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O Artista Plástico paraense, Rafael Limaverde, realizou uma aventura de dois anos pelas Américas. A façanha foi realizada sobre uma bike, sua partida em 30 de outubro de 2002 até a chegada em outubro de 2004. Abaixo a 4° partre dos diários.
18/04/2003 - sexta-feira (Cantaura - Venezuela)
Saio do restaurante cedo e cedo o sol esquenta. Me empacoto inteiro novamente e encaro a estrada. Há pés de caju por toda a estrada. Me encho de vitamina C e gostinho do Ceará. Vou acompanhando um extenso oleoduto até cegar a triste e feia cidade de "El Tigre". Como se diz no Brasil: Casa de ferreiro espeto de pau. Uma cidade com um importante pólo petrolífero, de um país que ocupa o terceiro lugar no mundo em produção de petróleo, possui um péssimo asfalto. (subproduto do próprio).
Vou quicando pelos buracos até um restaurante. Saio de El tigre acompanhado por um tráfego intenso até chegar em Cantaura. Chego desejando um banho e litros de água gelada. Vou ao único hotel da cidade que cobra muito caro. Desisto de ficar e continuo pedalando pela cidade esperando algo acontecer.
Cantaura é uma simpática cidade, tranqüila, limpa com praças bonitas e casas coloridas.
As horas passam e não consigo um lugar para ficar. A solução era sair da cidade e tentar alguma coisa na estada. Comecei a pedalar de volta com aquela cara de cachorro que caiu da mudança. Passo em frente à uma funerária e um cara bem simpático puxa conversa. Franklin e eu conversamos um pouco, expliquei meu problema e ele imediatamente se prontificou a me ajudar.
Disse-me que guardaria a bicicleta num lugar seguro e eu passaria a noite na Funerária San Pedro. Iríamos a casa de sua sogra deixar minhas coisas.
Colocamos a bicicleta no carro funerário, o que me deu um aperto no coração, pois ver minha amiguinha deitada como morta não foi muito agradável. Lá também fui bem recebido. Peguei algumas coisas e voltamos a funerária para tomar banho. Antes de terminar já havia uma arepaz (comida típica venezuelana) me esperando.
Mais tarde, fomos dar uma volta na cidade. Estava notando um movimento estranho e o que eu suspeitava aconteceu. Franklin teria que trabalhar.
Havia uma família em Anaco, uma cidade a uns 10 km de Cantaura, que precisava de serviços funerários. Voltamos à funerária e Franklin convidou-me a acompanhá-lo. Pensei duas vezes antes de ir, sou meio frouxo para essas coisas, mas decidi encarar. Colocamos o caixão no carro e fomos a Anaco, eu, Franklin e Jhonnathan seu ajudante.
Lá estava eu numa situação que nunca poderia imaginar. Chegamos a casa da família que estava relativamente tranqüila. Levamos o caixão até a sala onde se encontrava o falecido. Posicionamos o caixão e a partir daí me tornei apenas espectador. Era um senhor já bem marcado pela idade e muito franzino.
Franklin e Johnnathan colocaram o pequeno corpo no caixão e trocaram-no a roupa. Nunca havia chegado tão próximo a um morto. Nos poucos velórios que fui sempre me mantinha a uma distancia "segura".
Assisti todo o processo até chegar a hora da aplicação de formol. Daí meu estômago não permitiu mais e me afastei até um canto da casa onde fui servido de um café por familiares. De longe fui observando o trabalho daqueles homens. Franklin, com um cigarro no canto da boca, foi mexendo e remexendo o pequenino senhor como se fosse um frágil objeto. Fiquei ali no meu cantinho aprendendo sobre a vida.
Pensando o quanto supervalorizamos essa ?casca? que um dia não nos servirá mais. O espírito, alma ou sei lá que nome se queira dar, um dia será livre e esse monte de cabelos, fluidos, ossos e pelancas não será mais útil a não ser para terra na qual voltaremos. E aqueles homens, inconsciente ou não, sabiam disso. A naturalidade com que eles trabalhavam com o cadáver, que a princípio assusta, no final das contas é um grande ensinamento de como devemos encarar a morte.
Nosso corpo deve ser cuidado sim, mas nunca esqueçamos que o que realmente importa o tempo não leva, a essência.
Retornamos a Cantaura para pegar as estruturas do velório. Candelabros, tapetes, capela, etc. Levamos a Anaco e, depois de tudo pronto, retornamos novamente a Cantaura.
Fomos beber uma cerveja depois de um dia de trabalho. Perguntei o que pensavam quando faziam aquele trabalho. O que passa na cabeça quando se trabalha assim tão próximo da morte? Os dois foram unânimes: ?-Nada, só pensamos em fazer o melhor trabalho possível?.
11/05/2003 - Domingo (Puerto Cabello - Venezuela)
Dia das Mães
Tirando a baixaria dos vizinhos de quarto, dormi relativamente bem.
Visitei uma padaria e saí andando pela cidade. Puerto Cabello se localiza em uma grande baía. É cheio de portos, marinas e um pequeno e antigo forte. Há um charmoso Centro Histórico mais que poderia ser bem mais cuidado.
Entrei na catedral da cidade. Procurava um lugar limpo, de luz e paz, com pessoas, pelo menos aparentemente, de bem. Encontrei. Antes de começar a missa algumas senhoras cantavam. Me lembrei das ladainhas sertanejas.
Chorei...
Nós homens vivemos uma ditadura onde se cresce e se perde o direito de chorar, de ser fraco. Burlei todas as leis e chorei... o choro dos humanos.
Pensei em minha mãe. Meus Deus! Como a amo! Não há um lugar no mundo mais seguro que seu abraço. Pensei também em todas as mães que conheço e que também amo. Pensei com muito carinho nas mães que conheci na viagem. Agradeci, do fundo do meu coração, à todas as D. Marias, Dardores, Jaciras, Dos Anjos e etc, que de uma maneira ou de outra me acolheram. Às vezes passo na estrada e só pelo olhar das mulheres sei se que são mães. Olhar maternal de quem convive todos os dias com a culpa, a preocupação e o amor incondicional.
Enquanto o padre rezava em espanhol, eu, baixinho, dava um "viva" a minha mãe, a todas que amo e as que me adotaram.
Telefono e parabenizo Nohelia. Recebo um convite e decido ir até lá. Como era muito próximo, tranco minha bicicleta no hotel, pego um ônibus e vou à Palo Negro. Como é bom passar o dia das mães próximo a uma.
Passei o resto do dia na companhia de Nohelia e Alan. Os presenteei com vários desenhos.
Fonte:
Rafael Limaverde Cidade:
Venezuela-EX-Portugal Fotos: Rafael Limaverde Publicado: Berenice Correa Date: 08/04/2005
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