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Nei Maldaner na Expedição Circunavegação Antarctica 2006 relata o dia 20 de novembro de 2006. Cruzando o continente Antártico, a bordo do quebra gelo Kapitan Khlebnikov. Relato sobre a chegada a Horseshoe Island!
Levantei não muito cedo novamente, matei o café como sempre, curti aquele banho, o quarto era muito agradável, regulava no teto a quantidade de ar quente que deveria entrar, ficava muito bom. Como só estava eu no quarto não tinha que regular para os outros.
Do lado de fora, os helicópteros já faziam barulho, sinal que tinha movimento para a terra. Verifiquei e vi que estava tudo um gelo só, a única parte aberta era a parte de trás, um rastro.
Agasalhei-me bem e fui verificar dos decks superiores a movimentação dos helicópteros, pois os dois já estavam em movimento. Saiam do navio e contornavam as montanhas, fazendo um círculo. Pelo lado traseiro do barco, enquanto vinha outro e pousava. Estávamos em uma baia, rodeados de montanhas.
Eu não estava nos primeiros grupos de ir para a ilha. Na parte de baixo vi uma fila pequena e o Bob, um dos "staffs" gerenciando o fluxo de pessoas. Era um dos barbudos da expedição, segundo o pessoal era quem mais entendia da Antártida.
Curti muito a movimentação dos helicópteros, eram os primeiros vôos que daríamos ali na Antártida, devo ter visto uns 10 vôos. Depois disso voltei a minha cabine e coloquei os salva-vidas que era obrigatório, peguei a mochila de equipamentos e fui para o deck quatro, onde o pessoal estava embarcando.
Já era quase minha vez de ir. Estavam ali, além de outras pessoas, o casal do Quênia, África, John e sua esposa. Em três vôos chegou a minha vez, meio tonto com o momento segui em direção do helicóptero tirando fotos. Fui para a parte traseira onde caberiam quatro pessoas, três de costas para o piloto e mais uma de frente bem no fundo, onde eu fui. Ajeitada a mochila entre as pernas, coloquei os fones contra barulho, o cinto e a máquina fotográfica na mão.
A decolagem tirou nossa gravidade, emocionante, vejo o barco a nossa direita, rodeado de gelo. O helicóptero saiu levantando vôo pela direta, e foi girando sobre a baía. Tivemos condições de ver toda frente do barco, com tudo congelado e o rastro atrás, um gelo liso e fino pelo que dava para ver. Além do piloto, uma pessoa ao lado do piloto, três pessoas atrás olhando para frente e na parte de trás sentaram duas e mais eu na ponta do helicóptero.
Fiz várias fotos do navio, podia-se ver também um buraco grande sem gelo, deveria ser a entrada da baía. Pedi para um casal tirar uma foto minha afinal, o primeiro vôo de helicóptero na Antártida. Foi rápido e tirei umas deles, já se podia vê-lo sobrevoando as montanhas do lado oposto. Abaixo vi algumas pessoas se movimentando sobre as montanhas com pouca neve. Vi um casarão com um T e uma pequena casinha ao lado, era para lá que iríamos. O pouso estava em ângulo suave, tipo um avião, o que nos deu tempo de observar o local. Ao redor da casa, que era um abrigo era possível ver muita gente, muitos caixotes e também uma bandeira inglesa.
Quando pousamos, vieram duas pessoas do "staff" abrir as portas. Mandavam andar de cabeça baixa, até chegar a que dariam instruções de terra. Seguimos então até o ponto e ficamos aguardando o grupo todo se reunir.
Assim que desembarquei, vi ao longe, no meio daquela baía gelada o nosso navio. No chão a neve rareava, por isso apareciam rochas. Olhei para trás e vi gente descendo ainda do helicóptero, então fui até a "staff" que aguardava o grupo chegar. Os "staffs" distinguiam-se por usarem coletes verdes claro, com fitas chamativas. Quando os três "staffs" trouxeram as pessoas, o grupo foi levado para longe do helicóptero, aguardamos ele levantar vôo e voltar para o navio para pegar mais passageiros.
Os três "staffs" nos reuniram então e um deles deu as instruções do local, explicou que teria o "Norm" para falar de geologia, outro dentro da estação que era a casa que tínhamos visto e outros sobre a montanha, para falar da região.
O nosso limite para ficar em terra seria até ao meio-dia. Mostraram onde seria o ponto de encontro em caso de emergência, caso o tempo mudasse. Estava sinalizado com bandeirolas vermelhas onde deveríamos deixar o salvas vidas que estávamos usando.
Olhamos em volta e vi o lugar, vi também que estava cheio de caixas e sacos de barracas para montar o acampamento de emergência que sempre montam quando vão a terra. Avistei uma sueca e uma americana logo em frente, filmando a chegada do helicóptero, olhei para lá e vi que estava chegando outro helicóptero. Então fiz umas fotos e dei um "close" para ver quem chegava, era o casal da África juntamente de Anelise, de Maiame.
Esperei o pessoal chegar e o helicóptero seguir. Todos aqueles momentos eram únicos para mim. Regulei a máquina para tirar umas fotos que permitiriam ver a hélice girando e pegar ainda o barco. Mas era tudo tão rápido que quando vi, todos já tinham ido para a estação.
Passei pelo kit de sobrevivência enquanto ia em direção das casas, quando percebi que estava chegando mais outro helicóptero, foi assim que tive idéia de quanto tempo tinha ficado ali. Tinha muita coisa para ver e só tínhamos umas duas horas em terra, talvez nem isso.
Voltando da estação encontrei o casal da Holanda, o qual sempre jantávamos juntos, que já estavam voltando para o navio. Junto com eles estava outro casal da Suíça.
Na frente da casa vi duas pessoas conversando, era o Norm, especialista em geologia e um australiano passageiro. Norm estava explicando dados sobre o local.
Explicou algumas coisas, mas segui para a casinha menor, que estava semi-destruída. Era um "galpãozinho", onde se criava animais e estava cheio de materiais. O que me impressionou de cara foram os skis para levar coisas, eles eram feito de madeira e amarrados na ponta para dar a curvatura.
Ali junto tinha alguns bujões, canos e outras coisas abandonadas. Era um deposito de coisas velhas, caixas abertas cheio de fios de luz ou de telefone, rolos enormes.
Fui olhar as caixas que estavam nos arredores. Era possível ver lâminas de alumínio por entre as frestas das caixas abertas em meio à neve, muito material ficavam ali fora.
Em todas elas estava marcado o nome do lugar, Hoseshoe Island e um RJ em azul. Em outras caixas continham anéis de ferro do tamanho de uma mão. Depois desta conferida, fui para a casa, a Estação Horseshoe.
Na porta estava outro "staff" orientando os procedimentos da casa e dando informações complementares sobre a estação Horseshoe.
Limpou nossos pés para tirar a sujeira e a neve com um escovão. Dentro da casa tinha um fogão de aquecimento e ao seu lado era cheio de caixas, ao redor entravam e saiam canos, que deveriam ser para banho ou aquecimento da casa. Na chaminé tinha uma proteção, que deve ser para evitar esquentar aquelas paredes secas. Naquela sala era cheio de caixas com todos os tipos de mantimentos, junto aos outros lados da parece cheio de camas embutidas na parede, beliches de dois andares e entre eles, na parede uma mesa e cadeira também embutidos.
Fui para outra sala que era confortável, com uma biblioteca, uma cama de um lado e dois beliches de outro, três cadeiras, outro fogão, mas na parte de cima tinha uma tela que deveria ser para aquecer o local e também para ferver algo. Este era protegido por cimento e rocha em redor. Uma foto grande ilustrava e lembrava provavelmente as terras quentes da Inglaterra. Na mesa ao lado estava cheio de instruções, tipo passo a passo, para usar rádio e outros equipamentos que estavam presos à parede, bem funcional.
Nas cabeceiras de cada cama sempre tinha uma pequena prateleira onde ficavam os livros, provavelmente os que cada um estava lendo.
ZHF 55 (ou SS) Base Y Horseshoe Island, era a informação ao lado do passo a passo do radio. Outras duas fotos ilustravam o local, deveria ser a rainha e o rei, então fomos ver os armários.
Tinha de tudo ali, cheio de opções, a maioria enlatados e a cozinha era bem organizada, com lugares para tudo.
Na sala de rádio, tinha rádios do tamanho até de uma pessoa, inclusive com disjuntores manuais, chaves de teste com lâmpada.
Para o corredor entre as dependências tinha um extintor e também uma máscara de ar, tipo as que os bombeiros usam. Imaginei que são para usar em ações em caso de incêndio, pois isso deve ser a principal preocupação, se pega fogo não tem onde ficar. Lá os extintores estão sempre à mão.
No corredor ainda tinha uma série de armários com jornais como Newsweek, Observer, Times, etc.
Na cozinha tinha um bloco grande que era a água aquecida, ao lado do fogão de cinco portas, sobre o fogão tinha uma torradeira embutida, ao lado vi um fogareiro a querosene.
Fui ao banheiro, mas não entendi muito bem como utilizavam, mas na parede tinha uma foto de uma destas mulheres lindas, bem sensuais.
Ao lado do banheiro, cruzando o corredor estava a sala de manutenção, com escadas, ferramentas, latas, tintas, etc.
Voltei à cozinha, revendo novamente tudo. Por mim poderia ficar ali uns dias só para aprender e sentir o que as pessoas viviam naquele lugar, talvez até um inverno todo.
Fui de dependência em dependência olhando e verificando novamente, estava me sentindo quase flutuando por estar ali. Procurava entender cada uma daquelas latas, o que continha, até mesmo por que muitas coisas não são de nossa cultura.
Fui ainda ver do outro lado da entrada uma área de trabalho manual, tipo marcenaria, onde estava cheio de raquetes de neve e rodas de bicicletas, que não deve ser para andar e sim para usar como medidor de deslocamento dos trenós.
Saí relutantemente, pois tinha outras coisas para ver e eu acho que já tinha ficado mais de uma hora ali dentro.
Do lado de fora olhei a casa por vários ângulos, era realmente grande, era possível viver muitas pessoas ali, com conforto, claro! Ao lado da estrada, onde a bandeira estava fincada, a neve tomava conta de metade da parede. Tinha uma parte da casa onde o pé formava um "T", o qual era um depósito, mas acabamos não entrando. Fui conferir da janela e vi que lá dentro estava cheio de neve, pelas janelas podiam-se ver vidros quebrados e por isso a neve entrava, estava muito abandonada àquela parte da casa.
Fiquei fascinado pelo lugar, não tinha a beleza que já tinha visto nos outros, mas o fato de se ter tempo de ver os detalhes a substituía. Mesmo na viagem de 2004, não tinha ficado tão impressionado assim quando visitei as casas.
As pessoas que tinham chegado comigo já estavam voltando da montanha, enquanto eu nem tinha ido. Notei também que tinha poucas pessoas ainda andando por lá.
Segui então para cima de um dos rochedos. Lá tinha uma antena de rádio, provavelmente dava para ver o nosso navio e a enseada. De cima vi a estação, agora menor, e os helicópteros pousando e decolando, levando as pessoas.
Acompanhei o fluxo deles até pousarem no navio e voltarem, depois prestei a atenção naquelas rochas, algumas tinham uma tintura verde, que deveria ser algum mineral. Avistei a bióloga Delfine, na borda do penhasco, e pude observar também um monte de mariscos e conchas surgindo por baixo da neve. Apareciam também uns fungos amarelados, coisa que não era comum, mas deve ser em função do verão. Quando Delfine se aproximou, me mostrou um gelo em forma de mão e ficou ali brincando com ele. Tirei algumas dúvidas sobre as algas que tinha visto e sobre as rochas com ela.
A única japonesa do navio apareceu já voltando para o helicóptero. Percebi que subir na montanha mais alta não daria mais, então fui descendo junto com elas em direção a estação. Sobravam poucas pessoas por lá.
Apressei o passo para ficar junto aos demais e vi que meu grupo seria o ultimo antes dos "staffs".
Quando voltei para o navio estava em alfa, foi ótimo principalmente ver a vida que as pessoas levavam, além de ter voado de helicóptero, mas o local tirou a magia de voar de helicóptero.
Voltei para a minha cabine, deixei as coisas e fui almoçar. Muita gente já tinha almoçado, normalmente nos almoços eu me sentava em qualquer lugar. Fui então para o salão da direita, onde almoçava eventualmente, para conhecer pessoas diferentes.
Depois do almoço o barco continuava parado no local. Fui para a cabine copiei as fotos e à tarde deveria ter outro "land".
Fonte:
Nei Eugenio Maldaner Cidade:
Antártica-EX-Antartica Fotos: Nei Eugenio Maldaner Publicado: Debora Americo da Silva Date: 06/08/2007
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