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32° Diário de Heloisa ao ALASKA - A Volta

Acompanhe a viagem de Heloisa para o Alaska feita entre os meses de abril à novembro de 2003 - Experiências vivenciadas!!!

Com exceção das despesas com manutenção do Troller e transporte do mesmo no Rio Amazonas (ida e volta), América do Sul/América Central (ida e volta), todas as despesas foram divididas com os outros ocupantes, durante o tempo em que estiveram a bordo.

Muitas pessoas ficam curiosas em saber qual viagem foi a melhor, se a da Patagônia se a do Alaska. Não consigo compará-las. São completamente diferentes. A primeira, Natureza pura, e a segunda, além da Natureza, cheia de obstáculos: muitas fronteiras, grandes cidades, diferentes culturas e idiomas.

Ainda está difícil fazer uma análise do Alaska 2003, é tudo muito recente, mas já dá para fazer um pequeno resumo. A primeira coisa diz respeito ao planejamento. Falhei ao subestimar as dificuldades e distâncias, e superestimar meu preparo físico. Assim, elaborei um calendário meio apertado, o que me deixou, em algumas ocasiões, sem muito tempo para descansar e escrever como gostaria.

Quando entrei na América Central, constatei que a Expedição não podia ser solitária. É uma experiência muito rica para ser vivida por uma pessoa só. Assim é que, durante os sete meses de viagem, estive acompanhada. A Vovó Cristina foi passageira, durante três meses, desde Fortaleza até Los Angeles, e a Vovó Tamara encontrou-nos em Cartagena, ficando quarenta e cinco dias, indo também até Los Angeles.

O Haroldo me acompanhou a partir de Los Angeles por quatro meses. Foi ótimo! Assim, dividi a direção, venturas, aventuras, desventuras e despesas com a Cristina e Tamara e depois com o Haroldo. Agora, temos muitas histórias divididas para contarmos, trocarmos idéias e nos divertirmos.

Cada dia mais me convenço de que a opção por viajar por estradas é, sem dúvida, a melhor, e que, a terceira idade pode ser mesmo a idade da aventura. Idade pronta para vencer obstáculos e de olhos lentos para captar os matizes de cada cena. De carro, tive a oportunidade de conhecer a América Central, até então totalmente desconhecida.

Desde a tecnologia sofisticada do Canal do Panamá até o rústico tear manual indígena na Guatemala, desfilaram pela janela do Troller, lagos, vulcões, cores e muitas cores, florestas enevoadas, ruínas maias, os Oceanos Pacífico e Atlântico, assim como a pobreza de alguns países se recuperando de anos e anos de guerra civil manipulada e o enorme esforço da população para sobreviver.

Dificilmente, em um esquema de turismo convenciona, eu poderia visitar calmamente, comparando as culturas do El Tajin, Palenque, Uxmal, Chichén Itzá e Tulum, no México, e, muito menos, ficar cara a cara, durante muito tempo, com as inúmeras cabeças Olmecas, espalhadas entre El Tajin e a Península de Yucatán, tentando decifrar suas expressões enigmáticas.

Os Grand Canyons, nos Estados Unidos, foram percorridos de ponta a ponta. Até hoje, as cores ao entardecer e aquela grandiosidade, estão para caber em mim, definindo o meu minúsculo tamanho.

Não dá para sentir as belezas diárias do Canadá, correndo p’ra lá e p’ra cá. Suas montanhas, lagos coloridos, pradarias, trilhas e vilas românticas da Nova Scotia têm que ser sentidos vagarosamente e, vagarosamente fomos sendo presenteados com a mudança das cores das árvores, com a quase chegada do outono, de verde para amarelo, laranja e vermelho, enquanto o Troller nos levava pela Alaska Highway e atravessávamos o país de um lado a outro.

Da mesma maneira, o Alaska pôde ser visitado devagarzinho, descobrindo estradas escondidas como aquela para apreciar um pôr-do-sol, eleito um dos mais belos momentos da viagem, em Chilkoot-Haines. E Valdez, tão pequena e quieta permitindo-nos ver seu dia-a-dia nas pescarias de salmão, nos barcos ancorados, montanhas cobertas com nuvens esfiapadas, deixando-as quase suspensas...

Encontrando ursos, águias, alces, sucessão de glaciares azuis, cachoeiras, lagos, e muita história de coragem e determinação naquela terra longínqua.

Do carro
Desde o começo do Projeto escolhi o Troller como o meu carro para ir à Patagônia e ao Alaska. Um carro nordestino com a cara de um nordestino, charmoso, forte e criativo. Não fez vergonha na Patagônia e, para variar, no Alaska 2003, também não. Foi um excelente companheiro, robusto, bonito, cômodo e econômico. Sempre despertou muita curiosidade.

Todos o achavam muito parecido com o Jeep Wrangler, mas concordavam que era só parecido. O Troller é mais vigoroso e passa uma imagem bem mais poderosa. Os dois colocados juntos, nem se fala! A carroceria de fibra era também uma coisa que chamava atenção. Os problemas ocorridos durante a viagem foram mínimos para um carro rodando quase 50.000km sem manutenção, só trocando óleo e filtros.

Em Flagstaff, no Arizona, EUA, a caixa de marcha travou. O problema foi ocasionado pela perda da viscosidade do óleo. Havíamos percorrido o deserto do norte do México e sul dos Estados Unidos, durante dias seguidos a temperaturas muito altas. Por isso, naquela região, as pessoas preferem viajar ao entardecer, entrar pela noite adentro e pela madrugada. Mudança do óleo e uma regulagem na embreagem resolveram o assunto.

O segundo fato ocorreu em Pink Mountain em plena Alaska Highway, Canadá. Perdemos duas porquinhas do coletor de admissão do turbo e a fumaça nos assustou muito. Porcas substituídas, tudo resolvido. O terceiro problema ocorreu por falha minha: não levei os filtros de ar e óleo e, como não os encontrei, tive que mandar buscar no Brasil. Um esquecimento que me custou muito caro! E foi só.

Da comunicação
Considero meu espanhol razoável e não tive problemas nos países de língua espanhola. O mesmo não aconteceu com o Inglês. Quando entrei nos EUA fiquei impressionada com o dinheiro jogado fora com cursos intensivos, conversação e outros. Não conseguia entender e muito menos falar. Considero que aprendi muito mais em três meses. Do meio para o fim já estava me virando bem. Nada oxfordiano, mas dava!

A dificuldade de comunicação torna a viagem muito solitária, pois aquela coisa gostosa de trocar informações e experiências fica muito limitada. Nos Estados Unidos, essa dificuldade foi bem maior porque o povo está “pirado” e extremamente fechado depois do 11 de setembro. Já o canadense é muito mais simpático e comunicativo. A curiosidade os fazia ter paciência durante a conversa. Conseguimos conversar bastante e constatamos que nada sabem sobre a América do Sul, muito menos do Brasil.

Com relação à comunicação pela Internet, enviando boletins e respondendo e mails, na América do Sul, Central e México não existe problema, em tudo quanto é lugar se encontra um Cybercafé, mas nos Estados Unidos já é mais complicado. As bibliotecas das pequenas cidades oferecem Internet, mas algumas só para checar as mensagens, não para enviar arquivos. Normalmente os hotéis têm Internet nos quartos e as ligações locais são gratuitas. Então, se você leva um notebook e tem um provedor, não existe dificuldade. No Canadá, normalmente, os Centros de Visitantes oferecem Internet grátis.

Das coisas engraçadas
Há um dito popular que diz, “O que dá p’ra rir, dá p’ra chorar, questão só de peso e medida”. Muitas vezes me ponho a rir ao lembrar de alguns trechos ou de alguma situação difícil.Uma das coisas mais engraçadas foi o boletim da Cristina narrando nossas desventuras na Colômbia. Rimos muito até a próxima desventura.

Na Venezuela, fazendo uma caminhada, ao pedirmos informação sobre como chegar a um Museu, nos disseram que era preciso poupar “las rodillas” e o melhor seria nos “metermos em uma buseta”. Fiquei danada, mas ao entender que buseta é um ônibus pequeno, fomos rindo até chegar ao tal Museu, por sinal muito interessante!

Na América Central, em uma das fronteiras, nem me lembro qual, quando terminamos todos os trâmites e nos dirigíamos para o carro, como se fôssemos um pelotão (só andávamos juntas, lado a lado), olhamos para trás e nos acompanhavam vários homens. Nos disseram com muita simplicidade: “somos los perros! “ Na hora ficamos muito chateadas, mas depois aquilo virou piada.

A Tamara aprendendo inglês, aprendizado instantâneo, aula particular com a Cristina em Flagstaff. No dia seguinte tomaria um ônibus que a levaria a Los Angeles. Se não encontrasse com a Carol, nossa sobrinha, iria ter que se virar sozinha, para chegar ao Aeroporto, comprar passagem, ficar em um hotel. Nossa! A única frase que cabia no momento: “Tamara, cai no chão e finge que tá morta!” No fim deu tudo certo. Encontrou a Carol.

Momentos de muito riso, quando nós, três patetas, tentávamos entender o funcionamento das bombas de combustível. Em algumas tínhamos que fazer um depósito para liberar a bomba, outras só com cartão de crédito, outras ainda só pagávamos no final. Meu Deus! Como dizia a Cristina “cada dia um desafio”...E haja desafio!E a cara do mecânico americano, dando um tapinha no Troller, “good boy”... Era mesminho que dizer “amigo, você está conseguindo sobreviver, apesar da incompetência das meninas!”

E o Haroldo começando a viagem, ao agradecer a alguém “Thank you também”, rá, rá, rá... E quando o fumaceiro cobriu o Troller na Alaska Highway e a dona do hotel chamou “the fire brigade” (bombeiros) e que saímos a toda para a oficina mais próxima, foi gozadíssimo! Quanta felicidade ao escutarmos o americano dizer “very easy”. Mas a felicidade foi efêmera, rapidamente se foi quando ele nos convidou para tomar aquela gororoba que eles chamam de café...Quanto sofrimento. Dá p’ra rir não!

E eu? Absolutamente acovardada, sendo arrastada pelo braço, para uma consulta odontológica, porque meu terceiro molar resolvera doer. Parecia que estava indo para a forca, tal era a falta de confiança nos dentistas daquelas bandas. Que cena! E vai por ai... O importante mesmo é manter o bom humor. Os imprevistos acontecem e fazem parte da aventura. A vida, que é a vida, é cheia de imprevistos! São momentos preciosos que jamais se repetirão! Nada deve estragar a viagem da sua vida!

Do roteiro
O roteiro foi excelente. As alterações foram pequenas. Deixamos de atravessar o Circulo Polar Ártico, a caminho de Inuvick, por causa do tempo. Já estava muito frio. Pela mesma razão não fomos a Newfoundland.

A pior coisa que fizemos foi alterar a rota do México. Abandonamos a estrada do Pacífico, sobre a qual eu tinha todas as informações, para irmos pelo centro, em uma auto-estrada que passava no Distrito Federal. As informações não eram suficientes e caímos nas mãos de policiais corruptos. Cena deprimente!

Do futuro
Levarei algum tempo para “digerir” tudo que vi, vivi e senti. Quem sabe escreva um livro? Por enquanto, não tenho planos para outra viagem. Uma volta ao mundo aos 65 anos? Isso vai demorar muito…

http://www.vovosmilenio.pro.br/

Fonte: Heloisa Helena Cunha Marques
Cidade: Brasil-DF-Brasil
Fotos: Heloisa Helena Cunha Marques
Publicado: Berenice Correa
Date: 22/12/2004 <%insert_data_here%>

  Evento 2212 - Alaska 2003 por Heloisa Helena Cunha Marques

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