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Com os amigos Valdesir Machado e Gabriel Otero, Edemilson Padilha esteve na Patagônia de 15 de janeiro a 15 de fevereiro de 2006, para realizar mais uma de suas aventuras, escalar Agulha Saint Exupery, via Buscaini e Cerro Fitz Roy.
Após 27 anos de sua conquista, a via Afanassief, uma rota conquistada em 1979 na aresta noroeste do Cerro Fitz Roy tem sua repetição, feita por uma equipe sulamericana, formada pelos brasileiros Edemilson Padilha e Valdesir Machado e pelo argentino Gabriel Otero.
A síntese do alpinismo resume-se em uma palavra: autonomia. E autonomia para um escalador significa sair de um acampamento base carregando o estritamente necessário, mais suas habilidadesconquistadas ao longo de anos de erros e acertos. É um desprendimento, nos desvencilhamos da mochila cargueira repleta de equipamentos que confere uma falsa segurança a um escalador. E nesta temporada na Patagônia nos aprofundamos nesta arte.
Chegamos em El Chaltén num sábado à noite e fomos recepcionados por nossos "hermanos" argentinos Javi e Loro. Nosso acampamento já estava montado. Era só nos instarmos e prepararmos as mochilas para escalar. Assim fizemos, e dois dias depois iniciamos nossa primeira tentativa. Rumamos para a via Buscaini, na Agulha Saint Exupery, pois queríamos aproveitar cada janela de bom tempo. Esta via foi conquistada em 1968 por uma equipe italiana e percorre a aresta leste da montanha por 850 metros de escalada em rocha e gelo. O nome deve-se a fazer parte da equipe o escalador Gino Buscaini que foi um dos grandes exploradores das montanhas Patagônicas.
Nosso plano era o de escalar em duas duplas: Edemilson Padilha (BRA) e Valdesir Machado (BRA); William Lacerda (BRA) e Gabriel Otero (ARG). Pegamos uma tempestade na décima cordada da via e já era, descemos. Durante o caminho de volta senti que estávamos um pouco pesados. Aquilo me incomodava, no Brasil sempre tentamos reduzir ao máximo o peso para aumentar a velocidade.
Na segunda tentativa resolvemos inovar, e saímos de Chaltén com a intenção de fazer a aproximação, escalar e retornar praticamente sem parar. Os outros escaladores não acreditaram quando saímos do camping com mochilas de 40 litros. Agora éramos três: eu, Val e Gabri. Fizemos a caminhada de aproximação muito mais rápido e quando anoiteceu estávamos atravessando o glaciar para chegar à base da via; começamos a escalar às 2 da madrugada e, ao amanhecer, já estávamos na décima terceira cordada, de um total de 28.
Eu e Gabri revezávamos a ponta da corda, pois o Val tinha um dedo do pé estourado por um bloco e estava de "jumar de ouro". Da 14ª à 18ª cordada foi o trecho mais vertical da via, com cordadas de 6a a 6c francês. Depois veio a cordada da "ponte de pedra" que foi impressionante e também deu muito medo, pois tivemos de subir por uma pilha de blocos encaixados que pareciam que estavam para cair. Neste ponto chegamos ao terço final da montanha, onde tivemos muitos trechos com neve e um sem fim de zique-zagues. Quase no final, o Val decidiu guiar uma cordada de 6b com bota num pé e sapatinha em outro; quando chegou ao final pôde avistar o conjunto todo do Cerro Torre. Mais duas cordadas e pudemos curtir a vista do cume da Agulha Saint Exupery, depois de 16 horas de escalada.
Comemos, hidratamo-nos e iniciamos os rapéis, os quais adentraram a noite. Quando cruzamos novamente o glaciar, o cansaço já se fazia presente - escutávamos vozes, música e de vez em quando pensávamos que estávamos em um bosque. Foi literalmente alucinante. Pisamos em El Chaltén 48 horas depois de sairmos, e comprovamos nosso estilo leve e rápido, pois durante os rapéis o tempo virou e quando chegamos à cova de la S, que era um ponto protegido, começou a chover. Se tivéssemos demorado algumas horas a mais, talvez não obtivéssemos sucesso.
Alguns dias de engorda em El Chaltén, regados por boulders, slack line, auxílio em um resgate e elegemos nosso próximo objetivo: o Cerro Fitz Roy. Devido a grandes nevascas, a face voltada para o leste estava congelada. Voltamos nossos olhares para a face oeste; avaliamos as alternativas, falamos com o Dean Potter (escalador norte-americano) que já tinha feito a Supercanaleta e com a Roberta Nunes (escaladora brasileira) que já havia feito boa parte da via Afanassief, acompanhada do já falecido Jose Pereira (Venezuelano).
Coletamos todas as informações sobre aquele lado da montanha e decidimos entrar na gigante Via Afanassief , nome do idealizador da Expedição Francesa que a conquistou em 1979. As informações que tínhamos eram desoladoras: 2300 metros de via, sem croqui, pois o Afanassief não quis fazer; na face mais desprotegida do vento, com uma janela duvidosa de 2 dias ventosos; 27 anos que a rota foi conquistada, nunca ninguém tinha conseguido repeti-la; ou seja, tudo a favor...
Fotos: Edemilson Padilha
Gabriel Otero
Valdesir Machado
Fonte:
Edemilson Padilha Cidade:
Patagônia - AR-EX-Argentina Fotos: Edemilson Padilha Publicado: Michele Wesner Fernandes Date: 03/02/2006
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Aproximação para a via Buscaini, Agulha Saint Exupéry, passando pela Laguna Sucia
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Reunião 10 da via Buscaini, Agulha Saint Exupery
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Cume do Fitz Roy, com muito vento e o Cerro Torre abaixo
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Brasil no cume do Cerro Fitz Roy!
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Bloco de cordadas mais difícil da via Afanassief, no Fitz Roy
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