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A paraquedista Mary Rose da equipe americana ''U.S. Parachute Team'' nos relata uma de suas experiências com o cutuway.
No comecinho do ano tive um ''malfunction'', que apesar do susto, contribuiu muito para enriquecer a experiência de quem pratica um esporte radical como o pára-quedismo. Este foi o meu quarto cutaway. O fato ocorreu quando eu participava do ''2005 Classic Arizona Camp'', na Skydive Marana/AZ, que acontece todos os anos no mês de março. Tive uma pane de velocidade que não é muito comum acontecer com um pára-quedas de precisão que tem sete células. O velame primcipal é um Classic 238, o reserva um PD -140 e o equipamento Racer. A pane foi causada por uma abertura mal sucedida que quase levou a minha vida, caso eu não fosse uma pára-quedista experiente. O meu time saltou de um Cessna 182 a 3,500 feet. Fui a última a sair do avião e fiz hop-and-pop. Desta vez, infelizmente, o pára-quedas não abriu. Nada de pânico, sobretudo sabendo que as panes costumam ser acompanhadas de fortes giros que prejudicam a consciência e reflexos. Tranqüilidade é dever de quem arrisca a vida se atirando de um avião, embora confesse que a aventura de voar pague o preço pelo risco! O velame principal parecia ter apenas três células semi-abertas e girava muito formando uma séria de twists nas linhas. Eu não tinha muita certeza se era o velame que girava em torno de mim ou se era eu que girava em torno dele. A outra parte do velame estava presa nas linhas que se encontravam num twist total. Eu não sabia quanto tempo estava naquela agonia e tentava reagir para não desmaiar por completo. Provavelmente estaria girando há muito tempo e já estava muito baixo. Desesperada, numa tentativa de sobreviver, mesmo sem olhar para o desconector, e com muita dificuldade, levei as duas mãos juntas e desconectei. A sensação é como se eu tivesse sido jogada para fora do equipamento. O meu corpo ganhou mais velocidade nos giros e lutei muito para sair de um estado de quase letargia. Lembrei que o meu equipamento de precisão não tinha AAD (dispositivo automático) e, caso eu não tomasse mais uma outra iniciativa radical, definitivamente eu iria morrrer. Mais uma vez, sem nenhum contato visual, levei as duas mãos para comandar o reserva e, para minha surpresa, o punho não estava no alojamento. Desesperada, imediatamente olhei para o local e vi que ele voava girando em torno do alojamento. Grudei as duas mãos no cabo do punho e o empurrei esticando os braços para frente.
Ainda totalmente embriagada do susto, senti o meu corpo sendo sustentado pelo pára-quedas reserva. Foi uma satisfação indescritível! Quis conferir o altimaster mas os meus movimentos ainda eram muito lentos. Era até difícil de acreditar que o reserva já estava aberto! Tudo parecia um terrível pesadelo.
Procurei encontrar o alvo para saber de que lado da área eu estava voando, mas não consegui identificar o mapa que via lá em baixo. Tudo era muito confuso e parecia ser uma imagem desconhecida. Senti um silêncio infernal e o medo começava a querer me dominar. Não era hora de chorar. Tinha que reagir, pois ainda faltava cumprir mais uma tarefa muito importante, que era pousar com segurança.
Novamente quis saber a altitude, mas o altimaster estava virado para baixo. Vi que o tirante do peito e das pernas estava folgado, fora dos alojamentos e voavam batendo de leve no meu corpo. Também estava sem o óculo de salto e tinha perdido as lentes de contato.
Numa tentativa de me manter bem acordada, comecei a fazer exercícios de respiração, abri bem os olhos, levantei a cabeça e os braços para cima. Foi somente nesse momento que me dei conta que ainda não havia desfeito os freios do pára-quedas reserva.
O pára-quedas reserva começou a voar e senti uma brisa gelada no rosto. Os exercícios de respiração parecia me fazer sentir melhor. Feliz da vida, comecei a reagir e com a mão direita levantei o altimaster para conferir a altitude: 1,500 feet? Perguntei meia intrigada. Isso não era possível e não acreditei no que via! Cheguei a pensar que o altimaster não estava funcionando muito bem tanto quanto a minha cabeça. Pois o chão estava logo ali!
Procurei saber a direção do vento, mas não encontrei os Wind Blades na área. Também, agora, nada disso teria tanta importância porque já estava muito baixo. Era hora de fazer o pouso e então falei bem alto: ''Muito cuidado com o pouso, Mery Rose! Você tem que sair desta numa boa!''.
O chão se aproximou muito rápido e me joguei nele fazendo o rolamento de aterragem que aprendi a fazer quando era estudante de pára-quedismo. Caracas! Como o chão do deserto Americano é duro! Como uma boa precisionista que sou, como não me livrei desses caquitos?
Mais tarde, quando estava em casa, já sã e salva, tentei por várias vezes escrever o que tinha me acontecido e não conseguia. Nas minhas frustadas tentativa eu só chorava. Comecei a relatar o fato a vários amigos e disse a eles que só não havia morrido porque tinha muita experiência no esporte. Um deles, um pouco assustado, perguntou: ''Neste caso, tanto eu como a minha esposa que somos novos no esporte teremos que contar com a sorte, já que não temos experiência?''.
Há vários casos de pessoas que não conseguiram desconectar em situações semelhantes. Eu diria que a experiência adquirida na longa trajetória dos meus 31 anos no pára-quedismo, conta muito em muitos fatores.
Há muitos anos também faço os exercícios de mentalização dos procedimentos de emergência e isso foi que me levou, mesmo um pouco inconsciente, a fazer os procedimentos corretos para desconectar antes mesmo de comandar o reserva. Sem a seqüência correta desses procedimentos o incidente teria sido fatal.
É muito importante você ter experiência e saber agir. Porém, o mais importante mesmo é você lembrar de fazer correto na hora que precisa fazer.
O que seria de todos nós se não aprendêssemos com os exemplos dos nossos próprios erros que estão acontecendo a cada momento em nossas vidas?Ninguém aprende essas coisas nas Universidades, Bibliotecas, nos livros, ou mesmo ouvindo os conselhos dos pais e amigos. Nenhum deles lhe dá tanta experiência em situações semelhantes. Logo porque a lei da vida nos ensina que teremos que conviver com os nossos próprios erros e fracassos para aprender a não cometê-los novamente. Senti isso na pele.
Hoje, apesar do susto que levei, a experiência recentemente vivida, me fez aprender mais algumas coisas: uma delas é que eu jamais saltarei sem um AAD, tanto no meu equipamento de freefall quanto no de precisão. Outra lição: numa outra situação como esta, serei bem mais rápida em fazer os procedimentos de emergência; desconectar e comandar o reserva antes mesmo do pára-quedas principal abrir de maneira tão brusca e com giros radicais, como aconteceu.
Lição de vida: Desta forma, a vida nos ensina também que é através dos nossos próprios erros que nos faz refletir e mudar nossas próprias ações, fazendo com que tomemos decisões hábeis, seguras e certas na ocasião necessária. Isso se chama e x p e r i ê n c i a, e com experiência de vida é que evitamos erros maiores e improcedentes. E é aprendendo com os nossos próprios erros que chegamos ao patamar mais alto de nossas vidas, que é a realização dos sonhos de cada um de nós.
Acredite, isso vale para todos: Nesta vida, com experiência chegamos onde queremos chegar, e somos aquilo que queremos ser.
Blue Skies!
Mery Rose
.S. Parachute Team
Fonte:
Mery Rose Cidade:
San Franscisco-EX Fotos: Mery Rose Publicado: Kenia Almeida Ferraz DATA: 02/03/2007
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