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Ronésio Cascaes tirou o 6º lugar na categoria estreantes no Enduro dos Pampas, que aconteceu em Taquara/RS nos dias 13, 14 e 15 de abril de 2007. Confira seu relato da prova.
Depois que rompi o ligamento cruzado do joelho direito no Endurela de Santa Cruz em setembro de 2006, tinha dito para mim mesmo que iria parar de competir em provas e ficar só brincando em trilhas.
Um fiasco no Enduro de Verão, com moto caindo a corrente a toda hora e para finalizar, mergulhando com moto e tudo em um dos riachos da prova, reforçava a idéia de parar de competir.
Mas como bom mentiroso, neguei tudo o que disse e resolvi encarar o Enduro dos Pampas. Em primeiro lugar, é uma prova para ninguém botar defeito. Em segundo lugar, não ia privar o meu amigo Lazaretti da minha presença na prova e em terceiro lugar, é muito bom encarar o desafio de dois dias de prova, colocando a prova os limites do corpo e da mente.
Decisão tomada no início de março, comecei a preparar-me para o enduro, encarando a academia com rigor, reforço muscular nas pernas, principalmente no joelho bichado e alimentação balanceada por uma nutricionista. Até parecia piloto profissional se preparando para o Rallye Dacar.
A preparação da moto teve um trabalho especial. Rolamento duplo no cubo traseiro da roda, relação nova mais curta (12 x 49 dentes), lonas e pastilhas de freio novas, pneu Pirelli novo na dianteira e Rinaldi, também novo na traseira, com gomo mais alto, câmaras de ar reforçadas e duplas nas duas rodas.
O sistema de navegação da Compass (também novo) ganhou acionamento duplo por sensor magnético e por cabo de velocímetro, para garantir o funcionamento em qualquer condição, além de um segundo cronômetro de reserva.
Como bom inventor e criativo, instalei a quarta versão de um guincho, bolado por mim, no cubo de roda traseira para eventuais emergências e desenvolvi um cinto tipo canga de boi, que cruzado no ombro a tiracolo, facilita suspender e puxar a Tornado Bigorna XR 250 de atoleiros e cavas.
Tudo isto e mais uma joelheira articulada para o joelho bichado foram frutos da vontade que eu estava de encarar o desafio e tentar fazer bonito no dia da prova.
Finalmente chega o grande dia. A expectativa era enorme e convidei meu sobrinho Márcio Aurélio Cascaes para estrear sua carteira para caminhão e servir de apoio durante os dois dias. Tomamos a decisão de dormir no caminhão baú fechado e levamos todos os apetrechos para passarmos a noite com conforto.
Saímos de Canoas às 06:30h, para chegarmos bem cedo e nos prepararmos para a prova com tranqüilidade. Chegamos a Taquara e começamos a nos preparar para a largada.
Encontramos muitos amigos de outras provas. O pessoal de Santa Cruz do Sul compareceu em peso.Tinha a galera de Caxias, o Álvaro de Sapiranga e tantos outros amigos que fiz nestes anos.
Na medida em que os pilotos largam, cresce a expectativa e finalmente larguei ás 10:26h com o numero 182, ficando apenas seis pilotos depois de mim, que iriam formar uma turma unida até o final.
Fui navegando com calma e zerei o primeiro PC. Na seqüência, após o asfalto, tinha uma subida de pedras e como eu estava um pouco atrasado, fui com muita sede ao pote e levei o primeiro pialo da prova. Este tombo serviu de alerta para que eu tomasse a decisão de, nas trilhas mais difíceis adotar a política do devagar e sempre para evitar um acidente maior e maiores atrasos.
Esta decisão se revelou sábia, pois eu atrasava nos trechos difíceis e tirava o atraso no estradão e nos neutrinhos.
Eu e o piloto 181, Maurício Schimitz, vínhamos o tempo todo passando um pelo outro. Piloto mais veloz e hábil que eu, errava na navegação e eu passava por ele. Em seguida, ele passava por mim e assumia o seu lugar na prova. Isto foi uma constante durante os dois dias de prova.
Numa destas trilhas na parte da manhã de sábado tinha uma subida longa, com muitas pedras soltas e barro (afinal já passaram 181 motos na minha frente). Segui no devagar e sempre para não errar e após contornar uma árvore caída, encontrei o piloto 177, Álvaro Pereira, parado na subida. Tentei passar pelo lado e tranquei nas pedras. Foi quando ele me disse que estava machucado e pediu ajuda. Consegui livrar a moto das pedras e subi na trilha até achar um local seguro para encostar a moto e retornei para ajudá-lo. A coisa era mais séria que eu pensava.
Vindo em velocidade para subir a trilha, ele bateu com o peito em um dos galhos da árvore caída, rachando o colete ao meio e machucando seriamente o peito a ponto de não poder fazer força e com dificuldades de respirar.
Temi por uma costela quebrada ou algum dano interno, já que ele sentia muita dor. Decidi levá-lo para um hospital e o ele ficou preocupado de eu perder a prova. Nestes momentos, o verdadeiro espírito do trilheiro mostra que não importa quão importante seja a prova ou qual lugar você está, é necessário prestar socorro a qualquer um que esteja ferido, ainda mais sendo uma amigo, parceiro de outras provas.
Manobrei a moto dele para descer e ele foi descendo devagar comigo logo atrás até o estradão. Paramos em uma casa para saber onde estávamos e perguntar pelo hospital mais próximo. Disseram-nos que ficava em Rolante, 12 km pela estrada. Fomos devagar, pois o Álvaro pilotava com dificuldade e chegamos ao hospital. Ajudei-o a tirar a roupa da trilha e entramos na sala de emergência do hospital.
Fica aqui um elogio para o pessoal do hospital de Rolante. Quando falei que tinha um piloto ferido, prontamente nos atenderam, colocando o Álvaro numa maca e chamando o médico de plantão. Após guardar seu material e certificar-me que ele estava encaminhado, ele pediu para avisar o seu apoio no neutro para que ele tomasse as providências.
Como sabia onde ficava o neutro em Riozinho, fui direto para lá e encontrei o apoio que imediatamente foi até o hospital. No dia seguinte, encontramos com o Álvaro no almoço de entrega dos prêmios. Felizmente tudo não passou de um susto, e ele me disse que só doía quando ria.
Quanto a mim, acabei perdendo cinco PCs no trecho da manhã, mas fiquei com a tranqüilidade do dever cumprido e motivado para continuar a prova. Após um curto descanso para comer e abastecer, segui para a segunda parte da prova.
Navegando com tranqüilidade e sem perder PC, cheguei ao final da prova no Parque de Eventos onde um atoleiro nos esperava. Quando cheguei tinha piloto espalhado para todos os lados e uma fila para entrar no atoleiro. Depois de passar mais de 150 motos, não tinha lugar firme onde pudesse passar sem atolar. Tentei contornar por fora mas também fiquei atolado, Ajudei um piloto a tirar a moto do barro e voltei para pegar a bigorna, digo, a Tornado. Foi nesta hora que a canga que eu havia bolado provou que funcionava. Engatei o gancho na lateral da moto e com o corpo fazendo força para puxar a moto, tal qual um boi atrelado a um carro, fui acelerando e puxando ao mesmo tempo, até conseguir sair do atoleiro. Perdi dez minutos neste atoleiro e felizmente o PC após foi anulado devido ás dificuldades da maioria dos pilotos.
Ainda para nossa surpresa, algumas motos tiveram problemas com a Polícia Rodoviária, e ficamos esperando até o impasse se resolver. Voltei para Taquara no caminhão para não ter problemas, e durante o retorno caiu uma chuva forte nos indicando que o dia seguinte seria muito pior com as trilhas molhadas.
Lava-mos e revisamos a moto e fomos dormir na casa da Tia Alvina, de Taquara, desistindo de vez de dormir no caminhão. Fomos bem recebidos pela Tia, que nos preparou uma cama quentinha e após um bom banho fomos dormir para a etapa do dia seguinte.
Domingo, dia 14. Levantamos bem cedo, tomamos café com a Tia Alvina, nos despedimos e fomos para o posto Megapetro.
Preparamos-nos rapidamente, e a expectativa da largada era grande, pois não sabíamos o estado das trilhas. Desta vez o grupo era maior, pois alguns pilotos encararam somente o domingo na Copa Novos Talentos.
Fiz o trecho inicial, desta vez sem cair e fomos em direção a Três Coroas. Até o primeiro neutro, não houve surpresas, pois rodamos mais no estradão. Após o neutro, a cobra começou a fumar.
Imaginem vocês uma trilha molhada, lisa, cheia de pedras, onde os máster, sênior, over e júnior passaram usinando duas vezes e depois toda a galera da novatos e estreantes (não esqueçam que meu número era o 182). Entrei na trilha na base do devagar e sempre, encontrando várias motos paradas, atoladas, sem tração alguma tentando sair do lugar, passei por elas e fui embora. Fiz a curva no trecho final, próximo do PC e dei de cara com duas motos atravessadas, tentando sair do lugar. Buzinei para avisar que estava chegando e passei pelo lado usando a tração 4 x 3 ( roda traseira patinando e duas pernas ajudando) e passei bonito pelo PC. Quando cheguei no final da trilha, tinha um neutrinho para compensar o atraso de quem ficou para trás. Como estava adiantado, tirei o capacete e berrava feito doido, tal era a adrenalina por ter passado esta trilha difícil sem maiores problemas. O melhor de tudo foi ver as fotos do Inema, onde o Hélio Guedes pegou toda esta seqüência de fotos na subida mostrando em detalhes o meu esforço. VALEU HÉLIO.
Num trecho antes do neutrão, descemos uma pirambeira lisa, passamos pelo riacho e subimos uma trilha igualmente lisa. No final tínhamos que subir o barranco e seguir junto da cerca. Tinha uma fila de umas dez motos esperando a vez de subir, pois estava liso como sabão. Passei pelo lado no embalo e tentei subir por uma cava, ficando trancado. Tirei a moto do buraco para tentar subir pelo lado liso. Para minha surpresa, cada vez que eu acelerava, a tornado apagava, com sintomas de carburador entupido. Fiquei desesperado, pois a moto não tinha força para subir a rampa lisa.
Neste momento, resolvi apelar para o guincho de emergência, alinhando pela esquerda para não atrapalhar quem vinha subindo, no ponto mais inclinado do barranco. O piloto 166 Alex Nataniel dos Santos, deu uma grande ajuda para a galera que estava subindo e veio me ajudar. Deitei a moto de lado, deixando a roda livre, e para a surpresa de todos em volta, comecei a puxar o cabo de aço da roda, levando uns dez metros barranco acima e amarrando em uma árvore.
Desci rapidamente e ajudado pelo Alex, levantei a moto. Como ela estava afogada, o motor respondeu melhor e a roda começou a patinar, enrolando o cabo de aço no carretel e subindo pelo lado mais difícil do barranco, na frente de uma galera atônita com o guincho. O cabo de aço rompeu, e enrolou na roda de qualquer jeito, porém a moto já estava lá em cima em um local fácil de arrancar.
Como já estava atrasado, fiquei para trás para ajudar o restante do pessoal que subia, pois seria difícil subir sem ajuda. Para subir todas as motos, chegamos à exaustão, mas não dava tempo para descansar, pois já estávamos atrasados 25 minutos. Puxei a galera para fora da trilha com a moto falhando até chegar no estradão e acelerei forte tentando buscar o tempo perdido.
Cheguei no neutro na hora de sair, preocupando o meu apoio Márcio. Tentei comer alguma coisa, porém o esforço realizado deixou-me enjoado e literalmente no bagaço. Como tinha um trecho de deslocamento pelo asfalto, atrasei um pouco a saída para hidratar-me com um Gatorade e comi um chocolate para dar uma energia extra.
Larguei no deslocamento atrasado e acelerei fundo para buscar o atraso. A moto apagou de vez no meio do asfalto. Levei a mão na torneira da gasolina para passar para a reserva e descobri a razão de todo o meu calvário. A gasolina estava parcialmente fechada, pois devo ter batido com a perna na torneira na subida da trilha lisa e no calor da prova, não me dei conta do fato. Abri a gasolina e o motor rugiu forte como a dizer-me que estava pronto para o que desse e viesse. Acelerei no asfalto passando pelo brete do pedágio e me dirigindo para as trilhas finais.
Vinha pelo estradão e a planilha avisava que a trilha seguinte era lisa. Como já era final de prova e a maioria dos PCs ficava no final das trilhas difíceis, resolvi arriscar e acelerei o que deu no estradão para entrar adiantado quase dois minutos na tal de trilha lisa. Com efeito, a trilha era longa, lisa e perigosa. E alguns trechos, mesmo freiando na dianteira e com o motor cortado para frear a traseira, a moto deslizava morro abaixo, obrigando os pilotos a usar o freio de pé (duas botas cravadas no barranco) para ajudar a segurar a lindinha, tal qual Fred Flinstone no seu carro de pedra. Passei pelo PC do Dal Poss no final da trilha com 50 s de atraso, confirmando a minha intuição.
Passando 50 m do PC, ocorreu o que para mim foi o pior momento da prova. A roda dianteira deslizou no barro e quando fui colocar o pé no chão para apoiar, só encontrei o vazio de uma cava, caindo deitado dentro com a moto por cima. Com a batida contra a lateral da cava desloquei o ombro esquerdo, ficando completamente inerte embaixo da moto. No desespero do momento, gritei por socorro e o Dal Poss prontamente desceu correndo do PC para ajudar-me, tirando a moto de cima de mim e largando no meio da trilha. Após certificar-se que o meu problema era "apenas" um ombro deslocado, voltou correndo para o PC pois vinha descendo mais pilotos.
Fiquei no meio da trilha com o ombro doendo até que chegaram os pilotos que vinham descendo. Exatamente com tinha feito no dia anterior parando para ajudar um amigo, agora foi a minha vez de ser ajudado pelo pessoal que vinha descendo. Solicitei ajuda e o piloto (infelizmente não recordo o número) assustado com o meu problema ajudou-me a colocar o ombro no lugar no meio da trilha.
Como já tinha experiência de ombro deslocado, pois desloquei o ombro direito várias vezes, foi relativamente fácil colocar o ombro de volta no lugar. Quando o ombro sai fora do encaixe, dói muito. Para colocar de volta para o lugar, dói mais ainda, mas quando se encaixa, é um grande alívio. O coitado do parceiro assustado perguntou-me, quantas vezes eu já tinha colocado o ombro no lugar, ao que eu respondi com bom humor que o esquerdo era a primeira vez, mas o direito eu já tinha perdido as contas.
Ele também levantou a moto para mim e deixou mais abaixo na trilha num lugar mais acessível. Fico eternamente grato a estes parceiros, que não se importaram de se atrasar na prova para prestar assistência a um piloto ferido.
Mas não dá nada calcinha floreada, que um ombro dolorido não ia impedir-me de continuar na prova. Fui até o final da mesma completando as trilhas que faltavam.
No final, para minha surpresa, fiquei em 6º lugar na categoria, levando para casa um belo troféu, que terá um lugar de destaque na minha estante, pois foi fruto de uma prova, para mim extremamente difícil, onde coloquei a prova os meus limites, tanto técnicos, como físicos.
Fica aqui o meu agradecimento ao amigo Lazaretti e toda a organização pela excelente prova realizada. Ao Hélio Guedes pela fotos tiradas. A todos os pilotos que de uma forma ou de outra me ajudaram a continuar na prova e em especial ao Dal Poss e ao pessoal que me ajudaram quando tirei o ombro do lugar, pois mostraram que este é o verdadeiro espírito do enduro, deixando de lado o próprio interesse em benefício de outro.
Já estou bem do ombro e pronto para encarar um novo desafio, apesar de continuar mentindo para mim que vou parar de competir.
A todos um grande abraço e até a próxima.
Fonte:
Ronésio da Silva Cascaes Cidade:
Taquara-RS-Brasil Fotos: Márcio Aurélio Cascaes Publicado: Daniela Silveira Farias Date: 11/05/2007
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