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Elcino Júnior em Machu Pichu III

O engenheiro mecânico, Elcino Del Penho Júnior, 48 anos, do Rio de Janeiro-RJ, realizou entre os dias 23 de agosto e 23 de setembro de 2006 uma emocionante viagem rumo à Machu Pichu. Confira o seu relato. Parte III.

01.09.2006

Acordei e lá estavam Hugo e Sara admirando a ''Pretinha'', fizemos fotos na moto e com o Cerro de 7 Colores ao fundo. A Internet aqui é lenta e cai de vez em quando, fiquei horas para baixar as fotos da máquina, 247 fotos para o pen-drive. Peguei a Ruta 9 em direção a La Quiaca e parei em Tilcara para abastecer. Nisso chega um casal de alemães viajando de bicicleta, vindos do Alaska com destino a Ushuaia, Astrid Daniel e Mewes Abrell. Batemos papo, fizemos fotos, me deram um mapa da Bolívia e segui viagem.

O caminho da província de Jujuy é cheio de sítios arqueológicos e era um desejo antigo meu conhecê-lo. Há males que vêem para bem, se tivesse ido pelo Atacama talvez jamais conhecesse esta estrada. A estrada passa por lugares surreais, sobe até um altiplano com 3.500 metros de altitude, com montanhas ao longe com formas inacreditáveis, tanta beleza que me emocionou e na solidão de uma reta infinita, não resisti e chorei agradecendo a Deus uma oportunidade dessas.

Só faltou minha companheira de viagem, e decidi que não viajo mais sem ela. Cheguei a La Quiaca e a fronteira é uma loucura de tanta gente, porém, fui bem recebido e orientado a fazer um seguro, do mesmo tipo do carta verde, antes de passar na imigração. Fui numa seguradora e a mulher toda enrolada disse que não fazia para moto e não aceitava dólar. Fui em outra, na rua principal da entrada da cidade, Calle Spaña, 198, e consegui o seguro, que custa 32,50 pesos, paguei com 10 dólares mais dois pesos.

Os argentinos se despedem de viajantes com ''Suerte'', muito legal. Entrei na Aduana, o funcionário muito gentil saiu e deu uma vistoriada superficial na moto, me orientou os próximos passos, imigração argentina, aduana boliviana, preenchem um papel da moto que será baixado ao sair da Bolívia, sai do lado argentino e passa para a Bolívia, preenche outro formulário e leva uma via, tudo tranqüilo, fiz câmbio e entrei em Villazón, na Bolívia. Dica: as palavras ''Señor, Por favor, Gracias'' são necessárias e abrem as portas da boa vontade. Aliadas à paciência, humildade e simpatia, minimizam a estafa do trabalho dos agentes aduaneiros e despertam bons sentimentos. Aliás, moto carregada é uma coisa que desperta curiosidade e conversa, se der corda fica o dia todo conversando com as pessoas.

Como já era final de tarde, resolvi dormir em Villazón para prosseguir por estrada de terra, 60%, é asfalto até Potosí. Na praça principal da cidade, parei numa galeria e na livraria procurei mapa, e o dono tem um hotel nos andares de cima, que na verdade são lojas transformadas em quartos, semi-espelunca sem desayuno, porém, com garagem, e resolvi ficar nesse mesmo, 15 bolivianos=menos de dois dólares. Outra Dica: Faça cópia da página do passaporte com saída da Argentina e entrada na Bolívia e todos os demais documentos, seguro, imigração e baixa da moto. Saí para jantar frango com arroz, batatas fritas e macarrão, com cerveja, 20 bolivianos, US$2.56, tudo muito barato, povo pobre. Na porta do restaurante havia anúncio para ajudante de cozinha, imagina o salário. Internete fora do ar, resolvi atualizar o diário no Word e deixar para passar mais adiante. Minha boca e mãos estão rachadas e ressecadas pelo frio, mas aqui na Bolívia está menos frio.

02.09.2006

Saí do hotel às 9h e na saída da cidade tem um pedágio de 3,50 bol, detalhe: é estrada de chão. Na cidade seguinte, cerca de 100 km, outro pedágio de 7,00bol, continua a mesma estrada. Curti muito esta estrada, no começo é pura costela e o jeito é acelerar, imaginem eu a 90km/h e um ônibus vem crescendo no retrovisor. Cada ônibus e caminhão que vinham no sentido contrário me faziam desligar a moto e ir no embalo até a poeira baixar. Depois dos 100 km acalmou o trânsito, melhorou a pista e curti muito as curvinhas. O caminho tem formações rochosas diferentes e muito interessantes, inclusive um túnel escavado na rocha. Depois de Cotagaita começa uma estrada de concreto, ótima, estão concretando todo o trecho de Villazon a Potosi.

Quando cheguei em Cucho Ingenio, que tem um visual lindíssimo, parei no posto de gasolina para perguntar quanto faltava para chegar em Potosi, 38 km. Brinquei com o frentista e disse que abasteceria ali mesmo só pela beleza do lugar. Foi a minha sorte, pois em Potosi a gasolina está em falta e como amanhã sigo em outra direção para Oruro, teria que voltar estes 38 km só para abastecer. Me instalei no primeiro hotel que vi perto do centro e fui lavar a moto, aproveitei e antecipei a troca de óleo devido à poeirada que peguei, troquei vela, filtro, serviço completo.

Estou no centro de Potosi neste momento, e vale a pena conhecer esta cidade histórica colonial. Tudo aqui é barato, hotel a 80bol, R$20,00, e tem italianos e franceses hospedados. Como tenho atração fatal por espelunca, a chave do meu quarto é manhosa e só a faxineira consegue abrir na primeira tentativa. Deixei a moto na garagem e pedi um táxi para dar uma volta no centro e me deixar perto de restaurante e internet, preço da corrida 3,50bol, menos de R$1,00. Amanhã cedo vou dar uma voltinha para fotos no centro onde tem prédios lindíssimos, e parto para Oruro, La Paz e outras. Ás vêzes temos que recuar e reconhecer nossas limitações, como no Paso de Jama, e a mudança pode ser até melhor.

05.09.2006

Juliaca é uma zona, cedinho já tem vans buzinando, triciclos se espremendo, uma poluição horrível por causa do estado precário dos carros, ônibus e vans. Vi uma setentinha nova e parei para observar se era a Honda ST-70 e, para minha surpresa, era KTM, aí cheguei mais perto e notei que tem um traçinho fechando as duas perninhas do K, ou seja, é uma RTM, chinês é demais! Saindo para Cusco, vi a revenda RTM, que tem CG125, quase igual, até o motor é igual, cópias de Kawasaki e outras. O asfalto de Juliaca até Pucara é uma colcha de retalhos, após Pucara melhora bastante e se mantém até Cusco. Ao contrário da Bolívia que tem pedágio para todo lado, no Peru, há pedágio só num sentido, não paguei nenhum até agora. Este trecho até Cusco é simplesmente fantástico.

Minha média nesse trecho foi de 50 km/h, de tanto parar para fotografar, 227 fotos em menos de 300 km, ou seja, quase uma foto por km. O vale do Vilcabamba, que depois vira Urubamba, é muito mais lindo ao vivo que nas fotos que já vi, só vindo aqui para acreditar. As cores, a vegetação, a imponência das cordilheiras que cercam todo o vale são demais. Dá inveja em nós mineiros que não temos um morrão desses, sô! A neve no topo parece sorvete escorrendo, aliás, este foi o motivo das formas que apresentam o degelo, foi esculpindo em milhões de anos as mais variadas formas. No caminho, tinha mais um gringo viajando de bike, só que estava sozinho. Havia um grupo fazendo canoagem e descendo corredeira com botes infláveis. Encontrei hoje também um grupo de Santa Catarina, de Criciúma e Floripa, em 5 moto homes muito legais. Todos ficam admirados e perguntam com quem estou viajando, daí respondo: Só eu e Deus!

Parei para almoçar em Urcos, onde vou pegar a estrada para Puerto Maldonado. O almoço foi uma sopa de legumes muito gostosa, depois um peixe frito com arroz e salada, mais refresco e gelatina, tudo incluso a 2,50 soles, aproximadamente R$1,00, estou começando a pensar que o Brasil está mal, todos têm muita ganância e todos saem perdendo. Não consigo entender a gasolina muito melhor e mais barata, Internet pode-se falar horas que dá mixaria, hotéis muito mais baratos, vou ficar freguês!

Estive pensando hoje como desmistificou na minha cabeça coisas tais como passagem em fronteiras, não falar español, logística para esconder dinheiro e escapar dos espertos, aliás meus santos estão muito eficientes, pois só encontrei gente boa pelo caminho e, tirando aquele infeliz do guarda bêbado do Chaco, nenhuma polícia me parou. Em Urcos, segundo o pessoal que tem agência de carros que fazem este trajeto, a estrada está sendo preparada e pavimentada, porèm ''no hay grifos'', postos de gasolina. Vou usar meu galão e arrumar outro para ficar com 10 litros extras, acerbis de 24, total de 34 litros.

Quem tem XTE original pode providenciar um tanque maior para uma viagem dessa. Cheguei em Cusco às 15h30 e senti uma sensação gostosa de dever cumprido até aqui. A entrada da cidade é a típica bagunça de cidade grande, com postos de gasolina, oficinas, etc. Estou numa pousada muito maneira no centro histórico, escolha da patroa que detesta espelunca, tem lareira e é bem jeitosa. Mal cheguei, mas já deu para ver a mistura de base inca com paredes españolas. Os espanhóis destruíram muito do que os incas fizeram, porém, observaram que eles sabiam construir muito bem, sem argamassa e com junções que venceram séculos de terremotos e os espanhóis aproveitaram as construções até certa altura e construíram acima desta no seu estilo, para imporem sua cultura.

Só de sacanagem, vou passar meu calibre de lâminas, a mais fina é de 0,05 mm, nas junções das pedras. Na minha opinião, isso é coisa de um rei chato que falava com os peões para não deixarem nenhuma frestinha entre as pedras e os peões obediente limavam as juntas até fechar no zero. Amanhã a Karla chega cedinho e ficaremos até dia 13, quando ela retorna e eu começo a descida para o Acre. Para quem nunca veio para estes lados, posso dizer que estou vivendo a melhor experiência de minha vida, convivendo com povos muito bons, estou muito feliz e a cada dia dá vontade de continuar tocando até o fim do mundo. Ushuaia, essa será a próxima. Recomendo muito este trajeto modificado pelo gelo no Paso de Jama, que resultou em passar pela Bolívia. Adorei, vou voltar para chegar ao Peru.

06.09.2006

A Karla chegou às 7horas da manhã, morta de cansada por causa das defasagens entre os vôos por falta da Varig. Fomos para o hotel e dormimos a manhã toda, levantamos para almoçar e passeamos pela Plaza de Armas. O centro de Cusco é simplesmente lindo, com construções coloniais espanholas, tem de tudo. As igrejas são fabulosas, nunca havia visto nada igual.

07.09.2006

Embarcamos no trem para Águas Calientes às 6 horas. Pagamos pelo pacote US$140 por pessoa, incluídos trem de ida e volta, ônibus de Águas Calientes a Machu Picchu e volta, e transfer ao hotel. Quem quiser economizar um pouco, pode ir de moto até Ollantaitambo, 89km, e pegar o mesmo trem às 9 horas, paga-se pelo ônibus e para entrar no parque, 118 soles, 37 dólares e volta só até Ollantaitambo. Vou fazer isso no dia 11 para uma segunda visita ao parque. Quero subir a montanha velha, cerca de uma hora de subida. No caminho, o trem pára em estações e vendedores oferecem comidas e, numa dessas, comemos o melhor milho da minha vida: um grão enorme, macio e com gosto de enfumaçado.

Toda hora eu ia ao banheiro para fazer fotos pela janela. Havia um grupo de sete motociclistas de Brasília que vieram pelo Acre em XT660, me deram dicas, disseram que há como abastecer pelo caminho, que a estrada está em obras de preparação para pavimentar e que fecha às 7 horas da manhã para obras e abre às 19 horas. Vou ter que chegar na barreira antes das 7 horas, vou ver como faço com isso. Finalmente Machu Picchu! Não dá para descrever com palavras, mas é um lugar realmente mágico, com uma aura leve e que dá um extremo bem estar.

Passeamos por todas as construções e brincamos com as lhamas. Consegui ganhar um beijo na boca de uma. A hora venceu e não consegui subir a montanha sagrada, resolvi voltar na segunda feira para isso. Os Inkas foram geniais, tinham conhecimento de astronomia, solstícios marcados com exatidão nas janelas do templo do sol, engenharia civil, saneamento , há um sistema de distribuição de água genial, e agricultura em lugar íngreme, com curvas de nível. Amanhã iremos a Puno para passear pelo Lago Titicaca e Ilha dos Uros.

08 e 09.09.2006

Saímos um pouco tarde para Puno, seguimos pelo vale do Vilcabamba, lindo demais! No final da tarde pegamos um vento forte e gelado próximo a Juliaca e finalmente chegamos a Puno, onde pernoitamos. Para quem vem pela Bolívia em direção a Cusco, compensa parar antes em Puno, devido à distância, cerca de 350 km, para um passeio de barco até a comunidade dos Uros, lhas flutuantes, casas e barcos que lembram vickings, onde tudo é feito de um único vegetal. Optamos pelo passeio somente até os Uros, que dura toda a manhã, para voltarmos à tarde para Cusco. Comemos truta, pescada na hora, com batatas e salada. Conversamos muito com os turistas, com os uros e brincamos um pouco naquele chão macio e com crianças alegres. Valeu cada momento!

Continua...

Fonte: Elcino Del Penho Júnior
Cidade: Machu Pichu-Ex-Peru
Fotos: Elcino Del Penho Júnior
Publicado: Fabiane Castro
Date: 17/10/2006 <%insert_data_here%>

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  Evento 4828 - Viagem à Machu Pichu

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