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Parte 4 - Diário de Bordo Refeno 2002.
Quando acordo, já estamos entrando no porto, bóias de bombordo e boreste, Roberto no comando e Marco Zero, Pic, Canal do Cabanga, todos a postos, ali tem uma baliza, olha o pau, eu estou vendo um ali perto dos armazéns... Assim, chegamos ao clube, 38 horas depois, satisfeitos, a Renata com os olhos cheios de lágrimas, disse que não acreditava que seu barco, o Moana estivesse ali, no meio de todos os outros... Que bom, sonho realizado.
Sobre o Guiga, como comandante, posso dizer que ele reúne todos as qualidades e dentre elas uma especial que é a calma e tranqüilidade, transmitindo a todos, segurança e cordialidade. Valeu comandante.
Aos demais, meus agradecimentos pelas horas memoráveis que vivemos e que agora, com esse breve relato, passa a integrar meus guardados e se torna mais difícil esquecer.
Próxima semana; Recife, chegamos de carro no cabanga, o frenesi instalado, gente pra todo lado, barco, velas, viveres, gente passeando de inflável entre os barcos e a vida fluindo louca e intensamente.
Dia da largada, 21 de setembro 2002, tensão a mil, todos os preparativos em ordem, e somos o último barco a sair do clube, o Carcará do Paulo Almeida segue na frente e como conhece melhor do que ninguém o canal, fizemos mira em sua esteira e seguimos até o PIC. Agora a tripulação contava com o Guilherme, o Marcelo havia ficado em Recife, apenas essa alteração. Aproveito a parada e conhecendo bem o primeiro dia de regata onde todos estão excitados a fome não aparece, porem, ao chegar a noite estaríamos debilitados.
Sendo assim, propus almoçarmos logo antes da largada. Que tal uma feijoada, vamos fazer esforço extra nas primeiras horas e estaremos abastecidos. Isto feito, todos de barriguinha cheias e a hora se aproxima, a largada esse ano vai ser no Marco Zero do Recife aonde já conta um grande aglomeração de gente, palanque, autoridades, o Vice Presidente da República e Governador do Estado presentes e Helena na Tribuna de honra, que tal?
Primeira chamada pelo rádio e nosso grupo, os Bandeiras Brancas, vão para raia, na saída o telefone toca é o Fonseca, nosso presidente da Federação Alagoana e Vela e Motor, na beira do cais do PIC, pede que demos uma passada rápida para uma foto. Legal, a emoção começa a tocar todos. Nos aproximamos do Marco Zero, quando do palanque o locutor anuncia "Ai está o Moana, multicasco com sua alegre tripulação. Estávamos todo vestido com as camisas da Caixa e foi uma alegre passada com direito a assobio e tudo.
Baixa a bandeira da largada, adrenalina a mil por hora, passamos o largo do porto, a saída e a medição da bóia norte, não dá para montá-la nesse bordo, vamos ter que trabalhar. Visto uma luva e na primeira caçada mais forte a catraca que fora reparada, abre o bico. Agora temos que puxar direto no punho da genoa e as coisas começam a ter graça. Todos trabalham muito e aproveitamos a oportunidade para ver o Adrenalina passar garboso e veloz. O Roberto canta, vai ai atras da gente, não é, pelo menos uns dez minutos.
Na montagem da primeira bóia, cometemos um erro e o Moana nega o bordo, esse falha faz o Larissa passar por nós e ainda zonando: "Pelo meio da bóia não dá Moana" mexe com nosso brios, vamos descontar lá na frente.
O Capitão Guiga assume o primeiro trecho, na saída do porto golfinhos vêm alegrar nossa passagem, depois baleias ao largo de Olinda, dessa vez não podemos nos desviar da rota para Noronha e elas ficam ao longe, mesmo assim, vemos seu costado e suas nadadeiras. Bom augúrio, bom, muito bom.
Ainda na seqüência, o Capitão vê uma arraia chita, e chama a Renata para observar, o sol se põe e ao fundo da paisagem alguns barcos, inclusive o que batizamos de Corcel Negro com suas velas em dois mastros. A noite chega e com ela a mais perfeita das luas cheias. Entrando na zona das redes de pesca, uma pega o nosso leme esquerdo, ufa !!! numa jogada rápida e precisa o Capitão auxiliado pelos demais se livra cortando-a num só golpe.
O contra vento aperta, fazemos e refazemos nossas marcações na carta náutica e constatamos a realidade seria dura. O rumo desejado para livrar a corrente e o abatimento seria 060º de agulha e só estávamos conseguindo 045º. Levariam vantagem quem tivesse maior ângulo de orça, o que não era nosso caso.
Jantar, já tinha combinado com o pessoal e fiz uma sopa de legumes, servida em copos, pois o mar não estava dos melhores e o contra vento ajudava a balançar mais o Grande Moana. Nesse momento o barco já bate e molha um pouco, o Capitão se recolhe e dividimos os turnos, Roberto, Guilherme e Eu. Na madrugada peguei o último período e o dia amanhece lindo, o sol trazendo energia e limpidez ao mar.
As horas vão passando, o barco anda no contra vento, bate um pouco e molha, a tripulação conversa alegremente, faz previsões, e chega a hora do almoço, nessa primeira manhã, não tomamos café formal, alguns se arranjaram com um sanduba e todinho ou tampico. O almoço, o Roberto sugere uma maionese de legumes, batatas e cenouras, arroz, carne moída e quiabo cozido. Esse foi nosso almoço, bem comido por todos inclusive com a sobremesa de sempre.... Bis da lacta.
À tarde, quase morremos de rir com as conversas do Guilherme, esse tripulante vale, como todos, um capítulo a parte. É a irreverência, a criatividade e a descontração em pessoa, dotado de uma presença de espírito invejável ele fez da travessia uma festa. Falou do 46, um laxante homeopático e suas epopéias ventrais, não dá para segurar as gargalhadas. Inventou um nome muito sugestivo para uma das partes femininas o tal do "Lagaital" que não deixou de se citado várias e várias vezes na viagem. Impagável.
A noite chega, após o por do sol, mais uma vez lindo, fotos e mais fotos. Ei turma, vamos jantar uma super macarronada? Oba !!! Faz com molho de tomates e salsichas, diz o Rostand. Dito e feito comemos muito, deu até para repetir. Começo a me preocupar com a Renata que passa muito tempo dormindo, meio enjoada. O Guiga tranqüiliza á todos: ela é feita de sono, não esquentem ela, esta bem. Palavra de marido, tá dito, tá aceito.
O Rostand e o Roberto lavam e arrumam a cozinha, os turnos começam e vamos ao trabalho, o vento abre um pouco e nos anima, mesmo assim, já prevemos uns bordos para chegarmos a ilha. A noite transcorre dentro da normalidade, a cada turno uma marcação na carta, estamos ainda sob racionamento de energia, os marcadores nos enganam.
Texto:
Mário Engles
Fonte:
Guilherme Paiva
www.veleiromoana.hpg.com.br
Fonte:
Mário Engles Cidade:
Maceió-AL-Brasil Fotos: Guilherme Paiva Publicado: Ayumi Miyazaki Date: 20/06/2003
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