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Aconteceu de 02 de setembro a setembro de 2007, a aventura de André Issi, Rio grande a Quintão. Confira como foi esta aventura.
Dia 17 de setembro de 2007 - Segunda
Acordo cedo e há vento, parece de leste. Vou partir, mas quando vou caminhar para tomar café percebo que se formou uma bola na parte superior do tornozelo, quase na junção com a canela. Deve ter rompido algum vaso e a dor atrapalha um monte para caminhar. Como vou puxar o carro assim?
Tenho quue deixar o bom senso prevalecer e ficar deitado toda a manhã.
De tarde venho a lan e fico respondendo os mails e recados que não pude responder antes. Agora são 21 h e espero amanhã poder continuar, agora sem as botas. Vai de chinelo mesmo!
Dia 18 de setembro de 2007 - Terça
Vou sair, mas um dos pneus está no chão...Desmonto o dito cujo e coloco outro.
- Senhor, o remédio que passamos no soldado TE (tornozelo esquerdo) diz que é para uso veterinário...
- Isso é pomada para articulação de cavalo!
- O pelotão não peleia como um animal?
- Mas senhor, o soldado TE já teve ruptura de ligamento, erisipela na peleia de bicicleta em Manaus e fratura grave quando a roda do carro o quebrou e jogou por baixo do banco. Ele é um herói de várias campanhas...
- Tá certo! Então vamos em marcha lenta, mas ele que se arrume. O pelotão não ficará esperando indefinidamente.
Chegaram as ordens do comandante maior, "o Espírito que Manda"!
- ?????
- Ele quer que a gente volte e encontre o soldado Ryan, quero dizer, o sargento Fogareiro que morreu em combate e foi deixado nas dunas próximo de Imbituba.
- Mas porque arriscar a vida de tantos homens por um só?
- O comandante viu um filme e ficou com pena da mãe do sargento fogareiro.
- Alguém sabe quem é a mãe dele?
Apesar de muito inchado, consigo caminhar mais ou menos até a ponte de Passo de Torres e retorno ao estado de Santa Catarina. Acho que no mínimo em oito dias e no máximo em 15 chego a Imbituba. Depende do vento e de nada de novo acontecer.Sigo até a barra do Mampituba e o vento está terrivelmente forte e uma verdadeira tempestade de areia corre sobre a rua. É um corno de um nordeste.
A praia é pequena, cheia de areia mole e o mar está alto. Puxar o Imortal por ali vai detonar de vez meu tornozelo. Resolvo seguir por uma estradinha paralela mais por cima, pois o vento lá não é tão intenso e o esforço será menor. Ali na barra tem um senhor que se lembra quando passei aqui com o Luigi, em Julho...
Almoço em uma padaria dali e sigo pela estradinha até Bella Torres. Ali foi o local onde terminou a viagem de caiaque ano passado. O caiaque veio por cima de mim, o leme quebrou na minha cara e a ferragem do leme cortou acima do supercílio. Cheguei a praia ensanguentado e ali conheci Borges e Rafael que fizeram o curativo. Eles são do Corpo de Bombeiros de Araranguá e os tenho como grandes amigos.
Sigo em frente e vou para a praia; ali é amplo e firme, vou seguir orçando.
Acontece que para o lado de Torres está cinza azulado e vários raios e trovões anunciam tempestade...Seguir com um mastro de 5m na praia com tempestade é risco certo!
Resolvo esperar na varanda de uma casa ali na beira. É a praia Rosa da Praia, colada a Bella Torres. A chuva chega forte. Vou ficando, ficando e o dia passa. Thor o chifrudo parece uma alegoria de carnaval com todo seu show pirotécnico. Coloco duas tábuas de obra no chão, o plástico por cima e deito. Assim dou um descanso ao TE.
Dia 19 de setembro de 2007 - Quarta
Parto às 8:40 h, choveu direto, mas agora está bom. Logo na saída a praia encontro um imenso leão marinho em decomposição. Aqui tem uns urubus diferentes dos da Guarda, esses tem cabeça com crista vermelha. Ao passar por outro leão morto, o vento surge. Vem de leste...Beleza! Mais adiante fica forte e o Imortal "voa".
Passo por uma plataforma de pesca alta o suficiente para passar sem desmontar o mastro. Passa uma hora nessa correria e vejo um morro alto à bombordo... Não pode ser, parece ser o Morro dos Conventos. Há uma moça na praia, pergunto a ela se é Morro dos Conventos mesmo. É Nina, arquiteta que mora por aqui e restaura móveis. Ela confirma e eu expludo de alegria, em uma hora fiz quase 50 km... São apenas 12 h e se chegar ao outro lado da barra e viajar com esse vento....
Queria ligar daqui e me encontrar com o Rafael dos bombeiros, mas passo de moto mais tarde, pois vento favorável é raríssimo. Desmonto tudo, lavo-me no chuveiro dali e subo a imensa ladeira que leva ao alto do Morro do Farol. Dureza! Ainda por cima vai detonando o tornozelo.
Lá em cima eu sigo pela estradinha e rumo para a balsa. Nem vou comer para não perder tempo.Se fosse para a barra direto, não haveria caíque para me cruzar (são muito pequenos). Melhor depender só de mim. Chego a balsa, ali pedestre não paga. Sigo pela lindíssima estradinha para o povoado que há na Ilha, já na foz do Rio Araranguá no mar.
É uma beleza ver o verde dos campos e da mata nativa contrastando com as dunas douradas e o morro do Farol. Show de bola. Sigo freneticamente e o tornozelo detona de vez. Incha e dói ao mesmo tempo.
Está ruim de caminhar...
- Soldado, o que está acontecendo?
- O soldado TE está revoltado e mandando mensagens ao SNC (sistema nervoso central) através de mensageiras, umas tais de Sinapses...
- E como elas fazem isto sem passar pelo comando maior antes?
- Elas atuam através de polarização e despolarização das células...
- Avise ao Dr D K Bessa para cortar essa ladainha de polarização sei lá o quê!
- Cortando o esquema das mensageiras não haverá dor.
- E o que TE pode fazer mais além de inchar?
- Ele pode explodir?
- Nunca o testamos a tal ponto senhor!
- Então vamos testá-lo! Não admitiremos motim a bordo.
E o pelotão segue em frente mesmo com um rebelado a bordo. Encontro seu Hélio, mas nem seu Sadi nem seu Alvacir estão. Só me resta seguir para a barra do rio.
Droga, pretendia comer algo no bar de seu Alvacir. O rio está alto e mal passa o Imortal, espremido entre os altos barrancos e a água verde do rio.
Um cara vem de moto, é seu Alvacir que soube que eu passara e veio de moto... Grande amigo!
O vento era forte de SE, quase me mato para fazer a volta da barra via balsa, mas mesmo assim levei 4 h e o vento se foi...Quase enlouqueço de raiva, mas só me resta seguir em frente. Passo por alguns pescadores e pela plataforma sul da praia do Rincão.
Não foi nada, mas fiz 50 km velejando e caminhei cerca de oito horas para fazer mais 10 em linha norte sul, ou seja, fiz uma volta muito grande para contornar a barra. Resultado: estou exausto e meu tornozelo só falta explodir!
Converso com um senhor e depois com Ciso, que tem um pitbull.
Atravesso as dunas com o intuito de encontrar uma varanda para passar a noite, afinal já são mais de 18 h. Converso com o sr Claudemir que tem uma lanchonete ali. Seu Ciso amarra o pitbull no imortal e o bicho arrasta o Imortal de tal maneira que quase não consigo segurar os dois. Que bicho forte!
Fico instalado na varanda da casa em construção e vou comer um x ali na lanchonete de Claudemir. Para comemorar o avanço de hoje (faltam só 100 km) o pelotão toma martini on the rocks antes da refeição.Depois vou dormir.
Lá pelas tantas chega seu Ciso arrependido porque não me convidou a ir a sua casa. Trouxe um lanche, pomada para meu tornozelo e insiste para que eu vá para lá. Acontece que já estou instalado, já comi e estou podre pelas oito horas em pé. Agradeço muito, mas retorno a dormir. a noite foi tranquíla, alguns mosquitos mas nada demais.
Fonte:
André Issi Cidade:
Quintão-RS-Brasil Fotos: André Issi Publicado: Debora Dias Date: 25/09/2007
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