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Uma aventura de 8000 kms onde as belíssimas paisagens foram apenas plano de fundo, diante de tantas aventuras e culturas diferentes num mesmo país. Confira a parte II do relato da Expedição Lençóis Maranhenses, que aconteceu em janeiro de 2002.
Não é fácil defini-la. As dunas de areias branquíssimas que mudam de forma, altura e lugar, envolvidas pelo vento que sopra do mar, parecem "imensos lençóis abandonados distraidamente pela cama". Entre as dunas, que se estendem por uma área de 155 mil hectares, entre os municípios de Barreirinhas e Primeira Cruz, incontáveis lagoas verdes e azuis fazem dos Lençóis a própria imagem do paraíso terrestre. Muitas travessias de rios, dunas e areia a perder de vista foram parte dessa aventura onde exigiu muito dos carros e da equipe.
Finalmente deixamos Barreirinhas já com saudades e seguimos em direção ao Delta do Parnaíba, atravessamos as estradas precárias de areias e dunas até a cidade de Tutóia, num total de aproximadamente 5 horas, chegamos na cidade onde encontramos um lugar para descansar os ossos. Durante essa travessia um grupo de Venezuelanos nos acompanharam, estavam viajando pelo Brasil à cerca de 20 dias e pretendiam chegar em Jericoacoara no Ceará. Nem bem os ossos estavam esticados e já estávamos dentro de um barquinho que mal cabia nossa equipe de sete pessoas, mais o barqueiro Seu Caravela acompanhado de seu filho. Fizemos um passeio pelo Delta do Parnaíba na região da Ilha do Cajú, onde muitas aves nos acompanhavam nas travessias de braços de mar e rio que percorrem toda a região. Na região existem passeios de barcos que percorrem todo o Delta, num percurso de até 8 horas.
A essa altura da viagem começaríamos a retornar em direção sul do Brasil e agora atravessaríamos todo o estado do Piauí. Estávamos na estrada há duas semanas, a quantidade de kilómetros percorridos passava dos 3500 e os lugares por onde havíamos passado e as pessoas que de longe escutavam o baruho dos Jipes e vinham na janela apenas para ver o que era aquilo e acenar com a mão já nos deixava saudades.
Durante a travessia do Tocantins, Maranhão, Piauí e outros estados, entregávamos doces (balas e pirulitos) para as criança carentes, era muito emocionante ver o rosto de alegria misturada com timidez dessas crianças tão sofridas vivendo no meio do sertão, longe de toda nossa modernidade e violencia. Nessas horas paramos e refletimos o significado disso tudo e como nosso páis é imenso com vários mundos dentro de um país só.
A partir de Tutóia entramos definitivamente no estado do Piauí, seguindo sentido sul chegamos ao Parque Nacional das Sete Cidades, seu nome tem origem em sete formações geológicas com formas curiosas devido à erosão de milhares de anos. Estas formações inspiraram a imaginação dos que começaram a explorar o local que achavam-nas parecidas a ruínas de cidades, daí o nome: sete cidades. Uma atração imperdível é a Furna do Índio, com pinturas rupestres que datam de mais de 6.000 anos. Acampamos dentro do parque, que possui um boa estrutura para receber os turistas, com área para camping e uma pousada. Cruzamos o parque de Norte a Sul, entrando pela cidade de Piracuruca e saindo por Piripiri.
Nosso próximo destino seria São Raimundo Nonato, cidade de apoio do parque da Serra da Capivara, partimos logo cedo e percorremos o dia todo por estradas asfaltadas, rasgando o estado do Piauí do Norte em direção Sul, foram aproximadamente 10 horas de estradas e no início da noite já estávamos em nosso destino. O parque, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, abriga um importante sítio arqueológico. As inscrições rupestres e as peças arqueológicas encontradas no Sítio do Boqueirão da Pedra Furada (aberto à visitação) são indícios da mais antiga ocupação do homem em terras americanas.
A vegetação do parque é do tipo Caatinga (aroeira, xique-xique, macambira). Há ainda a presença de animais selvagens da região: jaguatiricas, gaviões, gatos-do-mato, tatus, pacas, iguanas... Os estudiosos da região contam que atravessando o Estreito de Behring, o homem passou pela a América do Norte, cruzou a América Central e permaneceu uma temporada no estado do Piauí. Aqui ele se estabeleceu, se multiplicou, foi capaz de deixar as suas inscrições pintadas nas rochas, enterraram seus mortos que se transformaram
em achados arqueológicos. Outro presuposto vem de cientistas que querem provar que o homem mais antigo das três Américas viveu no Piauí.
Tentam ainda comprovar que os vestígios do carbono 14 encontrados na serra, são de uma fogueira produzida pela mão humana e não pela combustão natural.
A essa altura já nos aproximávamos da divisa de estado do Piauí com a Bahia e seguíamos para cidade de Caracol por estradas de terra batida, com objetivo de conhecer mais um sitio arqueológico, o Parque Nacional da Serra das Confusões. Infelizmente as notícias não foram boas e por motivo de estudiosos na região o parque de mais de 500.000 hectares estava fechado a visitação, mesmo depois de conversarmos com a pessoa do Ibama responsável pelo parque, em sua casa sentados na varanda e comendo melancia não conseguimos conhecer.
Decidimos seguir viagem, ainda tínhamos metade do dia com luz do sol para nos deslocarmos até nosso próximo destino. Depois de conseguirmos informações sobre essa travessia da divisa entre Piauí e Bahia, seguimos com notícias nada animadoras sobre as condições das estradas, principalmente a essa altura que a chuva insistia fortemente em cair. Quando partimos sabiamos que seria estradas de terra, mas não trilhas alagadas onde a velociade não passava de 10 a 20 km/h com água passando por cima dos capôs do Jipes. Para percorrer cerca de 180 kms demoramos praticamente 7 horas com água e mais água nas trilhas e alguns trechos chovendo torrencialmente. A cada bifurcação precisávamos parar e buscar informações de onde estávamos indo.
Escurecendo conseguimos chegar em Morro Cabeça no Tempo e depois de ver as condições precárias do único local para dormimos, resolvemos acampar em algum lugar, perguntamos ao povo local que nos informou para acampar na escola da ?nova cidade?. Montamos o acampamento nessa escola, fizemos nosso jantar e logo estávamos dormindo, amanhã teriamos uma grande travessia de terra e precisávamos partir logo cedo. Preparamos nosso café-da-manha e partimos logo cedo em baixo de muita chuva, nosso destino seria chegar em Santa Rita de Cássia, onde encontraríamos o asfalto para continuar o percurso. A chuva não dava nenhuma trégua o dia todo e atravessamos trechos de baixadas totalmente alagados onde a água insistia em passar por cima dos capôs dos Jipes, outros com lama, buracos e algumas vilas no caminho.
Continua...
Fonte:
Marcelo Fuzinato - GAIA Expedições Cidade:
Prata-MA-Brasil Fotos: Marcelo Fuzinato - GAIA Expedições Publicado: Élen de Cássia Pereira Date: 25/01/2006
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