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O Barco Moana foi o Campeão da REFENO 2003 na categoria Multicasco D. Confira a 1ª parte do Diário de Bordo escrito por Mário Engels.
Quando pensamos que vai chegar ao fim, começa tudo novamente. Assim como dantes, os infantes a se movimentar entre cabos, velas, metais, bóias e etc. Mais uma REFENO começa. Desta vez não pretendo contar apenas uma história cronologicamente arrumada, mas, e principalmente, entremear outros dados referentes à ilha, sua formação geográfica e histórica.
Nada é tão completo quanto esta viagem, competição e férias ao mesmo tempo, afinal, navegamos 1100 km ida e volta, estivemos numa ilha paraíso, atravessamos do continente para o arquipélago em alto mar, navegando à vela... Muita coisa ainda se parece com as expedições de Colombo e Cabral, acreditem, os sinais de terra, os pássaros, as nuvens prenunciando o "terra à vista", existem mesmo, podemos sentir assim como eles. Um luxo.
Estarei contando um pouco do que passamos e observamos nestes oito dias de prazer e felicidade.
Tensão na largada, Marcos Siqueira, de olho nos outros barcos, o Comandante Guilherme contando o tempo no 3, 2, 1, ouve-se o tiro da largada e a gritaria, caça, caça, adriça a buja... o Moana começa seu deslocamento pela raia do porto do Recife, lado de barlavento, ótima largada.
Cuidado com a bóia norte, montagem obrigatória... vai dar, sem dúvida... vamos lá e assim foi, após a passagem pela bóia livramos a orça forçada e o barco começa a se arrumar... com sua vela branca nova em folha, parecia um vestido de noiva, lindo e andando como nunca.
O mar se muda de verde para azul em pouco tempo, os raios de sol do meio dia e meia vão dando lugar aos contornos da tarde e assim vamos observando os outros barcos a barlavento e a sotavento. Reflito sobre os preparativos e relaxo.
Nossa tripulação conta com o Comandante Guilherme e Renata, sua mulher. Marcos Siqueira, experiente na arte de velejar catamarãs, Rostand o pescador e pai da Renata, Eu e Helena minha mulher que realizava um sonho, ir a Fernando de Noronha velejando. Ela superava também as limitações da esclerose múltipla, dando prova de alto astral e amadurecimento.
Na balada que íamos o vento cai e o Viveiros, trimarã do Comandante Dico, nos passa tomando a dianteira. Hora de tentar o balão, a assimetria do balão não dá para colhermos o vento necessário e aumentar a velocidade. Tentativa frustada, balão retirado e o vento de través começa a apertar com a chegada da noite. A sonda deixa de marcar a profundidade, sinal que estamos com mais de 100 metros de profundidade, a sonda só mede até aí.
Vento forte e o Moana dispara, começa a galgar ondas pequenas porém cadenciadas. Ao olhar para trás o espetáculo do Cisne Branco começa, o Cliper, Navio Veleiro da Marinha Brasileira, vem vencendo a inércia com suas velas distribuídas em três grandes mastros que a cada 10 minutos eram iluminadas por féricos refletores de bordo.
De vez em quando, uma ondinha nos acariciava com seus salpicos salgados. Na frente de João Pessoa PB, redes de pesca, muitas, uma delas pega nosso leme de bombordo, correria no convés, o comandante e Marcos para soltar a rede, depois de algumas tentativas, somente cortando-a. Livres após 20 minutos de luta e a perda dos óculos escuros do Capitão, surrupiado pelo mar.
O piloto automático não engrena e fico ao timão no primeiro turno, que combinamos duas horas pra cada tripulante, Guilherme, Marcos e Eu, o Rostand ainda não tinha entrado no esquema, devido a se encontrar convalescendo de uma queda de cavalo.
No Banco do Brasil, onde trabalha, Rostand fiscaliza propriedades e numa dessas remotas localidades, caiu do animal, luxando umas costelas. No ano passado, cortou o pé e ficou inativo na ilha, lembram?
Os turnos vão acontecendo e o Guilherme consegue fazer o piloto funcionar corretamente, no início uma ajuda na orça e depois nem tocar, ele é realmente um tripulante fantástico, chegando a ser beijado pelo Marcos no fundeio.
O dia amanhece lindo, o oceano atlântico nesse trecho é uma festa de luz e cores, o azul é forte, as águas translúcidas e os ventos alísios constantes, poucos minutos de trégua de vez em quando e as rajadas freqüentes.
Encontramos durante a noite passada nuvens escuras no horizonte e acima de nós, choveu no turno dos meninos e eu tive a sorte de continuar seco, na minha cabina de popa.
O dia vai seguindo, vejo o gelo na vacina de Helena "Interferon" tudo ok. Ponho algumas latas de cerveja para gelar e começo a falar sobre o almoço, vamos de macarrão. Começo os preparativos, cebolas e tomates picados em pedaços bem pequenos, panela untada com azeite, um refogado começa a tomas o ambiente e ser comentado... hum! O cheiro está bom!
Escolho uma massa para o cozimento na água que já aferventa no fogão, deixo um pacote de Barrilla, para o comandante fazer, como a tradição do ano passado, escolho uma massa da terra. Panela quase pronta e os gritos.. golfinhos!!! Vejam, quantos, estão vindo de longe, são muitos. Pensei: será que eles gostam de macarrão, toda vez que faço macarrão ou aparecem golfinhos ou baleias... que bom.
Fotos e mais fotos, uns saltam ao lado, outros passam céleres pela frente dos cascos do Moana, assim como chamando: vem brincar conosco, queremos correr essa regata também.
Depois de alguns minutos, eles se vão e nós vamos ao macarrão que não sobrou nada, estávamos com fome, muita fome. Após o almoço com direito ao bis da lacta, nos aninhamos por ali e dormimos o sono da tarde.
A noite se aproxima, ventos fortes e alguns trabalhos de velas com Marcos e Guilherme, tudo ajustado, tirei meu turno, ainda vendo as estrelas cadentes num céu de brilho estrelar com a nata da via láctea bem definida. Nuvens escuras no horizonte... são os pirauás!
Última noite antes de chegarmos na ilha, o barco bate e desliza entre as águas do atlântico, grande barco, grande tripulação. Renata faz sonoterapia e Helena acompanha os meus turnos, observando o ambiente marinho. Grande ajuda, estava se sentindo bem, tomou o Triptone "preventivo para enjôo" que funcionou muito bem.
No turno da meia noite já boiava na ilha, o farol do pico, lampejo branco e verde que é avistado a partir de 40 milhas de distância. Nossa posição era uns 5° acima do rumo. Perfeita posição para quem descontou o abatimento da corrente e dos ventos. Mais uma vez nosso comandante Hi-Tech acertando na mosca.
No turno anterior, Marcos e Guilherme haviam pegado uma pauleira dos diabos, vento e chuva que bateram o recorde da viagem com o "speed" marcando algo em torno dos 13 nós de velocidade. Ali tínhamos chegado a nossa melhor performance.
Ás duas horas da manhã, quando entro para dormir, com a ilha já bem definida e o comandante na aproximação final, encontro Helena irrequieta na cabina querendo sair a qualquer custo. Não adiantou meus apelos de que estava batendo muito e molhando, ela vestiu um casaco e se fez ao cockpit.
Passados cinco minutos uma onda enorme, que chamamos aqui de boiadeira, alcançou a lateral do Moana quebrando em cima de todos, inclusive dela. Orion, esteve no ápice do céu na chegada da ilha, como também uma nesga de lua se mostrou sutilmente completando a paisagem fascinante do arquipélago.
No momento da chegada, um pouco antes da ponta da sapata, todos estavam ligados, era impossível não participar das ultimas milhas, Renata sentada num dos lados e o comandante na carta de aproximação, fazendo as correções necessárias.
Montamos a ponta da Sapata e agora já abrigados pelo mar de dentro, o piloto automático foi desligado, Marcos passa para o comandante o timão na chegada. O trabalho de leme foi perfeito, orçando na rajada e arribando na merrecada de vento. Assim, era descrito no mar o desenho dos contorno da ilha, no sentido de montar a linha de chegada entre o mirante do Boldró e uma strobolight que habitava uma bóia adiante.
0 Essa chegada, como todas as outras no contravento, é uma parada, mas, graças à perícia do comandante Guilherme e a turma toda dando uma força mental enorme, levou o Moana a cruzá-la sem bordos e com velocidade adequada.
Após 39 horas e 44 minutos, estávamos lá. O dia amanhecendo com traços de vermelho no horizonte, os primeiros clarões da manhã na chegada do porto de Santo Antônio dão vida a uma suspeita: Não encontramos nenhum concorrente ancorado, isto que dizer... Somos os primeiros na categoria.... Ah!!!! Só faltava esta... somos realmente os primeiros.
Serpenteamos entre os barcos e fizemos a maior festa ao passar pelo Mestre Fura, acordando seus tripulantes, Coronel José Fernando, Mário Leão, Nelson e Paulo Cerqueira aparecem para os cumprimentos.
Após algumas tentativas, fundeamos em local seguro, com duas âncoras, uma principal, com corrente a galga e outra de misericórdia. Descemos o inflável para demandar a terra, o motor de popa não pega e dá um senhor trabalho ao Guilherme e Marcos, enquanto os demais habitariam o Moana.
Chegando em terra, Mário Leão e Paulo Cerqueira no molhe do pier esperando a operadora de mergulho, tiramos as primeiras fotos, o chão balança na impressão dos navegantes e rumamos ao bar do porto, esperando o ônibus que faz a rota Porto - Aeroporto.
A ilha está completando 500 anos do seu descobrimento por acaso, em 1503 pelo navegador Américo Vespúcio, ocasião em que naufragou a Nau Capitânia da expedição portuguesa de Gonçalo Coelho. Faço idéia da topada que não foi, encontrar um monte de pedras no meio do oceano e quando se dá conta no meio da noite escura, está afundando irremediavelmente.
Américo Vespúcio, foi um importante navegador genovês, que, embora o novo mundo tenha sido descoberto por Cristovão Colombo, teve seu nome dado às novas terras "América".
No bar do porto, encontramos a Mônica, limpando e arrumando as coisas da noite anterior, peço para abrir uma conta... pergunto se a cerveja está gelada e sem me dar conta da hora, oito da manhã, tomo a primeira cerveja da ilha, gelada, muito gelada...
Logo depois chega José Fernando com seus papéis cartolina e lápis cera para os primeiros traços de desenhos da ilha, que aos poucos vão se transformando em obras de arte. Vejo-o com um enorme carinho, afinal um navegador a vela que se curva ao motor e faz Maceió Fernando de Noronha a 1600 giros a diesel, balouçando alegremente no timão é uma pessoal especial... ímpar.
Nelson, seu misto de escudeiro e amigo, vem na cola... sorridente como sempre e prestativo, fico descansado quando o vejo por perto, sei que ele cuida muito bem do nosso Coronel.
Zé Fernando se despede dizendo vou dar uma voltas e colher maxixe!!! Maxixe... esta é boa. Na frente conto o resto desta história.
Helena e eu, pegamos o ônibus que chegou em seguida e conhecemos o motorista Luís, gente muito boa, que faz tudo para atender bem, um exemplo de como é importante a participação de todos, afinal, ele estava representando o povo da ilha, o administrador do território e até o governador do Estado, dando informações e sendo um anfitrião à altura.
Chegamos na pousada deserta, não havia um pé de pessoa... o que houve? Falamos com a vizinha que liga para Nete avisando da nossa chegada, ela trabalha na administração da ilha e na pousada para fazer um pé de meia, pretende mandar os meninos estudar no continente, Natal ou Recife.
Nete chega e é simpatia purificada, simples e com poucos minutos já nos conquista, ficamos conversando um pouco, entro no quarto com TV, banho quente, frigobar e uma cama parada... cama, que bom... Tomo um banho de sair o couro, depois um sanduba na poeirenta lanchonete da esquina.
Voltamos para o quarto e dormimos até a hora do almoço, quando levantamos os corpos e fomos até o bar da Mônica no porto para o "Self Service", a cabeça, R$ 10,00 podendo comer até não agüentar mais... na entrada uma albacora de 10 quilos, assada inteira... que bocão...
>>>>Continua..
Site: www.veleiromoana.hpg.com.br
Fotos: Guilherme Paiva e Renata Paiva
Texto: Mário Engels
Fonte:
Guilherme Paiva Cidade:
Maceió-AL-Brasil Fotos: Guilherme Paiva Publicado: Priscila Ramos Date: 27/12/2004
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