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De Vela Rio grande a Quintão 2007 - Parte 1

Iniciou dia 02 de setembro de 2007, a aventura de André Issi, Rio grande a Quintão. Confira como foi a primeira parte desta aventura.

Amigos...Como diz meu irmão o Paulo, "exercitei a tolerância" contra esse corno de vento até onde pude, mas o chifrudo descobriu que comecei a voltar e soprou do norte por mais de dez dias.

Tive crises histéricas galopantes até minhas forças se esvaírem e me acalmar. Fiquei mais de três dias com fortes dores no ombro esquerdo por causa de um tombo antes de chegar em Rio Grande. Azar da dor, pois agora vou até o fim. Certamente algo ruim aconteceu, mas agora é que não vou parar.

Cerrações intensas, tempestades, travessias de riachos obrigaram a desmontar as bagagens e atravessar diversas vezes a barra de um rio. Outro tive que atravessar a nado e buscar alguém para conseguir um caíque. Afora tempestades e muita sugeira o pelotão terminou uma etapa dificílima e chegou a Quintão. Dos 1630 km previstos, 1300 km já se foram. Pensei que seria um passeio, mas me enganei duplamente, tanto na ida quanto na volta. Estou louco para acabar com isto, mas agora que me lambuzei vou lamber o prato.

Aí vai a parte desde Rio Grande até Quintão, espero que gostem.

Dia 02 de setembro de 2007 - Rio Grande

Como fiquei transcrevendo o diário até às 6 h da manhã, acordei só às 10:30 e um amigo do Henri ligou dizendo que viria assar umas cavalinhas que ganhou. Paulo e Marília são muito simpáticos e o peixe assado ficou delicioso. Pelas 17 h vamos ao Grupamento para eu seguir minha viagem. Fiquei lisonjeado com o desejo de D. Gesine querer ir junto, pois já estava meio frio e uma cerração ia tomando forma.

Retiro o carro do Grupamento Naval do Sul e vamos até a casa do Sr Sadi, amigo do Lúcio. O problema é que a cerração ficou forte e ele achou melhor deixar para o dia seguinte. Deixamos o carro na casa dele ali perto do canal e retornamos a casa do Henri.

Dia 03 de setembro de 2007 - Segunda

Cedo o Henri me leva e ajuda a embarcar o Imortal no "Cigano do amor", barco do sr Sadi. Que grande amigo que é o Henri, espero ter a oportunidade de um dia retribuir um pouco do muito que ele e sua família fizeram por mim. Obrigado amigos.

No meio do caminho cruzamos com o barco de meu amigo Chico Preto, ele estava levando muitas pessoas em seu barco para Rio Grande e acena enquanto eu tiro uma foto. Desembarcamos no multicolorido trapiche da vila Quinta seção da Barra e ali fico conhecendo o seu Lírio que me convida a tomar um café na sua casa.

Encontro dona Ana, esposa de seu Chico e não sabe quando ele volta. Tomo o café e resolvo seguir para os molhes, que pessoa gentil foi seu Lírio. Tchê, se na vinda a praia estava repleta de peixes-porcos e papaterras (jogados fora por um barco pesqueiro porque não tinham tamanho comercial), agora estava pior, pois a praia estava tomada de bagres de todos os tamanhos.

Pior, eles têm esporões que ficam abertos e funcionam como "miguelitos", triângulos de pregos que são jogados nas estradas para furar pneus, seja para assaltos, seja pela polícia para deter suspeitos. É impressionante, não há a mínima possibilidade de velejar nesse campo minado e sou obrigado a passar puxando e cuidar para nem eu ou o Imortal sermos furados por tão inusitada experiência.

Puxo por mais de duas horas e o nº parece diminuir. Então resolvo velejar contra o vento, subindo e descendo a praia numa orça perigosa entre os bichos. O resultado é que furaram os pneus por três vezes em menos de 40 km e antes, em mais de 1060 km apenas havia furado duas vezes, uma delas justo neste trecho. É que os pescadores antes de entrar na barra da lagoa se desfazem dos peixes não comerciais ou protegidos pelo defenso, como o bagre nesta época.

Tiro fotos ao lado de um pesqueiro naufragado. O pior de tudo é que entrou uma forte cerração perto de 17 h e fiquei completamente perdido, pois sequer as dunas eu enxergava. Ainda por cima tive que desmontar a vela e seguir puxando, pois se fura mais um pneu eu não tenho estepe e se fura o carro não sai de onde está.

Pelo GPS sabia que estava perto de um povoado, mas onde? Te vira cara, dá um jeito! Vi uma coisa na escuridão, eram traves de um campo de futebol. Subo mais e vejo outro vulto mais para cima. É uma casinha sem teto, mas as paredes vão me proteger do vento pelo menos. Armo o sarcófago ali no meio no escuro mesmo.

Mesmo no sufoco escuto trovoadas, só faltava...Desaba violento temporal com raios, trovoadas e todo o resto do show de horror. Abrigado do pior do vento, o soldado sarcófago defendeu muito bem o pelotão e ganhou o respeito de todos. Êta baixinho macanudo, tchê!

Pior que a tempestade foi a dor forte no ombro esquerdo com pontadas agudas até que achei uma posição dobrada, como se o braço estivesse numa tipóia. Certamente foi aquele tombo antes de chegar em Rio Grande, quando estava andando de "patinete" e caí forte sobre o ombro. Estranho que só foi doer agora. Bueno, cerca de 41 a 48 km se foram.

Dia 04 de setembro de 2007 - Terça

Agora que se foi a cerração foi que descobri que estou há menos de 1 km do farol-torre do Estreito. Como sopra nordeste de novo, resolvi antes consertar as câmaras furadas, pois borracheiro agora... sólo yo!

Fiz uma linha de montagem e conserto dentro do que sobrou da casinha. Acabo partindo só depois das 11 h. Logo depois de passar pelo farol vejo uma casinha familiar: uma casa onde meus hermanos de Rosário foram alojados por um pescador humilde que deu o que tinha e o que não tinha de mantimentos para hospedar tão ilustres hóspedes (afinal eles foram de caiaque desde Rosário- Argentina até o Rio de janeiro pelo mar e remando contra o nordeste).

A casinha estava abandonada, mas pelas coordenadas que Daniel Ross me deu e pela foto que vi na página deles era aquela casa mesmo. Tinha dois andares, uma escadinha por trás e as dunas ao lado. Vejo algo escrito e tenho a confirmação: Seldo 2007.Eles passaram por aqui no verão de 2004. Saio dali alegre e triste, pois meus hermanos talvez não gostem de saber que a casinha está caindo aos pedaços...

O temporal desta noite aprontou mais uma: um riacho grande que cruzei na vinda agora virou um rio forte com água acima dos joelhos. Estava fechado para carros e caminhões, mas a marcha do pelotão é inexorável. Tentei vários pontos e elegi um menos pior.

Dois caras de moto se aproximam e faço sinais para que parem. São de Minas Gerais (BH) e vêm com duas shadows lindas, não sei o que estão fazendo aqui, pois são motos estradeiras. São Sérgio e Bento e rumam para Montevidéo... Conversamos, tiramos fotos.

A moto de Sergio cai na areia e quebra a bolha do párabrisa. Eles resolvem subir seguindo a trilha dos carros dunas acima e eu começo desmontando o carrinho. Cruzo mais de sete vezes de um lado a outro carregando vela, bagageiros, carrinho e coisas. Descobri que sem nada em cima ele flutua... Remonto tudo do outro lado e descubro que o cano do bagageiro está se rompendo... Soldar onde?

A solução é seguir em frente. Encontro um bagre gigante e retiro seus esporões como recuerdo. Estou exausto de esforço da travessia, só agora vi o quanto pesam todas as traquitandas que carrego. Por isto que o vento tem de ser forte para deslocar a mim e ao carrinho.

Como o vento enfraquece sigo puxando, mas estou muito exausto do esforço da travessia. A cerração começa e resolvo parar antes ao avistar uma casa no campo ao fundo, pois não sei o que tem pela frente e é melhor me garantir pois pode vir outra tempestade.

Arrasto pelos campos e lagos e chego na casa que está fechada. Armo a barraca na face sul da casa, assisto ao por de sol e vou dormir ao som de uns pássaros de cabeça preta, peito amarelo e dorso marrom, muito lindos e que disputam as poucas acácias dali para fazer ninho e dormir.

A noite foi de trovoadas, mas choveu pouco desta vez. Andei muito pouco, pois na travessia e na casa do Seldo gastei mais de 3 h. Para conseguir dormir um pouco tomei uns remédios, pois a dor no ombro tá forte. O remédio foi bom até o efeito passar. Depois não consegui mais dormir. O estranho é que quando levanto a dor diminui muito.

Fonte: André Issi
Cidade: Quintão-RS-Brasil
Fotos: André Issi
Publicado: Debora Dias
Date: 19/09/2007 <%insert_data_here%>

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  Evento 6982 - Rio grande a Quintão 2007

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