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Pedalando pelo Leste Europeu

Argus Caruso, cicloturista que desenvolve um trabalho de educação através de suas viagens, está pedalando pelo leste europeu. Passou pela Hungria e agora está na Romênia.

Hungria
Entrei na Hungria onde o rio Danúbio sai e fui subindo pela sua margem até chegar em Budapeste. Sempre imaginei que uma rota perto do famoso Danúbio seria recheada de castelos e fortificações e não vi nada disso. No fértil vale passei por florestas, plantações e pequenas vilas. Além da agricultura, o país possui também abundantes recursos minerais como manganês, bauxita e carvão.

Apesar de estar “subindo” o Danúbio, todo percurso foi praticamente plano. Hungria é um país sem montanhas e o ponto mais alto tem apenas mil metros. Fácil de pedalar mas com poucas paisagens interessantes. No percurso tive alguns convites para casas e comidas mas acho na Europa será difícil conseguir a mesma hospitalidade que tive quando viajei junto com as três amigas na Eslovênia. O mundo sorri muito mais para as mulheres!

Depois dos dias de camping selvagem na beira do Danúbio, cheguei na linda capital Budapeste (1.836 mil habitantes em 1999) e lá passei quase uma semana esperando o burocrático visto para a Romênia. De bicicleta passei dois dias prazerosamente perdido entre Buda e Peste, as duas margens divididas pelo Danúbio. Basta entrar em uma das várias termas da capital para perceber a rica história dos vários impérios que passaram por lá. Visitei a terma do Hotel Gellért que já foi o banho dos soldados durante o Império Romano, ampliado pelo Império Turco Otomano - profissionais em banhos - e depois reformada com a bela arquitetura Art Nouveau do Império Austro Húngaro.

Andando pelo centro encontrei um casal holandes que esteve em Budapeste há vinte anos e estavam impressionados com as mudanças na cidade. – Antes tudo aqui era cinza, sem vida. Agora está tudo colorido. Disseram. Peguei meu visto, abandonei o curso do Danúbio e segui pela planície do leste húngaro. Na segunda maior cidade da Hungria, Debrecen, com 210 mil habitantes, parei na casa de amigos ciclistas e aproveitei para fazer uma palestra e tentar arrumar o “mural de recados” do site que há tempos estava desativado.

Antes da fronteira fiz um camping nos fundos da casa de uma família muito simpática que acabou me convidando para jantar com eles. Não falavam inglês mas conseguimos nos comunicar um pouco. Foi a primeira vez que fiquei na casa de ciganos e a experiência foi muito boa, principalmente para eu perder uma discriminação estúpida (que redundância...) que eu possuia desse povo.

Romênia
Com a derrota do Império Austro Húngaro na I Guerra Mundial, a Hungria perdeu mais de dois terços de seu território. Umas das áreas é a Transilvânia (terra do “drácula”) que hoje faz parte da Romênia. Como todo “bom vizinho” o tempo todo escutei um falando mal do outro, mas parece que possuem boas relações diplomáticas. Na Romênia ainda existem várias vilas cuja maioria da população é húngara. Na Transilvânia é onde estão os lindos montes Cárpatos. Pelas pequenas estradas de terra que atravessam a região vi cenas inacreditavelmente belas. Tive momentos em que pude ver mais de dez charretes e nenhum carro.

A melhor parte da viagem está sendo na estrada. As charretes vão quase na mesma velocidade que a bicicleta e várias vezes emparelhamos e vamos conversando por horas. Dependendo da quantidade de Tuica (a cachaça local), as conversas tomam rumos completamente incompreensíveis mas são sempre bem vindas.

A diversão ao atravessar os vilarejos é ficar cumprimentando as velhinhas que ficam sentadas na frente das casas e sempre soltam um sorriso quando me vêem na bicicleta. As pequenas fachadas das casas enganam. Geralmente os terrenos possuem um quintal imenso com plantações e criação de todo tipo de animais. De tarde é comum ver as pessoas voltando do campo, abrindo a porta e colocando mais de dez vacas dentro das casas.

A Romênia possui uma grande comunidade de ciganos (estimada entre 400 mil e 1,5 milhão). No caminho passei por vários acampamentos de plástico onde vivem em situação muito precária. Num dos acampamentos me pararam na estrada. Lembrei dos amigos ciganos da Hungria e resolvi tentar conversar e me aproximar deles. A primeira reação de todos da vila foi aproximar e pedir dinheiro.

Com mímica expliquei que não sou rico para poder distribuir dinheiro. “– Bicicleta! No car! Brasil! Not Europe! I also need money!” Eu falava para eles. Depois de algum tempo foram criados dois grupos de ciganos. Um acreditava que eu viajava de bicicleta porque sou muito rico, outro acreditava que sou muito pobre. Uma discussão realmente interessante... No final o segundo grupo me ofereceu uma sopa. Comi um pouco e segui viagem.

É um consenso entre os romenos de serem pobres e perigosos. Acho que a idéia de pobreza vem com referência do vizinho rico, a Europa Ocidental. Sim, são pobres, mas passei por países muito mais pobres onde as pessoas não se torturam tanto por isso. Mas a idéia de perigo eu ainda não consegui entender de onde vem. Na casa de amigos em Alba Iulia estávamos conversando sobre isso e por coincidência começou a passar na televisão o filme brasileiro Cidade de Deus. Ficaram de boca aberta com tanta violência e não acreditaram quando eu falei que isso não é ficção, mas sim o retrato da nossa realidade. Então entenderam o porquê da minha tranqüilidade aqui.

Na Romênia tive uma oportunidade muito bacana de visitar a escola onde estuda a equipe campeã mundial e olímpica de ginástica. Parabéns para vocês! O verão mal chegou e já está indo embora. Começaram as chuvas e o frio... Agora estou em Sibiu a caminho para Bucareste, de onde irei de avião direto para o Quênia na África para estender a volta ao mundo e conhecer um pouco mais do nosso continente irmão.

Fonte: Argus Caruso
Cidade: Leste Europeu-EX-EX
Fotos: Argus Caruso
Publicado: Tatiana Lopes
Date: 05/10/2004 <%insert_data_here%>

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  Evento 2103 - Pedalando & Educando

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