de desfrutar de um dos mais belos atrativos, o “Buraco do Padre”. O local, muito curioso, é uma furna que apresenta em seu interior uma iponente cascata. Localizada no distrito de Itaiacoca, a 26 Km do centro da cidade de Ponta Grossa. Tem também inúmeras outras atrações como o Parque Estadual de Ponta Grossa que tem em seu interior o conjunto - Arenitos, Furnas e Lagoa Dourada, o Cânion do Rio São Jorge, o Capão da Onça que é um balneário natural com cachoeiras, corredeiras e piscinas naturais, a Cachoeira da Mariquinha e inúmeras outras atrações naturais, históricas e culturais.

LAPA UMA CIDADE COM MEMÓRIA.
Viajar não é apenas desfrutar das belezas que a natureza tem a nos oferecer, ou a oportunidade de conhecer pessoas e hábitos diferentes, vai mais além, é também mergulhar no passado e descobrir as origens que nos remontam. Um lugar interessante, para vivenciar de perto as emoções da nossa história, é Lapa.

A Lapa nasceu do cansaço, da fadiga, da audácia, da coragem e da força dos tropeiros, que abriram caminhos pelas matas, derrubando florestas, atravessando rios, superando obstáculo, às vezes sacrificando suas próprias vidas. A Lapa foi, em determinado momento de sua existência, palco de um grande confronto bélico entre maragatos e as forças republicanas, acontecimento militar, que contribuiu para a consolidação da República.No dia 17 de Janeiro de 1894, uma legião de 639 homens formando forças regulares e de patriotas, chefiada pelo Coronel Carneiro,enfrentava bravamente as forças revolucionárias formadas por cerca de 3000 combatentes. A Lapa sitiada resistiu durante 26 dias. Mesmo ferido mortalmente, Carneiro repetia a seus homens “Resistamos camaradas, porque nós, soldados, não temos direitos mas apenas deveres a cumprir, e os deveres de um soldado resumem-se num único: queimar o último cartucho e depois morrer”.

A Lapa possui no seu centro histórico 14 quarteirões com 235 imóveis. Neste espaço, muitas são as casas que guardam a arquitetura típica das classes abastadas. Casas caiadas de branco, rosa, amarelo ou azul, todas testemunhas da história. Depois de percorrer as ruas de Lapa prossegui para Santa Catarina passando ainda por Rio Negro, Mafra e Rio Negrinhos.

SANTA CATARINA: DO VALE DO ITAJAÍ AO CAMINHO DAS NEVES.
Corupá – Urubici – Bom Jardim da Serra
CORUPÁ.
Após cruzar a divisa dos estados do Paraná com Santa Catarina, cheguei na cidade de Rio Negrinhos. E foi folheando um folder que descobri um lugar que não poderia deixar de conhecer, era um parque em Corupá que possui 14 cachoeiras. Já fazia 10 dias de estrada, e parti em direção ao tão falado “Vale do Itajaí”. Depois de descer apreciando a bonita serra de São Bento do Sul, finalmente cheguei em Corupá. Depois de me informar com os moradores, fui à procura das cachoeiras que ficavam a mais uns 14 Km. Vencidos alguns trechos de serra, agora sim estava no Parque Ecológico Emílio Batistela. Pude ver de perto as 14 imponentes cachoeiras todas elas em uma só valada de serra, sendo a última com 125 m de queda livre. A trilha que leva as cachoeiras é uma subida bem íngreme, e num ambiente mais natural possível, a todo o momento parava para apreciar a grande variedade de espécies de orquídeas, bromélias e palmeiras. As dificuldades da subida são recompensadas pelas belezas naturais.

A BONITA URUBICI.
Já faziam 14 dias de viagem. Depois de Corupá, parei em Guaramirim e Florianópolis. Meu próximo desafio, era encarar a Br 282, p/ Urubici. Depois de deixar Florianópolis, passando por Santo Amaro da Imperatriz comecei a subir o planalto serrano catarinense, era subida que não acabava mais. Tive que abandonar a idéia de chegar em Urubici no 13° dia, montado acampamento ao lado de um bar que ficava as margens da rodovia, logo após Bom Retiro.

No 14° dia faltavam ainda 25 Km para chegar em Urubici, vencida a exuberante Serra do Panelão, finalmente cheguei nessa pequena cidade da serra catarinense.E logo fui conhecer suas belezas incomparáveis, ainda pouco conhecidas pelo turismo interno, mas muito visitadas por extrangeiros, principalmente no inverno quando são comuns generosas nevadas que transforman o lugar em paisagens de sonho.

A emoção de descobrir lugares exóticos às vezes custa algumas doses de sacrifício, e em Urubici não foi diferente. Para chegar no Morro da Igreja, um dos pontos mais altos do Sul do País, com 1828 metros acima do nível do mar, foram 24 Km do centro da cidade sendo os últimos 12 quilômetros de subidas muito íngremes. Mas a oportunidade de poder contemplar de perto aquele visual, onde se localiza a belíssima Pedra Furada, uma verdadeira escultura natural em forma de janela. Naquele horizonte de belezas é possível ver todo o litoral sul de Santa Catarina e uma grande extensão de mar há mais de 150 Km. No Morro da Igreja as temperaturas vão de -10° no inverno a no Maximo 18° no verão.

Tive a oportunidade de contemplar uma outra serra de impressionante beleza, a Serra do Corvo Branco.Depois que desci o Morro da Igreja, são mais 16 Km de estrada de chão até chegar no alto da serra. Nesse local, a estrada impressiona muito pois ela cruza por dentro do maior corte vertical feito em rocha no Brasil. Com várias descidas bastante íngremes, possuem várias curvas muitas fechadas,além de vários mirantes em volta de um cânion, onde se avistam contrafortes de serra e o litoral sul de Santa Catarina.É uma paisagem inesquecível.

O PORTAL DA SERRA GERAL: BOM JARDIM DA SERRA.
Chegando em Bom Jardim da Serra, que é a cidade portal da região serrana. Segui mais uns 11 Km, para chegar na famosa Serra do Rio do Rastro. Do mirante da serra, pode-se encher os olhos da beleza dessa região privilegiada e dos contornos das sinuosas curvas da SC-438, que sobe os 1.467m em menos de 20 Km, é um dos mais bonitos cartões postais do sul do país.

No 15° dia de estrada, estava quase na divisa dos estados, seguindo por uma estrada precária com muitas subidas que segue em direção ao primeiro povoado gaúcho de Silveira. Neste dia, fui acolhido pelo carisma de uma família simples do interior, que me deram muita atenção, ofereceram pouso e uma deliciosa comida típica do interior, a bondade dessas pessoas são memórias que ficarão guardadas para sempre.

NOS CAMPOS DE CIMA DA SERRA EM SÃO JOSÉ DOS AUSENTES.
No 16° dia, faltava ainda uns 65Km para chegar em São José dos Ausentes. A paisagem mais comum desse lugar é a das coxilhas que se estendem sobre o alto da serra, formando campos cobertos de gramíneas, é como se o pampa tivesse subido a serra. Esse lugar recebe um nome um tanto óbvio: Campos de Cima da Serra, que explica a geografia do lugar. Antes de chegar em Silveira, passei pelo ponto mais alto do Rio Grande do Sul, o Monte Negro, com 1398 m. De perto parece piada: um morrinho que se sobe em poucos minutos. Mas só a base do Morro já está a mais de 1000m do nível do mar. É bem fácil perceber: logo ao lado, o enorme paredão da Serra Geral desaba violentamente rumo ao litoral para formar o Cânion do Monte Negro. Depois passei por Silveira, e mais uns 20 Km estava em Ausentes.

OS CÂNIONS EM CAMBARÁ DO SUL.
De São José dos Ausentes até Cambará foram mais 50Km de muito pesadelo! A estrada quando não tinha muitas pedras, era pura lama, o que provocou alguns tombos em algumas descidas, devido aos pneus lisos. Mas nada de grave, pois sabia que o paraíso estava à poucas horas dali e isto que me motivava. Chegando em Cambará fui conhecer o Cânion Fortaleza, que fica à 23 Km do centro da cidade. Chegando no local, uma forte serração dificultava a visão do imponente cânion com seus 7,5 Km de extensão, por 900 m de profundidade e 1.500 m de largura. A solidão e a amplitude da região desperta a sensação de paz e tranqüilidade.

No meu penúltimo dia, resolvi passar pelo Cânion Itaimbezinho, depois de 16 Km de Cambará, o clima úmido não permitiu a observação de um dos cânions mais verticais do mundo. Localizado dentro do Parque Nacional dos Aparados da Serra, caracteriza-se por paredões verticais que atingem 720 m de altura e 7 Km de extensão. Depois de 3 dias andando em estradas de chão, nada melhor que pegar um asfalto, para chegar em Caxias do Sul. Faltava só mais um dia!

O ÚLTIMO DIA: SAÍDA DE CAXIAS DO SUL E CHEGADA EM SANTA CRUZ DO SUL.
O último dia era tudo festa, só faltava estourar champanhe, pois um dos pneus já tinha estourado 4 vezes, acho até que ele também estava querendo festejar. Depois de passar por Farroupilha, Garibaldi, Estrela onde tive que realizar uma trocar de pneu. Lajeado e Venâncio, finalmente cheguei em Santa Cruz do sul, no dia 22 de Dezembro de 2002. Foram 19 dias, mais de 2000 Km rodado, mas o mais importante, o sentimento de missão cumprida!

Fonte:
Luiz M. Faccin
e-mail: faccin@viavale.com.br

Fonte: Luiz Maganini Faccin
Cidade: Santa cruz do Sul-RS
Fotos: Felipe Kipper
Publicado: Daiana Ruff da Silva
DATA: 01/04/2003 <%insert_data_here%>

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