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Em Janeiro 2003 foi realizada a Expedição - Trekking em Torres del Payne e El Chalten. Confira como foi a estadia em Torres del Paine e o trekking no Grande Circuito!
No primeiro dia fizemos uma caminhada para nos aclimatarmos. Fomos ao Refugio Chileno e ao Campamento que fica no pé das Torres. Saímos com todo o nosso equipamento (ver "check-list"), menos as mochilas pesadas, para uma caminhada de 4 horas de ida e 4 de volta. Já na subida do vale começamos a sentir a queda da temperatura e a chuva fina. A trilha tinha gente de todos os tipos, nacionalidades e idades.
Percebemos imediatamente o acerto da nossa escolha ao vestir o equipamento correto (roupas quentes e impermeáveis grossos), pois a temperatura baixou bastante a medida que íamos subindo e o vento forte trazia uma chuva fina e constante. Paramos no Refugio para um chocolate quente e depois seguimos até o acampamento base dos montanhistas que escalam as Torres. A chuva aumentou e resolvemos voltar direto, levando 3,5 horas. Pronto, já estávamos no clima da caminhada. Comemos e começamos a montar as mochilas para o Grande Circuito. Os alimentos já estavam separados (granola, miojo, frutas secas e barras de cereal), as roupas prontas e estávamos ansiosos para acordar no dia seguinte. Na caminhada e no Refúgio Chileno, notamos que muitos levavam sandálias penduradas nas mochilas. Decidimos levar nossas "havaianas". Antes de dormir localizamos o ponto de início da trilha, em uma subida do outro lado do rio.
No dia seguinte desarmamos a barraca, empacotamos os sacos de dormir, os isolantes e a barraca nas mochilas. As mochilas também continham alimentos para 10 dias, fogareiro e cartucho de gás de reserva, panelas de acampamento, reservatório de água tipo "camel back", calça impermeável, roupas, agasalhos de reserva e etc. Estava chovendo e as mochilas foram cobertas com um impermeável. Deixamos a Tiazinha estacionada na porta do hotel, junto com outros carros que lá estavam esperando os donos. Minha única precaução foi não deixar coisas atraentes á vista, como por exemplo o GPS. Pegamos a trilha por volta das 10:00 em direção ao Campamento Seron. Esta trilha é bem leve e quase plana, passando por planícies cobertas de margaridas e com uma linda vista para as montanhas na direção nordeste.
O vento era muito forte e demoramos a nos acostumar com os seus empurrões para os lados. Começamos a perceber a grande utilidade dos bastões de caminhada que estávamos usando. Encontramos um grupo alegre de chilenos que nos ajudaram em uma travessia de rio. Depois de 6 horas de caminhada chegamos ao Campamento Seron, onde há uma infra-estrutura razoável, com banho quente e local fechado para cozinhar. Aqui percebemos a grande utilidade de levar as havaianas, elas foram muito úteis para descansar os pés depois da caminhada. Mesmo com o frio era uma delícia caminhar só de sandálias. O camping tinha gente de todo jeito, todos muito simpáticos e, depois de comer o miojo, ficamos conversando com a turma até escurecer as 22 horas. O vento estava muito forte e tivemos que reforçar a fixação da barraca com mais quatro cordinhas e espeques.
Dia seguinte desarmamos a barraca enquanto um coelho curioso ficava nos olhando do meio do mato, empacotamos tudo e pegamos a trilha com muito vento e sol. Continuamos pelo campo de margaridas e, depois de umas subidas, chegamos ao Lago Paine. A vista era linda para todos os lados. Depois de 4 horas bem andadas chegamos onde havia um camping livre (grátis) que não funciona mais, Campamento Coiron. Encontramos um grupo de alemães parado ali descansando. Depois os encontraríamos com freqüência. Com mais 3 horas de caminhada chegamos ao alto de um morro, de onde se via o Campamento Dickson ao longe, com o lago ao fundo.
O dia estava ensolarado e relativamente quente. Chegamos ao Campamento com o maior sol e já fomos tirando a maior parte da roupa e armando a barraca em um lugar abrigado do vento (que não havia parado). No Campamento Dickson há um refúgio, um armazém e banho quente (pago para os gringos e gratuito para nós). Ao lado fica o Lago Dickson que se origina no Glaciar do mesmo nome, uma linda paisagem que curtimos depois de tomar banho, comer e tomar uma cervejinha. Ao fundo do Campamento via-se uma cadeia de montanhas multicoloridas, com alguns cumes cobertos de neve. Esta noite ventou forte, como em todas as outras.
O terceiro dia começou mais quente e ensolarado. Fizemos nosso café da manhã no refúgio, depois de empacotar tudo. A trilha começava com uma subida dentro de um bosque. A vista das montanhas era linda. Depois de 2 horas de caminhada paramos para comer e ficamos olhando as montanhas à nossa frente. Com mais uma hora chegamos a uma cachoeira no meio da mata e paramos mais uma vez para apreciar e comer. A trilha continuava pela mata por mais 2 horas, até chegar a uma ponte sobre um rio profundo. Esta ponte parecia tão precária que não acreditamos que a trilha continuasse por ali. As pontes "perigosas" dos filmes do Spielberg são muito bem feitas em comparação a esta.
Já do outro lado da ponte a temperatura começou a baixar muito porque estávamos perto do Glaciar Los Perros. Depois do Glaciar entramos de novo na mata e chegamos ao Campamento Los Perros. É um lugar meio precário no meio da mata, mas bem protegido do vento. Havia um lugar meio coberto onde se podia cozinhar e acender um fogo. Ali se reuniram todos que estavam fazendo a trilha: um alegre grupo de ingleses, o grupo de alemães e um casal de alemães. Depois apareceu o barulhento e alegre grupo de jovens chilenos. Este era o último local onde os cavalos podiam chegar e havia um pequeno armazém. O frio era muito intenso e a chuva constante. Sentimos falta da garrafa de cachaça que ficou no carro. Apareceu um alemão, que vinha fazendo o circuito no outro sentido, e falou "cobras e lagartixas" do pântano que iríamos cruzar no dia seguinte. Todo mundo ficou meio apavorado.
O quarto dia amanheceu com um barulho fino de chuva caindo sobre a barraca. Depois que a Tercia voltou do banheiro ficou tudo esclarecido, não era chuva, era neve. Empacotamos as mochilas sem sair da barraca e as colocamos no local semicoberto. Depois de comermos a granola a barraca já estava meio seca e a desarmamos sacudindo a umidade do sobre teto. Esta seria a parte mais dura da trilha, com pântano, subida, muito frio e muitíssimo vento. Vestimos todos os agasalhos debaixo dos casacos impermeáveis e as calças impermeáveis por cima das calças de caminhada. Logo depois de uma subida começava uma encosta com o pântano (que para nós seria um grande brejo de barro preto e pegajoso).
A direção era sinalizada por estacas com uma pinta laranja (como toda a trilha) e tínhamos que escolher muito bem onde pisar para não afundar ou escorregar. Fazer isso com uma mochila de 18 kg nas costas não é fácil, requer muita paciência e calma. Fomos nos revezando na escolha do melhor caminho, enquanto os outros três grupos faziam o mesmo. Depois de 2,5 horas saímos do pântano sem nenhum incidente ou "atolamento".
Cruzamos um rio cheio de pedras, onde paramos para comer e tomar bastante água. Sentimos muita sede durante toda a caminhada, apesar da baixa temperatura. Dali a trilha subia uma encosta de pedras com um pouco de neve. À medida que subíamos ia ficando mais frio, mais cheio de neve e com um vento mais forte. O equipamento estava nos protegendo muito bem e subimos de forma lenta e pausada por mais de duas horas. No meio do caminho encontramos um curioso casal: o rapaz ia e vinha na trilha carregando, uma vez a sua própria mochila e outra vez a mochila da noiva. No ponto mais alto do percurso, mais frio e com mais vento, nos deparamos com o Glaciar Grey. Uma vista linda que só pôde ser fotografada quando me coloquei detrás de um abrigo de pedras.
Dali para frente era descida, pior ainda porque a descida é mais dura que a subida. Depois de uma hora entramos na mata e já estávamos ansiosos para chegar ao local do acampamento. A trilha estava escorregadia e tínhamos que contornar muitas árvores caídas, porque era impossível transpô-las por cima com as mochilas nas costas. Em um destes desvios tomamos uma trilha que descia a encosta do morro passando por uns brejos menores. Chegamos a um "beco sem saída" na beira do glaciar. No primeiro instante ficamos apreensivos e desanimados só de pensar que teríamos que voltar, subir por aquela lama toda, até achar a trilha certa. Estávamos cansados e, depois de refletir bem, decidimos acampar ali mesmo. Era um lugar lindo e adequado para um acampamento. As regras do parque permitem que se acampe em qualquer lugar em casos especiais. Tínhamos tudo, água, comida e barraca. A Tercia ainda achou um lugar para tomar um banho. Tiramos muitas fotos, acendemos um fogo para espantar os mosquitos e comemos. Depois apareceu um francês com seus pais e alguns rapazes de um grupo de chilenos. Eles também haviam errado a trilha. Segui o francês para aprender o caminho de volta para a trilha e fomos dormir as 21 e 30 com o Sol ainda alto e iluminando todo aquele gelo. No dia seguinte descobrimos que tínhamos sido privilegiados, o Campamento El Paso era ruim e estava cheio de gente. A maioria das pessoas teve que acampar no meio da trilha em locais bem desconfortáveis.
Acordamos com chuva neste quinto dia de caminhada e comemos dentro da barraca. Arrumamos tudo e já colocamos as mochilas para fora com as suas capas impermeáveis. Desenvolvemos uma técnica para desarmar a barraca na chuva sem molhar a parte interna e a empacotamos nas mochilas. Re-encontramos a trilha depois de escalar a encosta no meio da mata e com um chão bem escorregadio. Foi uma satisfação rever uma árvore com um ponto laranja pintado em sua casca. Retomamos o caminho e chegamos ao local onde ficava o Campamento El Paso depois de 45 min de caminhada. Segundo o nosso mapa, a trilha iria ao longo do Glaciar, na encosta da montanha, até a parte onde há uma ilha e se forma o lago. O frio, a chuva e o vento aumentaram quando a trilha saiu em campo aberto na encosta da montanha. Realmente tínhamos que nos segurar para seguir pela trilha sem ser derrubados morro abaixo. Cruzamos alguns desfiladeiros de rios de degelo. Em um deles havia uma escada tosca para auxiliar na subida. Depois de 3 horas chegamos a um outro camping, Campamento La Guardia. Este camping estava vazio.
Daí para frente a trilha ficou plana e bem abrigada do vento. Caminhávamos com muita facilidade e reencontramos um dos ingleses e "a noiva" esperando o noivo vir buscar sua mochila. Eles estavam sentados em uma encosta esperando para ver se o gelo desabava na ponta do glaciar. Nesta altura o gelo ia mudando de cor e se tornando azul bem claro. Depois de chegar ao "fim" do glaciar caminhamos mais uma hora para chegar à "civilização", o Refúgio Grey. Ali tínhamos toda a infra-estrutura: banho quente, sanduíche, camping arrumadinho na praia do lago e um lugar com vinho e lareira onde podíamos ficar batendo papo a noite. Até lavei minha camisa usada durante toda a caminhada. Ficamos conhecendo todo o tipo de gente, inclusive um casal que estava viajando de bicicleta pela América do Sul.
O sexto dia da caminhada amanheceu com Sol, com lindas esculturas de gelo boiando no lago em frente ao camping. Acordamos tarde porque a noite não havia sido fria. Desarmamos a barraca sequinha e tomamos café ao ar livre. Saímos junto com o grupo de ingleses, sempre bem humorados. A trilha era leve e ia por um lugar bem abrigado do vento, sempre ao longo do lago. O glaciar ia ficando para traz. Em um ponto passamos pela "quebrada de los vientos". Um lugar onde o vento pega muito forte mesmo, nos jogando para os lados como se fossemos bolas de ping-pong. Era o hálito gelado do Glaciar Grey se despedindo de nós. Em menos de 4 horas chegamos ao Refugio Pehoe, um lugar meio sem graça e com muito, muito mesmo, vento. Os locais para armar barracas têm anteparos para abrandar o vento. Comemos um sanduíche e decidimos continuar na trilha em direção ao Campamento Italiano, a placa dizia 2,5 horas.
A trilha era leve e praticamente plana. Além disso, o vento estava a favor. Esta parte da trilha era tão boa que havia até passarela para cruzar os brejos. Depois de 2 h e 45 min chegamos a uma ponte pênsil que leva ao local onde se pode acampar (camping selvagem) ao lado de uma corredeira com água de degelo, o Campamento Italiano. Acampamos no meio das árvores, onde é mais abrigado, enquanto caia uma chuva fina e fria. Cozinhamos dentro da barraca esquentando o bujãozinho do fogareiro com as mãos para que o gás saísse com pressão para a chama ficar acesa. Depois de comer fomos lavar os pratos e escovar os dentes nas águas geladas da corredeira. Havíamos caminhado oito horas neste dia e merecíamos dormir. Havia acontecido um acidente na trilha do Vale do Francês e havia muito movimento no camping para se montar uma equipe de resgate. Um grupo de chilenos muito experiente foi resgatar o "gringo do pé quebrado". Neste dia fiquei sabendo que o canal 1 do Talkabout é usado para emergências naquele parque.
No sétimo dia acordamos bem dispostos, apesar de ter que aquecer a água novamente dentro da barraca e de ter que escovar os dentes naquela água gelada. Deixamos a barraca e as mochilas no acampamento e subimos o vale do Francês. Encontramos com o grupo que havia ido resgatar o "gringo do pé quebrado" e eles já contavam com a ajuda de um guarda parque. Quando estávamos na altura do Glaciar do Francês escutamos o ruído de um helicóptero, que provavelmente estava levando o ferido para Puerto Natales (a cidade chilena mais próxima). Caminhamos 2 horas subindo a trilha, sempre com o glaciar à nossa frente e os lagos ao fundo, uma vista muito bonita. Apesar da altitude e do glaciar a temperatura estava agradável e pudemos tirar os impermeáveis, até o ponto onde nos deparamos com ele cara a cara. Depois de curtir o visual e comer algo, empreendemos a descida em outras duas horas. No Campamento Italiano desarmamos a barraca, empacotamos as mochilas e pegamos a trilha em direção ao Refúgio Los Cuernos.
A trilha era leve, com apenas uma descida forte em direção ao lago. Ao longe se via o telhado verde do Refúgio Los Cuernos. Passamos pelo lago com o maior Sol, deu vontade de dar um mergulho naquelas águas geladas, mas passou logo. Com duas horas de caminhada chegamos ao camping do Refúgio e armamos a barraca no lugar mais plano que encontramos. Ali encontramos o primeiro brasileiro da nossa caminhada, um gaúcho. Depois de comer um sanduíche pensamos em entrar no lago, mas desistimos depois de molhar as pontas dos dedos dos pés. Resolvemos que era melhor tomar um banho quente nos chuveiros do refúgio. Também aproveitamos para lavar algumas roupas, já que havia Sol para seca-las. No final da tarde sentamos à beira do lago e ficamos observando um casal de Condores com o binóculo. Realmente o Condor é um pássaro impressionante. Eles estavam voando no Vale do Francês e podiam ser vistos a olho nu de onde nós estávamos. Subiram em espiral lentamente por uma corrente de ar ascendente e mergulharam elegantemente em um vale atrás dos Cuernos.
No oitavo dia da caminhada o Sol resolveu se mostrar para nós. Confesso que sentimos calor. De barba feita e mochila empacotada, saímos por uma trilha com descidas e subidas bem suaves. Fomos deixando as montanhas e os glaciares para traz e caminhando ao longo de um lago. Caminhamos quatro horas quase sem parar e encontramos dois rapazes de Florianópolis que estavam começando o circuito em sentido inverso. Eles tinha ido até Torres del Paine de carona. Avistamos o telhado do hotel ao longe, ainda sob Sol. Mais uma hora e cruzamos a ponte que nos levaria ao ponto de partida. Fomos saudados por uma chuva forte e fria. Eu parei em um lugar abrigado para cobrir a mochila e vestir o impermeável (que estava dentro da mochila!).
Tércia passou direto e parou debaixo de umas árvores. Cheguei até a Tiazinha, liguei o motor (pegou de primeira) e a fui buscar. Mais uns 500 m e estávamos novamente no Campamento Torres, de onde havíamos partido oito dias antes. Chegamos feito duas baratas tontas e nem conseguíamos saber o que fazer primeiro, comer, lavar as roupas, armar a barraca, sentar e curtir? Choveu e tivemos que decidir logo, armar a barraca, tomar banho e lavar as roupas. A temperatura baixou para 8 oC, mas o vento forte e constante secou minha camisa e cuecas. Decidimos jantar no refúgio, mesmo pagando 12 dólares por pessoa, nós merecíamos um jantar decente depois de oito dias de miojo (que nojo!). Depois de comer muito bem (sopa de frango com pão, prato principal com carne e legumes, sobremesa e suco) arrumamos o carro para a viagem para El Chalten no dia seguinte.
Por Marco A-De Paoli e Tércia Pilomia
Fonte:
Marcelo Fuzinato - GAIA Expedições Cidade:
Torres del Paine-Chile-EX-Chile Fotos: Marco-A. De Paoli e e Térica Pilomia Publicado: Berenice Correa Date: 23/02/2006
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