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Viagem à Europa/ parte II

No dia 10 de março de 2007, Berenice Sica Lamas juntamente com Cássio Lamas Pires partiram de Santos/RS rumo à Europa, a bordo do navio Armonia. Confira como foi a viagem. Parte II.

No dia da travessia do Equador- a passagem do hemisfério sul para o hemisfério norte - há o coquetel de boas vindas do Comandante, ao qual as pessoas são convidadas a comparecer em traje de gala, uma tradição nos cruzeiros marítimos. No dia posterior a esta passagem - que ocorreu a meia-noite pela navegação - houve a brincadeira do Batismo de Netuno com os passageiros, com fantasias de sarongue e colares coloridos. O Comandante do barco compareceu rapidamente, e em seguida se retirou. Os passageiros que participaram levaram na cabeça (batismo) uma concha de leite, molho a bolonhesa quente, merengue e ovos crus quebrados também na cabeça. Participa quem quer.

O interessante é acordar cada dia e aquele mar ali - carpe diem - um dia inteiro para ser desfrutado. Levantar mais cedo e admirar o nascer do sol. Tomar o café da manhã com o Atlântico aos nossos pés espiando.

Não circula dinheiro a bordo. No check-in, todos realizam um deposito em cash (U$) ou o próprio cartão de crédito para as despesas. Tudo é realizado através do cartão magnético que também serve como chave para abrir a porta da cabine, bem como controlar a saída e entrada dos passageiros quando o navio atraca nos portos. É ainda com ele que se registram as compras nas lojas, as bebidas extras nas refeições e jogos no cassino. Digamos que o cartão magnético se transforma em nossa identidade a bordo.

O cuidado físico com o navio/morada é impecável: tripulação atenciosa, ágil, eficaz. Se for necessário, invisível (aproximadamente 1500 pessoas em funções diversas). Se cair uma migalha, uma felpa, corre um aspirador logo ali. O pessoal está desfrutando da piscina, há alguém passando brasso (polidor) no corrimão de metal da escada. Consertos, reparos, demãos de tinta, durante todo o percurso, a qualquer hora.

A solidão... é possível vivenciá-la, mesmo numa superfície tão pequena com uma densidade demográfica tão grande. Depende do estilo de cada um: o pensar, o refletir, o escrever, o ler, o ouvir i pod, o ficar mais sozinho. Saber desfrutar de cada opção é o que otimiza a viagem de cada um. A experiência gastronômica é quase surreal e o próprio conceito da travessia em navio de cruzeiro é a chave.

O navio e o tempo não aprisionam, há muitas atrações, principalmente o oceano, o céu, o sol e tempo livre - próprio para introspecção ou borboletear pelo navio, proa, popa, convés lateral e todos os ambientes internos. O estresse usual desaparece como encanto: sem agenda, celular, contas apagar, Banco, carro, chaves, compromissos, trabalho, horários. Trata-se de uma vida diferente por um lado simples, por outro, complexa e até sofisticada.

A única coisa da qual não se escapa são algumas filas, principalmente nos principais eventos, nas refeições nos buffets e nos tramites burocráticos. Afinal, são em torno de 2000 passageiros.

A visão em 360° de puro mar e céu, sentindo o vento forte do Atlântico Norte é assombro, grandiosidade e extremo respeito. Ali, antes de estarmos nas mãos da tecnologia (navio) nos sentimos também dependentes da natureza. Sensação que nunca havia sentido antes, mesmo a 13 mil pés de altura. Imponência, galhardia e segurança com que o Armonia singra as ondas é algo memorável. Mas repito, é para quem gosta, para quem curte. Após Arrecife (Canárias), até entrar no Estreito de Gibraltar, o oceano estava encrespado, ondas altíssimas, o navio jogou muito, muitas pessoas marearam e sentiram medo. Além do que a temperatura caiu consideravelmente.

O balancear do navio de acordo com o bailado das ondas traz situações diferentes e até divertidas: na aula de aeróbica ou de dança, em passo mais ousado, ao tirar os pés do chão em segundos, quando se volta o chão já não esta no mesmo lugar - surpreendente! Ao chegarmos ao Mediterrâneo tudo se ajeita: mar calmo e tempo tépido em Málaga, aliás, a única cidade do roteiro onde o navio atraca durante toda a noite e zarpa somente às 13h. O pessoal jovem aproveita para curtir a noite de Málaga.

São oferecidos serviços de excursões nas cidades portuárias, elas são bastante organizadas e eficientes nos modelos usuais do turismo. Podiam-se escolher guias que falassem inglês, alemão, italiano, francês e espanhol. Não havia guias em português nas cidades visitadas. Para passageiros não excursionistas há serviço grátis de tranfer do porto para o centro da cidade em ônibus ou vans. Também é fornecido o mapa detalhado de cada cidade que se aproxima, bem como um histórico e descrição de pontos turísticos da mesma.

Em Casablanca e Dubrovnik foi cobrada uma pequena taxa. Em Salvador e Málaga é possível caminhar, do porto, até a cidade. Em outras é mais complicado, sendo impossível visitar a cidade sem tomar uma condução. Nas cidades, geralmente se aproveitava para telefonar para família e usar internet, serviços muito caros no navio.

Há pequenos jornais condensados contendo notícias das principais cidades de cada país, em todos os idiomas, à disposição dos passageiros.

A atração (bastante forte aliás) deste tipo de viagem, também se constitui no itinerário e as cidades visitadas: os roteiros turísticos de viagens de avião não costumam contemplar, por exemplo, Arrecife, La Valetta ou Dubrovnik. São lugares vistos sob um ângulo totalmente diferente, desde a aproximação e chegada pelo ponto de vista do mar e do navio, até sua visitação.

Em cada porto subiam mais e mais passageiros. Há uma população estável, entretanto, que vem desde Santos/Rio de Janeiro até Veneza, mas há uma flutuante que desce/sobe.

Sempre que o jornal da programação de bordo avisava anteriormente que uma determinada ilha ou costa seria avistada (ex. Cabo Verde, costa algeriana, Tanger...) geralmente as pessoas se interessavam em observar e registrar, ganhando lições concretas de geografia à disposição a sua frente.

Dinheiro, jóias, documentos e outros valores são guardados no cofre individual disponibilizado em cada cabine, situado atrás de um amplo espelho. Passaportes são recolhidos no check-in e devolvidos na chegada a Veneza, depois da visita ao navio da Policia Italiana que os carimba com o visto de entrada.

A viagem é lenta, podem argumentar dizendo que preferem chegar a Europa em doze horas - de avião. Mas não se trata disto - trata-se de outro nível de viagem, outra natureza, não comparável. Reflete-se sobre o conceito de tempo inclusive, a velocidade do cruzeiro é lenta e rápida sem isto ser uma contradição. O espaço e o tempo se redimensionam, tomando proporções novas: pode ser quarta-feira ou domingo, tanto faz. Quando percebi estava aportando em Veneza - final de viagem - li, escrevi, alonguei, dancei, comi, bebi, tomei sol, admirei espetáculos, desci em novos portos, conheci cidades, olhei o mar, descansei, dormi, conheci pessoas. Interagi e conversei quando quis. A viagem, apesar de ser com o mesmo itinerário e no mesmo navio, é cada um que constrói.

Se a partida pela Baia de Guanabara deslumbra com o Pão de Açúcar,o Corcovado e outras belezas do Rio de Janeiro a desfilar ante nossos olhos comovidos, a chegada a Veneza é triunfal, com aquele enorme navio da altura de um edifício de 15 andares a deslizar pelo Gran Canale naquela mítica e "náutica" cidade italiana, até aportar.

Recomenda-se sem contra-indicações, pois cada um adapta-se a sua maneira. Nem tudo foi sempre harmonia, mas sem dúvida, Armonia foi tudo sempre.

Texto: Berenice Sica Lamas

Fonte: Amilcar Sica Lamas
Cidade: Santos-RS-Brasil
Fotos: Cássio Lamas Pires
Publicado: Daniela Silveira Farias
Date: 09/05/2007 <%insert_data_here%>

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