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Alpinismo no Cerro Fitz Roy - parte II

Com os amigos Valdesir Machado e Gabriel Otero, Edemilson Padilha esteve na Patagônia de 15 de janeiro a 15 de fevereiro de 2006, para realizar mais uma de suas aventuras, escalar Agulha Saint Exupery, via Buscaini e Cerro Fitz Roy.

O desafio

Saímos de Madsen, nosso camping em El Chaltén, com uma idéia fixa na cabeça: pouco equipo, muita velocidade. Fizemos a caminhada de aproximação que passa pelo camping Piedra Del Fraile e depois pelo bivaque Piedra Negra, onde tiramos um cochilo, pois sabíamos que não passaríamos bem a noite sem nossos sacos de dormir. Cruzamos o Passo Del Quadrado e adentramos no espantoso vale da face oeste do Fitz Roy. Porém, espantados mesmo, ficaram os norte-americanos que estavam no bivaque da base da via, quando dissemos que íamos todos para a mesma via. Nunca ninguém repete esta rota e no dia seguinte teríamos duas cordadas na via, que coincidência.

Encontramos uma pedra plana para dormir no mar de blocos de rocha que é base da via. Por sorte tinha água corrente do glaciar que se derretia. Enchemos nossas 3 garrafas e na volta demos de cara com os restos mortais de um escalador, uma massa de ossos e equipos horripilante; tiramos algumas fotos e as entregamos aos guarda-parques posteriormente. Passamos uma noite gelada dentro de nossos sacos de bivaque, acordamos cedo para o café da manhã e nos dirigimos para a base da via, mas a outra equipe nos passou na rampa de gelo de acesso, pois não levávamos grampons para todos, para reduzir peso.

Quando chegamos à base nos disseram: "nós vamos na frente", ao que respondemos: "nós estamos mais leves e iremos mais rápido". Eles não acreditaram e começaram a escalar e nós no seu encalço; eles tiravam o pé de uma agarra e nós já colocávamos a mão. E seguimos nesta "peleia" por quase 1000 metros de via, foi quando chegamos ao crux da via, uma parede empinada de uns 400 metros, com um começo não muito óbvio, gelo nas fissuras e três gringos dizendo que iam montar seu bivaque (era 1:00 da tarde) e que poderíamos passar.

Mostraram-nos uma foto plastificada da face oeste do Fitz com a linha da via. Pedimos para tirar uma foto deste pseudo-croqui, o qual nos foi útil mais acima. Voamos por cordadas duras de 6º grau francês e paramos para bivacar quando não podíamos mais escalar pela escuridão. Macarrão, café quentinho, uma repisa torta, cheia de pedras, muito frio; se o bivaque anterior era 4 estrelas, este era só 2 estrelas; por sorte a comida era boa e conseguimos dormir um par de horas.

Amanheceu e pela previsão dos irmãos Huber, teríamos uma quarta-feira esplêndida, mas não era o que se delineava. Muitas nuvens no oeste e que se acercavam ameaçadoras. Estávamos muito alto para descer. Rapelar 1500 metros abandonando todo nosso equipamento não estava em nossos planos. Seguimos adiante, pois o vento não estava forte e as nuvens não muito carregadas. Passamos uma manhã de mãos congeladas, pelo gelo nas fissuras e porque escalávamos na sombra. Mais acima saímos da geladeira e fomos brindados com um sol maravilhoso, um pouco de vento, mas o mais importante é que o Gabri viu o Pacífico! Não sabemos se foi uma visão, pela falta de sono, mas a verdade é que depois das nuvens que estavam sobre o gelo continental, no oeste, o céu estava limpo, o que era um bom sinal.

O Val guiou uma cordada de off widt (fenda larga), a mais dura da via toda, protegendo do jeito que deu, pois nossa maior peça era um camalot #4 (uma peça grande) e entramos na canaleta final, que leva ao cume. Muitos metros fáceis, porém tendo de desviar o tempo todo das partes congeladas pelo verglás que sempre se forma perto do topo. Escutávamos as rajadas de vento estourando na aresta que nos protegia. Seguimos boa parte em simultâneo e, com céu aberto, às 19:30 pisávamos o cume do Mr. Fitz Roy, depois de 36 horas de escalada! A via Afanassief agora já tinha uma repetição, depois de 27 anos! Estávamos flutuando e ainda de quebra, livramos a via, que antes de nossa repetição tinha partes em artificial!

Um pouco de vento e muita preocupação com a descida, pois não conhecíamos a via de rapel. Fotos rápidas; vestir as botas, pois escalamos toda a via com sapatilhas; colocar as polainas, um grampon; ajeitar as cordas, preparar o material para abandono...e iniciamos os rapéis. De cara já tivemos de sair montando os pontos de rapel, pois havia muita neve e estes estavam escondidos. Descemos no rumo enquanto havia luz, depois nos perdemos completamente e seguimos a intuição, pois não víamos a direção. Buscávamos uma plataforma para passar a noite e não encontrávamos; quanto mais descíamos, pior se apresentava a parede. Até que achamos um lugar para passar a noite sentados, talhamos um platô de gelo com os piolets, derretemos três panelas de neve para fazer suco, que bebemos vorazmente, pois a água já havia acabado antes de chegarmos no cume. Víamos as luzes de Chaltén e isto nos deixava ainda mais ansiosos para descer da montanha. Quando terminamos de nos ajeitar o dia nasceu; por sorte estávamos protegidos do vento que soprava do oeste. Posso dizer que este bivaque era 1 estrela, pois até a comida não esteve boa.

A luz do sol nos deu ânimo novo, mas a alegria durou até o momento em que puxamos a corda e ela enroscou num ponto extremamente difícil de soltar. Este foi um dos momentos mais tensos da escalada, pois estávamos perdidos, tínhamos passado uma noite gelada, sem dormir e agora a corda enroscava. Foi difícil manter a calma e resolver uma coisa de cada vez, sem entrar em pânico. Com malandragem, o Gabri a desenroscou, passamo-la no ponto de rapel, e eis que eu desço 10 metros e encontro o diedro bem marcado da Franco-argentina! Passamos de um estado de pânico para o êxtase. Encontramos o Thomas Huber e seu parceiro Andy mais abaixo tentando a via pela qual descíamos. Eles não entenderam nada, pois todas as cordadas que tentavam a montanha pelo leste haviam sido rechaçadas pelas condições da parede ou pelo vento. E nós vínhamos do cume!

Rapelamos tranqüilamente e mais abaixo paramos pra descansar e comer algo; encontramos um buraco na rocha cheio de água, acho que tinha uns 4 litros. Jogamos um pacote de suco dentro e tomamos com um canudo, foi surreal. Mais sete rapéis na Brecha dos Italianos, que é incrivelmente protegida do vento e pisamos no glaciar. Uma das cordas já era, sua capa estava cortada. Nos encordamos na outra e começamos a cruzar o Glaciar do Passo Superior que dá acesso às covas de gelo e depois ao Lago de Los Tres, onde deixamos o gelo e as gretas horripilantes para trás, para caminhar por uma trilha normal até o Acampamento Base Rio Blanco. Aí tomamos uns mates com os brasileiros e festejamos juntos nossa escalada.

Eles nos contaram que os guarda-parques estavam à nossa procura. Seguimos ainda até Chaltén, onde encontramos os norte-americamos que estavam conosco na via e que haviam rapelado do ponto de bivaque no meio da parede. Disseram que estavam muito preocupados e que eles é que tinham contatado os guarda-parques para acionar um resgate.

Foram quase 4 dias da saída de Chaltén até o retorno. Não podíamos acreditar, ninguém podia acreditar, foi uma escalada dos sonhos, que fluiu naturalmente, em que seguimos nossos instintos, nossa intuição e nosso coração. Tudo aconteceu da maneira que deve ser, ou seja, de forma perfeita.

Patrocínio: Conquista, Snake, Nômade e Território

Fotos:
Gabriel Otero
Edemilson Padilha
Valdesir Machado

Fonte: Edemilson Padilha
Cidade: Patagônia - AR-EX-Argentina
Fotos: Edemilson Padilha
Publicado: Michele Wesner Fernandes
Date: 03/03/2006 <%insert_data_here%>

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  Evento 3891 - Alpinismo no Cerro Fitz Roy

   Aqui os Albuns e Fotos



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