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Parte 2 - Diário de Bordo Refeno 2002.
A viagem prossegue no contra vento, estamos avançando muito lentamente e dando bordos para terra e para o mar, a tarde vai caindo e, pegou... Pegou... Grita o Rostand. Puxo o serrinha com todo cuidado, já vi a fama do barco de perder peixes no embarque, enquanto isso a turma no convés fazia a festa, Guiga pega o puçá e peixe embarcado, alegria geral. Marcelo e Guiga tratam o danado e eu me preparo para fazê-lo inatura, ali.
Por do sol, amarelão, lindo de morrer, lembro a mulher amada, meus filhos, meus amigos, olho a tripulação quantos sonhos estamos levando ali, quanto heroísmo e trabalho, quanto amor.
O Moana anda sereno, o piloto automático tocando e ele singrando as águas do atlântico nordeste do Brasil... Pessoal, vou fazer uma moqueca para o jantar, moqueca com arroz branco, vamos nessa? O Roberto pergunta, tens leite de coco? Disse que não, ai ele reclama, como é que você vai fazer moqueca sem leite de coco? Deixa comigo... Sou pela simplicidade na cozinha, pouco tempero, sal com comedimento e o sabor natural do alimento.
A moqueca; cortei tomates e cebola em rodelas, acomodei posta por posta, guardando o excesso, acho que a serrinha tinha uns dois kg. Bom, untei bem a panela com azeite de oliva, pus sal, como já disse com parcimônia e cozinhei abrindo a panela de vez enquando para liberar o cheiro do cozimento. O primeiro que sente, dá a nota, ei!!! Isso aí tá cheiroso. O aroma do alimento também faz parte da boa cozinha, estamos no mar e não na cadeia, não é.
Servi uma boa porção para todos e não ouve reclamação, estão me aceitando bem, graças... Graças...
Renata enjoa bastante... Não come nada e o que come devolve ao mar... Ficamos de olho para dar o maior conforto possível, enjôo não é brincadeira, mas, passa e vocês vão ver lá na frente.
Já é noite, o entardecer foi perfeito, agora a noite nos brinda com uma lua de quarto bastante clara, os bordos continua e já há gente dormindo, a praça vai ficando vazia. Faz frio e fico com o turno da madrugada, como sempre aquele do sono incontrolável, simplesmente impossível não cochilar e se assustar com as piabas.
O dia amanhece e os bordos continuam, faço café e frito ovos, pão de caixa, presunto, todinho, tampico, queijo ali em cima da caixa térmica para que façam seus sandubas... Já fico estimulando o almoço, hoje vai ser uma super macarrão com molho de tomates, preparem-se. Marcelo já havia colocado a linha nágua, já pensou outro serrinha hoje, assim vai ser bom demais. O Roberto ainda dorme e logo começa a chegar gente, saindo dos fox holes , gaúitas laterais do Moana.
Renata continua enjoada, come muito pouco e põe para fora, agora era a hora de entrar com a geleia de mocotó em colherinhas a cada 5 minutos, é um santo remédio. Só que não tinha comprado, vou providenciar para a travessia. Sol, bom dia sol, que maravilha agora todos acordados, tomei as últimas duas cervejas que restavam, meus remédios matinais, skol, esse é um de marca que não dispenso.
Rostand e Marcelo de olho da linha, cevando o serrinha e nada... Vem um barco de pesca ao longe e eu começo a fazer o macarrão, tomates e cebolas refogando no azeite e sal, uma massa grano duro espaguete e o fogo a toda... O barco se aproxima e o Guiga olha pra mim e diz, o que é aquilo, esses caras estão pescando de bomba é? Que nada cara aquilo é um esguicho de baleia, BALEIA!!!! Corre-corre, pega a máquina, vamos dar um bordo, a Renata que estava morgando numa tendinha árabe que fizeram para ela, levanta-se e sai aos pulos, corre para frente do barco e começa a assistir o espetáculo.
Um casal de Jubartes faziam evoluções, a maior a bater com a nadadeira peitoral na água levantando aquele aguaceiro, todos empolgados e eu com a máquina a tirar fotos, dezesseis ao todo. Desliga ai a panela do macarrão senão vai derreter, que nada, ninguém queria saber de cozinha, todos a olhar a baleia, lógico um acontecimento raro, pelo menos aqui em nossas navegadas. Bem, a carga de adrenalina foi grande e a Renata, volta curada do enjôo, santas baleias, agora vamos arranjar uma para a travessia a Noronha.
Baleias ao longe, volto a cozinha rápido, desligo o macarrão que esta quase passado do ponto e ponho o complemento do molho de tomates pronto no refogado e começo a servir. Todos servidos inclusive a Renata que come pouco, ainda com medo de enjoar. Barriga cheia, quem vem lavar os pratos? Marcelo se arrisca e vai por ali lavando, graças a Deus temos dois ajudantes de cozinha ótimos, o Marcelo e o Rostand. Cozinha arrumada e já é hora de cantar o jantar.... E ai pessoa, sopão de galinha, legumes e um incremento. Rostand dá uma idéia de colocar ovos no cozimento da sopa, perfeito, faremos isso ai cara, é uma boa e reforça os nutrientes.
Texto:
Mário Engles
Fonte:
Guilherme Paiva
www.veleiromoana.hpg.com.br
Fonte:
Mário Engles Cidade:
Maceió-AL-Brasil Fotos: Guilherme Paiva Publicado: Ayumi Miyazaki Date: 20/06/2003
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