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Três amigos, Alexandre, Remi e Edson, decidiram fazer um fim de ano diferente, e passar o Natal e o Ano Novo na estrada, sem saber exatamente datas e locais, com o objetivo de percorrer o Brasil de norte a sul.
Trecho do Hino Nacional
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso...
De Francisco Manoel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada
Do Oiapoque ao Chuí
Partiram na madrugada do dia 20 de dezembro de 2.003, e foram subindo, traçando uma linha vertical no mapa do Brasil, em direção ao Norte.
Nos três primeiros dias a viagem correu por lugares conhecidos, sem surpresas, no quarto dia entraram na região Norte do Brasil e pousaram em Eldorado dos Carajás.
À partir deste momento, começaram a conhecer este outro país dentro do Brasil, um país com tudo por fazer, onde pouca gente habita áreas imensamente grandes e onde os rios fazem o papel de estradas.
O povo é muito receptivo, mesmo estando imersos em outra cultura, recendo os visitantes como irmãos brasileiros, com um sorriso, com atenção e curiosidade.
Chamou a atenção a falta de muitas coisas comuns para os Brasileiros do Sul, como água tratada, ruas calçadas com paralelepípedos, ou quando de terra, plainas e com sarjeta, calçados nos pés, placas nas motos.
Tudo é muito diferente, ao estilo do povo do Norte do Brasil, ficaram impressionados que os açougues não possuem geladeira, e as carnes eram expostas ao ar livre em frente ao estabelecimento em uma rua de chão batido.
Para os acostumados com o clima temperado, o calor foi demais, pois além de quente é muito úmido, as 7 horas da manhã, a temperatura já beirava 30 graus com quase 100 % de umidade, enquanto as motos se movimentam havia o vento para aplacar o calor, mas no que paravam para abastecer ou pernoitar, suavam o tempo todo, por isso tomaram muita água.
O calor era tanto, que mesmo à noite, qualquer caminhada já provocava um suador.
Na véspera do Natal chegaram a Belém, seu centro histórico, o Mercado Público "Ver o Peso", o Porto Velho e tantos outros recantos, foi uma aula de história e cultura.
No caminho para o Oiapoque tiveram que cruzar o delta do maior rio do mundo, o monumental Amazonas, e a opção para esta travessia foi tomar um barco de madeira do porte de um caminhão grande. O barco era "pinga-pinga" local, que passa de vila em vila e quebra todo o tipo de "galho" no transporte dos ribeirinhos, navegando por canais estreitos e descarregando e carregando mercadorias ao longo do caminho. A viagem levou 37 horas entre Belém e Macapá.
Curiosamente o pessoal da região é acostumado em dormir com redes, nos hotéis há ganchos para pendurarem as redes, afinal quem nasceu e cresceu dormindo em rede não consegue dormir em uma cama. No barco também funciona assim, a turma amontoa as redes umas sobre as outras e se ajeita. Os motociclistas levaram barraca e armaram no teto do barco.
De Macapá foram dormir em Calçoene, cerca de 250 Km antes do Oiapoque, numa típica cidade do Amapá tiveram o prazer de jantar comida local e participar de um baile no Domingo à noite, ali tudo é muito simples, as pessoas vão ao Baile de bicicleta, e bebem cachaça, caipira, cuba libre.
Para entrar no baile não custa nada, mas impressiona a falta de banheiros. Para as necessidades mais urgentes havia uma peça fechada com piso de cimento alisado e uma valeta no piso.
Além da conversa do pessoal curioso sobre as motos e a viagem, se fala muito sobre os garimpos de ouro, que ainda continuam em alta no Amapá e no Pará.
As fontes de renda na região se resumem ao comércio, a pesca, a extração de madeiras e outros produtos naturais, a criação de gado e o transporte.
Segundo os viajantes, de florestas não sobrou nada, tiveram contato com elas apenas nos últimos 150 Km antes do Oiapoque, que por ser uma região de serra, ainda está um pouco preservada, embora também já existam áreas de desmatamento.
No restante do Amapá e no Pará não viram arvores de madeira de lei de nenhum tipo a beira da estrada, sobraram apenas campos ou a vegetação do cerrado.
No entanto, ao longo de toda viagem, encontraram muitas serrarias, todas trabalhando muito, com grandes montes de toras de madeira de lei esperando a vez de serem cortadas, isso chamou a atenção, pois se estão cerrando tanta madeira, isso quer dizer que estão desmatando outras áreas longe das estradas. Esta madeira toda, de excelente qualidade, é enviada para o exterior, exportada.
Um habitante local explicou que antigamente o Brasil mandava a madeira para fora em Toras, com uma nova lei imposta pelo congresso, o Brasil só pode exportar madeira serrada, com isso não diminuiu a quantidade de madeira extraída das florestas, apenas aumentaram o número das serrarias.
Também chama a atenção as imensas montanhas de serragem e sobras do corte, que na maioria dos lugares está sendo queimada a céu aberto. Se houvesse interesse e meios de transportar está serragem, ela poderia ser reciclada como placas de aglomerado, ou aproveitada a queima para geração de energia em caldeiras, mas neste caso isto não ocorre, servindo apenas para poluir.
O Oiapoque é ultima cidade brasileira ao norte, defronte a cidade de São Jorge na Guiana Francesa, separadas apenas pelo rio.
O ponto final do litoral do Brasil ao norte, equivalente a Barra do Chuí ao sul, é o cabo Oiapoque, um parque de preservação com extensa vegetação de mangue, e justamente por ser no mangue não há como construir uma estrada, e a cidade embora não seja no litoral é o último local ao norte do litoral Brasileiro com acesso por estrada.
Curiosamente o ponto mais ao norte do Brasil fica em Roraima, o Monte Caburaí, 84,5 Km mais ao norte que o cabo Oiapoque, em um local que também não tem acesso por estrada, em meio a selva na divisa do Brasil com a Venezuela, assunto para futuras viagens.
No Oiapoque tivemos a oportunidade de conhecer uma cidade que tem um grande futuro como ponto de troca de mercadorias, pois os Franceses com sua moeda, o Euro, possuem um grande poder de compra frente aos produtos ofertados pelos comerciantes Brasileiros no Oiapoque.
São Jorge não chega a ter um comércio forte, é mais um estacionamento e posto de controle, onde os Franceses deixam seus carros e tomam as lanchas em direção a outra margem do rio, fazendo a alegria do pessoal do Oiapoque.
Embora o turismo ainda esteja tímido na região, importantes medidas já foram tomadas pelos 2 governos, com a celebração de um acordo, será construída uma ponte e asfaltado os 352 km que faltam no lado Brasileiro.
Após conheceram um pouco de tudo dos dois lados da fronteira, saíram do Oiapoque no clarear do dia 30 de Dezembro, e com sorte de tempo firme, conseguiram chegar em Macapá as 15:00 h.
Para alegria dos viajantes, o navio que parte diariamente as 10:00 h da manhã tivera problemas, e iria sair as 17:00 h, e melhor ainda, havia uma cabine disponível, acertaram tudo, levaram as motos para o porto e ficaram aguardando o embarque.
O navio ao contrário do barco é de chapas de aço, muito mais veloz e não para ao longo do caminho, é o "Direto" do rio Amazonas, por isso conseguiram fazer a viagem de regresso, cerca de 450 km por água, em 23 horas.
E com uma cabine, puderam dormir em beliches, relativamente confortáveis considerando que a outra opção é a rede ou a barraca.
Tanto na ida como na volta, no barco ou no navio, o valor cobrado para o transporte das motos foi muito elevado. No navio custou R$ 150,00 cada uma e no Barco R$ 100,00 cada, mais caro que o transporte dos passageiros, "afinal as motos não comem, não usam o banheiro, não tomam água, dão menos despesa que os passageiros e pagam mais pelo mesmo transporte".
De volta a Belém, decidiram passar o ano novo em Mosqueiro, praia tradicional de Belém, destaque para o costume das famílias de fazerem a ceia ao ar livre, muitas na beira do mar ou sobre o calçadão.
Recuperados e cheios de energia caíram na estrada e aceleraram forte, para em 6 dias chegarem ao Chuí.
No caminho, em Natividade encontraram 4 mineiros do Moto Clube Easy Riders, que estavam no primeiro dia da viagem no sentido Oiapoque, para os quais puderam passar muitas dicas quentes.
A passagem por Brasília no retorno foi breve, mas muito marcante, pelo contraste entre o norte e Brasília.
Julgam ter feito um novo recorde, do Oiapoque ao Chuí em 8 dias, foram 5.250 Km por estradas asfaltadas e 352 Km por estrada de chão, mais 450 Km pelo rio Amazonas.
A moto mais econômica foi a TDM que rendeu 23,3 Km/litro, enquanto a que mais gastou foi a CAGIVA com 16 Km/litro.
A velocidade real ficou em 72 Km/h, calculada pelo tempo entre as contas do cartão de crédito, embora na estrada sempre andaram a 100 Km/h.
Alguns postos tinham gasolina muito ruim, houve grande acumulo de resíduos na câmara de combustão, contatados pela Motolak na revisão.
O custo total da viagem para Alexandre foi R$ 2.100,00, incluído aí a Gasolina, óleo, hospedagem, alimentação, barco, navio e tudo mais necessário.
"O maior retorno que tivemos é algo intangível, a sensação de ter percorrido a pátria mãe de norte a sul, de ver com os próprios olhos as diferenças entre as várias regiões, como vive o povo, o tamanho do Brasil. Talvez isso não nos tenha feito melhores, mas nos fez mais brasileiros." concluiu Alexandre.
A aventura rendeu no total 11.132 Km de estradas e 900 Km pelo Rio Amazonas.
Contaram com apoio dos Pneus Rinaldi, que forneceu câmaras e pneus R34. Os pneus tiveram um excelente desempenho, agüentaram toda a viagem, tiveram apenas um furo na moto do Remi (XT 600)devido a um prego.
Apoiaram também a aventura a Motolak, concessionária Yamaha, e o Site www.inema.com.br.
Fonte:
Alexandre Sampaio TDM 225 Yamaha - Moto Clube Bento Gonçalves
Remi Balduino Kolet XT 600 Yamaha - Moto Clube Trilheiros do Asfalto
Edson Pertile Elefant 750 Cagiva - Moto Clube Bento Gonçalves
Fonte:
Alexandre Sampaio Cidade:
Oiapoque ao Chuí-BR-Brasil Fotos: Alexandre Sampaio Publicado: Cristiane Da Ros Date: 19/01/2004
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