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Atravessando fronteiras de moto- parte VI

Entre os dias 24 de fevereiro e 17 de março de 2007, Gilmar Calais Assafrão e sua esposa, Simone, realizaram mais uma viagem de moto. Dessa vez incluíram o Uruguai e a Argentina no roteiro. Confira como foi essa inesquecível aventura! Parte VI.

06/03/2007 (Terça) - Eu e João passamos toda a manhã no centro de Rio Grande na frustrada tentativa de conseguir tirar a Carta Verde (Seguro internacional de veículos automotores contra terceiros). Porém, em todas as corretoras e bancos que tentamos conseguir o documento, a resposta era sempre a mesma - "Estamos proibidos de fazer a Carta Verde para motos".

Segundo um corretor de seguros de Rio Grande, que demonstrou toda a boa vontade para conosco, mais também nada pôde fazer para nos ajudar, na reunião entre os presidentes do Mercosul em Ouro Preto/MG, em que foram definidas as diretrizes para o trânsito de veículos entre estes países membros, ficou decidido que a Carta Verde seria de porte obrigatório somente para carros, caminhões e ônibus, excluindo-se as motos desta obrigatoriedade. Porém, alguns países ainda exigem a Carta Verde. Resta para nós motociclistas fazer o seguinte:

1 - Não fazer a Carta Verde e tentar explicar para o policial, caso ele peça este documento (muito provavelmente ele pedirá), que a Carta Verde não é obrigatória para motos, assim como, o extintor de incêndio e o triângulo.

2 - Fazer a Carta Verde específica para motos, que é caríssima e pouquissímas seguradoras tem interesse em fazer.

3 - Procurar um despachante na fronteira, negociar com ele, comprar e preencher o formulário da Carta Verde com os dados da moto. Neste caso, você terá o papel físico para mostrar para a polícia, em caso da exigência. Mais em caso de um acidente, você não contará com qualquer tipo de cobertura (optamos por esta alternativa e conseguimos o papel no Chuí em menos de dez minutos).

Depois de decidirmos pela última alternativa acima com relação à Carta Verde, almoçamos mais uma vez com nossos amigos João, Manja e Lili, e após tivemos uma difícil despedida, onde as lágrimas foram inevitáveis. Pegamos a estrada novamente por volta das 13h em direção ao Uruguai. Logo na saída de Rio Grande, em um posto onde paramos para abastecer, encontramos um grupo de Mineiros que estavam vindo de Ushuaia com vistosas BMW's e V'Strom's . Tentei puxar conversa com eles, interessado na viagem ao "Fim do Mundo" (um velho sonho meu), e também a fim de saber deles a impressão que tiveram do Uruguai. Porém, a reciprocidade não foi homogênea, e somente um deles, se mostrou interessado em ajudar-me com algumas dicas. Então, saímos logo em direção ao Chuí, por uma reta de 200 kms que separam Rio Grande desta cidade. Lá chegando, abastecemos pela última vez no Brasil. Uma quadra após o posto, uma árvore com um canteiro verde e amarelo de um lado e azul e branco do outro, demarca a fronteira internacional entre o Brasil e o Uruguai.

Troquei no lado Uruguaio reis por pesos Uruguaios , achei interessante o tamanho das cédulas, bem maiores que as brasileiras, e o valor nominal (R$ 750,00 foram trocados por 7.950 pesos Uruguaios). Na Aduana Uruguaia, situada 3 km após o centro do Chui, os trâmites foram rápidos e fáceis. Foram exigidos somente a cédula de identidade Brasileira (expedida pela secretaria de segurança pública dos estados), e os documentos da moto em meu nome. Nenhuma taxa nos foi cobrada e todos os funcionários foram simpáticos e solícitos.

Estávamos agora na Ruta 09, com pista de mão dupla e asfalto impecável. Depois de cerca de 10 km rodados, esta mesma pista fica mais larga em um ponto, que é usado também para pouso de aviões. Visitamos o Forte de Santa Teresa, situado entre a Ruta 09 e o mar, dentro de um Parque Florestal, em uma imensa área verde, com toda a infra-estrutura para a prática do camping, onde encontramos diversas famílias acampadas. Vale ressaltar a limpeza do local e a cordialidade dos militares, que tomam conta do parque. Voltamos à estrada, e ficamos felizes no primeiro pedágio, ao sabermos que motos não pagam pedágio no Uruguai.

No final da tarde, chegamos à cidade de Rocha, onde ficamos no único hotel da cidade com cocheira (garagem). Infelizmente, neste hotel só havia um minúsculo quarto disponível, mais sem alternativa, resolvemos dormir ali mesmo. Jantamos no próprio hotel, e tivemos o primeiro contato com a culinária Uruguaia, a base de carne (com muita gordura), pão e batata. Brindamos também nossa primeira noite fora do Brasil, com uma deliciosa cerveja de um litro Patrícia. Durante um breve passeio pelos arredores do hotel, antes do jantar, observei o grande número de carros antigos existentes na cidade, fabricados nas décadas de 60 e 70, em contraste com reluzentes pick-up's Toyota. Ao comentar este fato com o simpático dono do hotel, Sr. Richard, que nos servia ao mesmo tempo em que conversarmos sobre as particularidades do Brasil e do Uruguai, o mesmo falou-me ser esta era uma característica cultural da região. Na verdade, vimos esta particularidade com relação aos carros em todo o Uruguai. Porém, não vimos favelas, mendigos, ou algum outro sinal de violência, ou de grande desigualdade social também.

07/03/2007 (Quarta) - Acordamos cedo para darmos uma pequena volta pelo centro de Rocha. No dia anterior nem havíamos notado a bonita praça arborizada em frente ao hotel. As adolescentes com suas saias xadrez seguindo para a escola, e as roupas das pessoas de forma geral, dão a impressão de sociedade conservadora ao povo Uruguaio. Nas lojas, motos a venda nas vitrines junto de todo tipo de eletrodomésticos. No Uruguai, as motos, ao contrário dos carros, são em geral novas e de baixa cilindrada (no máximo 125), das mais variadas marcas e modelos, quase sempre "made in China". Em todos os 1.200 km rodados dentro do Uruguai, a única moto de grande cilindrada que vimos, foi uma V-max, perto de Punta Del Este. Daí, em nossas paradas nos postos para abastecimentos, a XT 600 chamava muito a atenção, e sempre alguém vinha puxar conversa, de forma simpática, sobre o consumo, cilindrada, velocidade média, etc.

Depois deste pequeno passeio matinal, tomamos o fraco desayuno (café da manhã) Uruguaio no hotel, que nem de longe lembrou os fartos cafés da manhã dos hotéis Brasileiros, com frutas, sucos, bolos, pães, etc.

Abastecemos a moto pela primeira vez com a boa gasolina Uruguaia, em um posto Texaco ainda dentro de Rocha. A gasolina (sem álcool), custou o equivalente a R$ 2,74 o litro. Apesar do meu receio da XT 600, acostumada a nossa gasolina, não funcionar bem com gasolina pura, não tivemos nenhum problema neste sentido, e a performance e consumo não se alteraram. Continuamos na Ruta 09, com belas paisagens, entre pequenas vilas e fazendas.

A polícia camineira, apesar de bastante presente na estrada, não nos parou em nenhuma ocasião, e até nos acenou amigavelmente em uma das várias passagens pelos postos de fiscalização. Entramos por uma estrada a beira mar antes da cidade de Maldonado que nos levou a Punta Del Leste. Punta surpreendeu-nos com toda sua riqueza e ostentação. Vários hotéis de luxo, casas cinematográficas, carrões de luxo, iates não menos luxuosos e transatlânticos recheados de turistas. Como nosso perfil $, não era muito adequado ao local, e aqui no Rio de Janeiro também temos praias maravilhosas. Tiramos somente algumas fotos, além de um breve passeio pela cidade, e seguimos em direção Montevidéu, agora em uma estrada ainda melhor e de pista dupla.

Chegamos a capital uruguaia por uma avenida larga, em um bairro com diversas mansões (todas sem muros). Também não vimos favelas e pedintes nos sinais de trânsito. Mais como nada é perfeito, o trânsito da capital é complicado, e a sinalização quase inexistente. Por conta disto, tivemos dificuldades de encontrar a saída para Colônia Del Sacramento, no outro extremo da cidade. Nesta hora, pedimos ajuda a um motorista, que prontamente nos ajudou, inclusive nos guiando até bem próximo à saída da cidade.

Depois de cerca de 600 km rodados neste dia, chegamos no começo da noite em Colônia Del Sacramento. Depois de uma rápida pesquisa de preços, resolvemos ficar no hotel Riviera, onde fomos atendidos pelo simpático Sr. Juan Carlos, que mesmo não tendo "cocheira" no hotel, nos conseguiu um lugar seguro para guardamos a moto em uma espécie de depósito pertencente ao hotel.

À noite, fomos até a estação do Buque Bus, situada a duas quadras do hotel, para comprarmos passagens para Buenos Aires para dia seguinte. O Buque Bus é um barco de passageiros, muito luxuoso, com free shopping, restaurante, lanchonete, etc, que faz a travessia de Colônia Del Sacramento para Buenos Aires, em cerca de uma hora pelo Rio da Plata. Com as passagens na mão, fomos a um restaurante, indicado pelo Sr. Juan Carlos, onde comemos um prato típico do Uruguai, chamado chivitos, que é uma espécie de super sanduíche Bauru, acompanhado de uma deliciosa cerveja Pilsen de um litro.

Fonte: Gilmar Calais Assafrão
Cidade: Duque de Caxias-RJ-Brasil
Fotos: Gilmar Calais Assafrão
Publicado: Daniela Silveira Farias
Date: 21/05/2007 <%insert_data_here%>

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  Evento 5374 - Atravessando fronteiras de moto

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