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Argus Caruso, do projeto “Pedalando & Educando”, está de volta ao Brasil depois de percorrer o mundo de bike. Mas continua longe de casa, com muito chão para pedalar por terras brasileiras!
Depois de dois dias de conexões e vôos, cheguei em Recife e, pela última vez, desembalei a bicicleta e sai pedalando do aeroporto para o centro. Quase fui atropelado duas vezes e me assustei com a imensidão da cidade. A capital pernambucana é muito maior do que capitais de vários países que conheci. Agora estou sem saber se o Brasil é o vigésimo nono ou novamente o primeiro país do percurso. Depois de tanto tempo vendo o mundo com os olhos de um observador, aqui no Brasil estou me readaptando à mescla de espectador e parte da vida local.
Recife parece ter ficado por muito tempo fadada ao paradigma da pequena cidade das belas praias e do frevo com suas expressões culturais apagadas pelo eixo Rio-São Paulo. Mas Recife é imensa em tamanho e arte. Sua riqueza cultural sempre existiu (salve Luiz Gonzaga) mas agora está em parceria com a auto-estima que chegou em avalanche desde os tempos de Chico Science e o movimento Mangue.
Vivi nostalgicamente caminhando pelo conturbado centro com o prazer de ser mais um no meio da multidão. Poder novamente me comunicar com todos e entender os milhões de códigos cuja percepção vai muito além do conhecimento do idioma. Tive sorte, cheguei já com contatos de bons amigos e habitei na casa de vários. A primeira casa possui uma porta que projetei e eu nem sabia que existia uma cópia aqui em Recife. Foi ela a primeira porta que se abriu para mim no Brasil. Que bacana.
Logo conheci muitos outros amigos. O nordeste tem um calor humano que impressiona. Em poucos dias comecei a encontrar conhecidos pela rua e me sentir como um morador local. Parece que aqui todos gostam de ir para as ruas e festejar. Não por acaso, a maior concentração de pessoas nas ruas do mundo é no carnaval de Recife, quando acontece o famoso Galo da Madrugada.
Infelizmente a festividade e a alegria são para poucos. A grande maioria da população vive em péssimas condições e muitos sobrevivem pior que um cachorro pelas ruas. De todas as dores que essas cenas de miséria possam transmitir, a pior delas é perceber que isso já virou rotina e são poucos os que ainda se sensibilizam ao passar por alguém morrendo de fome na calçada.
Em toda a viagem encontrei turistas de várias partes, principalmente europeus, me perguntando sobre a violência no Brasil. Sempre respondo que ela realmente existe e que, por exemplo, o filme “Cidade de Deus” não é ficção. Mas essa violência está concentrada nas grandes cidades, onde as diferenças sociais e a guerra civil ficam mais explícitas. Mas o Brasil é imenso e, principalmente nos pequenos vilarejos, é possível encontrar uma segurança perfeita. Sigo a viagem tranquilo e desarmado, carregando apenas corpo e alma. Cem por cento partidário do projeto de desarmamento que está tentando ser implantado no país.
Mais uma vez o ser humano brincou de Deus e fez uma interferência catastrófica no meio ambiente. Dessa vez foi a construção do porto de Suape e de alguns hotéis da região. Isso desestabilizou a fauna marinha e hoje os tubarões, por falta de alimento, estão atacando os banhistas. Agora todos que gostam do mar, principalmente os surfistas, vivem o masoquismo de ir na praia e não poder nadar.
No Marco Zero, onde está ereta a escultura de Brennand, encontrei uma garotada pulando na água. Ali, pela primeira vez no Brasil, pude reunir uma turma para mostrar fotos e falar dos países que visitei. Foi quando me dei conta do desconhecimento que nós brasileiros temos do mundo, principalmente dos países que nunca tiveram oportunidade de contar sua história.
Agora seguirei viagem mais leve. Despachei o meu notebook, barraca, saco de dormir e outras luxuosidades que me pesavam. Seguirei confiante em encontrar hospitalidade e condições de escrever e manter o site independente do notebook. Estou com o pensamento de pedalar diretamente na areia da praia até o sul da Bahia, aproximadamente mil e quinhentos quilômetros daqui, e lá fazer outra parada longa.
Fonte:
Argus Caruso Cidade:
Belo Horizonte-MG-Brasil Fotos: Argus Caruso Publicado: Tatiana Lopes Date: 16/12/2004
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