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36 hs de adrenalina por trilhas na Bolivia

Em agosto de 2006, Claudio e seu amigo Valério Silva, fizeram trilhas de moto nas montanhas bolivianas.

O geólogo Cláudio Netto Lummertz e o técnico ambiental Valério Pereira da Silva são de Porto Alegre e trabalham juntos na área de meio ambiente há 10 anos. Além da aproximação inevitável com diferentes paisagens através do trabalho, a dupla que vive nas montanhas bolivianas investiu nas duas rodas puro sangue e saiu a desbravar as montanhas mais inóspitas possíveis.

De GPS e punho e com esquecimento do mapa sobre a mesa, saímos às 16hs de Camargo do sábado em direção ao Salar do Uyuni. Nossa rota inicial começava com a saída de Camargo até Cotagaita, de Cotagaita a Atocha (possível caminho encontrado no Google Earth) e de Atocha a Uyuni, com retorno de Uyuni a Potosí, Potosí a Camargo. Levamos 2 horas para percorrer os 70 quilômetros entre Camargo e Cotagaita, pelo vale do rio Tumusla, lugar onde se tem uma overdose de beleza. A estrada de chão apresenta dificuldade porque margeia o rio Tumusla e é traçada com curvas fechadíssimas e lugares onde só passa um carro.

As 18 horas estávamos em Cotagaita fazendo a janta: bolachas, uma maçã e a tradicional coca (cola. Apesar de morar há quase dois anos na Bolívia, ainda não ''coqueamos'') (FOTOS 1 E 2). Partimos novamente às 19 horas e não sabíamos bem por onde iríamos, mas nosso destino se chamava pueblo de Atocha (FOTO 3). As imagens que tínhamos imprimido do possível caminho que achamos no Google Earth tinham ficado em Camargo. Contando com informações dos moradores locais, vendedores e até da dona da única farmácia, descobrimos que haviam dois caminhos para Atocha: um por dentro da ''quebrada'' (pelo rio) e outro por fora. Além da informação solicitada por nós, todos ''de graça'' nos davam o conselho de não ir pela quebrada e tentavam nos desencorajar da aventura.

Talvez este tenha sido o principal motivador da nossa indiada e nos fez seguir noite a dentro pelo caminho que todos achavam impossível. Principalmente para quem não conhecia a região, seria ''demência pura'' viajar de moto, à noite, sem conhecer o caminho e ainda por uma estrada quase intransitável.

Com demência ou sem (ainda não temos laudos médicos) às 19 horas estávamos (ao menos acreditávamos que estávamos) em direção a Atocha. Para garantir as informações, encontramos desta vez um caminhoneiro que trazia seu velho Toyota por uma pirambeira, e ele simplesmente falou que era loucura e que tínhamos que voltar para dormir em Cotagaita e fazer a viagem de dia. Loucura era aquele cara à noite viajar com um caminhão! Mediante a insistência do Sr. Caminhoneiro concordamos em retornar, resposta simples somente para ele, pois tínhamos recém iniciado a jornada. Vinte minutos mais de pirambeiras e encontramos um grupo de campesinos que nos deram as indicações para chegar ao objetivo: ''vayan por la quebrada, no hay otro camino. Pero para donde quieren ir ustedes?''.

Com as valiosas informações e já aclimatados mentalmente para o inicio da indiada, fomos rapidamente para a quebrada e por aí andamos alguns minutos e novamente... uma boa pergunta: que que eles nos falaram mesmo? Novamente pedimos informações, desta vez para um grupo de pessoas que viviam em uma casa junto a quebrada. Então nos afirmaram com certeza que tinha o caminho pelo rio (a ''quebrada'', no bom castelhano), e disseram que não deveríamos pegar a direita em momento algum. Foram tão incisivos que achamos que pros lados da direita encontra-se a população perdida de seus ancestrais que não iriam tolerar ''personas non gratas en la región''. Parecia até aquela passagem do filme um Lobisomem Americano em Londres: não entre na charneca, não entre na charneca, onde estamos? Aaaah na charneca!''

Adrenalina pura, o ronco das motos ecoava pela quebrada e só era interrompido pelos ''puta merda!'' adivindos de nossas gargantas quando a gélida água se lançava sobre nós ao cruzar os sinuosos tramos da quebrada. (FOTOS 4 E 5). No início foi só alegria e descontração. Depois de 2hs já era motivo de lástima e indignação. Ao passo de transcorrer as horas a temperatura despencava bruscamente nos dando a sensação de estar em uma banheira repleta de cubos de gelo. Como diz um grande amigo meu, a desgraça nunca vem sozinha.

Além dos cubos de gelos agora tínhamos o problema de as motos de 5 em 5 minutos se apagarem. Conclusão: o rio rico em sais (já que o mesmo provem de regiões cercanas ao Salar do Uyuni) fazia que os mesmos se depositassem junto ao motor e vela da moto, funcionando como um aterramento. A solução era limpar a área com uma toalha e vamos lá de novo de 5 em 5 minutos. Até as 10 horas da noite a temperatura estava amena, passávamos por dentro da água tranqüilos. Foi por volta das 11 horas começamos a sentir frio e colocamos todas as roupas que tínhamos. Teve uma hora que paramos para tirar as botas, torcer meias e encostar os pés no motor da moto para esquentar.

Seguindo viagem o frio era tanto que as poças d'água estavam congeladas. Entramos num vale de pedras e de repente o caminho acabou. Estávamos na trilha errada. Voltamos e cada vez havia mais gelo. Seguimos por dentro de um rio e quando paramos outra vez para esquentar um pouco vimos que as motos tinham estalactites de gelo no paralamas. (FOTOS 6, 7 E 8)

Faltando mais ou menos dois quilômetros para chegar em Atocha, de repente entramos num cemitério de campesinos, o uma imagem muito sinistra. Vimos as luzes de Atocha no sentido da esquerda e decidimos seguir por aí. Depois de reviver uma aventura a moda de Shackleton, chegamos finalmente a Atocha as 3 horas da manhã, onde buscamos o Residencial Punta Rieles. (FOTO 9)

Com uma cara de espanto pela hora que chegamos, fomos atendidos com aquela pergunta de sempre aos viajantes: de onde vocês vêm? Porque a estas horas? Tentamos abreviar o máximo possível as explicações pois realmente o frio era insuportável. Acomodamos as motos com uma leve observação do senhor do hotel: vocês vão ter que tirá-las às 6 horas porque esta camionete vai sair. Tudo bem, naquele momento não haveria nada melhor que uma cama e um sono de qualquer 3 horas.

As Nove da manhã colocamos as motos no sol e as roupas para secarem (FOTO 10) e às 10 horas já estávamos pronto para partir. Desta vez sob sol forte e com uma temperatura amena seguimos até o Povoado de Uyuni, passando por um campo de dunas magnífico, onde colocamos à prova as magrelas. (FOTOS 11, 12, 13)

Chegando ao Uyuni farejamos algo muito interessante: Pizzas! Realmente estávamos no céu, depois de 20 horas de muito esforço físico, incluindo frio e comida ruim, nada melhor que uma pizza. Em Uyuni fizemos uns passeios rápidos não deixando de passar pelo cemitério de trem onde jazem velhas locomotivas, proporcionando aos observadores se transporem ao passado por breve momento. (FOTOS 14 E 15)

As hora de descanso em Uyuni foram bem aproveitadas mas curtas (FOTO 16), porque já era hora de retornar, pois são nada menos que 400km pela frente até chegar em Camargo, sendo que parte do caminho se faria em plena noite.

Chegamos em Potosi as 9 horas da noite e ainda encontramos o amontoado de pessoas que tinham participado da tradicional festa de chutillos. Finalmente, depois de muitas curvas que quase não conseguíamos fazer de tão esgotados, às 2 horas da madrugada chegamos a Camargo. Apesar do cansaço das de 36 horas de adrenalina, nos surgiu uma pergunta que não queria calar: qual vai ser a indiada para o próximo findi?

Cláudio Netto Lummertz

Fonte: Cláudio Netto Lummertz
Cidade: Uyuni -Bolívia-EX-Bolivia
Fotos: Cláudio Netto Lummertz
Publicado: Élen de Cássia Pereira
DATA: 31/08/2006 <%insert_data_here%>


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