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Aconteceu de 02 de setembro a setembro de 2007, a aventura de André Issi, Rio grande a Quintão. Confira como foia quinta parte desta aventura.
Vinte de Setembro de 1835, digo, de 2007
REVOLUÇÃO FARROUPILHA
- Senhor, acabaram de chegar as ordens do comando!
Tomar Laguna no dia da revolução!
- Eles estão loucos!
Temos que atravessar o Rio Torneiro, avançar 50 km em praia mole com mar alto, atravessar as altas dunas da barra do rio Camacho e marchar 20 km depois de tudo isto até a balsa...
- Bueno, ordens são ordens!
- Pelotão. Hoje é a data máxima do Rio Grande e todo esforço é pouco para lembrar de nossa querida terra. Quero que lutem como bravos e lembrem do Rio Grande na hora derradeira.
- E o soldado TE?
- Terá que lutar como todos, ele faz parte do pelotão...
- E como lutaremos, senhor?
- Em marcha com baionetas, mas em carga de cavalaria com o Imortal utilizem as lanças.
- Pela memória de nossos bravos e pelo Rio Grande marchem!
E assim segue o pelotão para a praia. Ali encontro um simpaticíssimo senhor de 86 anos que do nada começa a falar de sua vida. Diz que perdeu uns documentos, mas já encontraram.
Encontro umas mulheres ajoelhadas na praia colhendo algo e colocando em cestinhos. Resolvo investigar. Elas estão colhendo "maçambiques", aquelas conchinhas pequenas em forma de triângulo retângulo.
- È para comer, diz uma delas.
Aliás, os pescadores ficam fazendo buracos sem fim catando mariscos e corruptos para fazer de iscas. Deveriam importar do planalto central...
Adiante passo pela plataforma de pesca norte da praia do Rincão e mais um pouco chego a barra do Rio Torneiro.
Um pescador legal me acompanha e diz que a barra está rasa... Legal, assim não perco tempo tendo que ir atrás de um caíque. Ele entra na água e afunda até o peito, mesmo não tendo chegado na metade do caminho. Fala que se eu for lá fora, no mar a "coroa" ou banco de areia estará mais raso...
Tá eu vou me meter em fria procurando coroa com a carga do Imortal nos ombros... Eu nem sei se a coroa é gostosa!
Resolvo atravessar a nado.
- Tenente, hoje nem é sábado e vai tomar banho...
- Alguém tem que dar um jeito de atravessar o pelotão. Conheço uns tauras amigos que nos ajudaram na vinda!
Atravesso rápido no estilo "Krau" e logo estou seguindo pela beira entre cercas, milhares de cornos de espinhos, rosetas e assemelhados.
- Seu burro, porque não trouxe os chinelos?
Sou obrigado a seguir assim mesmo, pois a correnteza do rio desce para o mar e não tô a fim de ficar com câimbra. Atravesso vários sítios, mas seu "abacate" não está. Mandam eu falar com outro pescador, que está trançando uma rede numa árvore.
Explico a situação:
Ele não está nem um pouco afim de sair dali:
- Pois é, mas eu vou molhar os sapatos...
- Olho para os pés dele, está de sapatos mesmo e fico sério.
- Parece que ele não tem mãos para tirar os sapatos.
Minha mãe sempre diz:
- Um passo além da mediocridade e a humanidade estará salva!
Certamente ele não ouviu falar disto.Tenho que falar na linguagem universal, mesmo porque não era minha intenção fazer diferente.
- Eu queria pagar para alguém fazer a travessia...
- Ele vacila um pouco e "lembra" que tem umas botas no galpão.
Com um certo esforço ele tira os benditos sapatos e calça as botas. Batalhas são vencidas nos detalhes e com um "saco" bem grande para ver e escutar certas coisas e tratar aquilo como coisa normal. Ajudo a remar rio abaixo até onde ficou o Imortal.Feita a travessia sigo a pé, pois ali está cheio de areia mole e o mar esqueceu que é manhã e está alto.
Perto de 10 h o sul ficou azulado e o vento que se forma precede uma tempestade.
- Senhor, é melhor desmontar a vela.
- Negativo. Montem!
- Chegou a hora do pelotão fazer uma carga de cavalaria. Preparem as lanças!
Monto tudo rápido e logo vamos zunindo. Há muitas saídas de riachos, areia mole e o mar chifrudo que sobe rápido querendop deter a carga de nossos heróis. Através das areias e das espumas o povo catarinense assiste ao embate rigoroso das tropas e ao entrechoque das armas.
Os imperiais em Laguna que aguardem, pois o pelotão pegou embalo e a vitória até Jaguaruna é só questão de tempo. O ronco dos rolamentos é forte, mas a água do mar abafa. A praia fica cada vez menor e o Imortal mais navega dentro do que fora da água.
Quando eu pego um pouco mais de velocidade logo entro em zona de areia mole ou sou obrigado a entrar na água com tudo para não atolar em areia acumulada mais para cima. As praias vão passando e ao longe vejo dunas muito altas e amarelas. O mar está lambendo a base delas e virou guerra corpo a corpo.
Às vezes atolo dentro da água e as crises histéricas galopantes tomam conta do pelotão que perde a razão e esmurra o mar enquanto berra toda a sorte de palavrões. Assim mesmo consigo avançar até que vejo os molhes da barra do Camacho.
Tiro fotos, arrasto pelas altas dunas e depois pelos areais até o outro lado da barra. Ali encontro três simpaticíssimas senhoras que recolhem maçambiques com cocas retangulares. Elas são muito divertidas e enquanto uma delas senta no Imortal, a outra, de "só" 85 anos puxa as rédeas e a companheira.
Tiro fotos com elas e sigo peleando pela costa de dunas altas até uns rochedos onde começa a praia do Farol de Santa Marta. Velejo até o último galpão já quase encostado no morro do Farol e ali tiro fotos enquanto converso com os pescadores.
Retorno velejando uma parte e subo para a estrada. Como o mastro passou na altura dos fios sigo puxando com o mastro montado pela estrada.
O Imortal quer seguir sozinho, mesmo nas subidas da estradinha...
- Tenente, porque não vamos velejando?
- Afirmativo, positivo e operante!
- Assumam seus postos de batalha!
Devagar e sempre o pelotão segue velejando pela estradinha enquanto o pessoal que passa nos carros sorri largamente pelo inusitado da cena.
Passa um ônibus e depois dois caras de moto me seguem e vêm conversando.
Aparece uma viatura da polícia militar. Passo óleo de peroba na cara e aceno. Eles vacilam e acenam de volta. Achei que iriam verificar a validade do extintor, mas isso só as bestas de Capivari...Sigo assim até chegar a um posto de gasolina, já perto do entroncamento onde iniciam os fios de luz que cruzam sobre a estrada e têm altura inferior ao mastro.
Desmonto a vela e sigo para o entroncamento onde chego às 16 h.
- Pelotão, preparem-se para a marcha de vinte quilômetros!
- Senhor, isso não é humano!
- Já tivemos diversas peleias para um dia só!
- O pelotão é animal e além disto temos que tomar Laguna no dia da Revolução.
Nada de água e comida até que o alvo seja atinjido.
- Senhor, somos marinheiros ou soldados?
- Combatemos tanto no mar quanto na água!
- Esqueceu que fomos fuzileiros navais no início de tudo?
- Além disto o pelotão não escolhe, combate!
Decidido, duas horas e meia de marcha firme e já escurecendo, chego a balsa. Atravesso, sigo pelas ruas. algumas pessoas lembram de quando eu e o Luigi passamos por aqui em julho. Sigo até o camping da barra dos molhes, mas não tem ninguém. Abro o portão, deixo o carro sob um teto e sigo para um restaurante que há ali perto.
Flávio o dono liga para os donos do camping e eles autorizam que eu durma por ali. Tomo três taças de vinho e janto um delicioso bife acebolado.
Começa a chuva que o Imortal havia deixado para trás. quando dá uma estiada sigo para o camping e me ajeito numa varanda onde ficam várias pias, o lava-pratos do camping.
Tchê que temporal! Muita água, raios e trovões.Que dia! Mil e seiscentos quilômetros viraram passado e só faltam trinta quilômetros para Imbituba.
Que loucura!
Dia 21 de setembro de 2007 - Sexta
Que ressaca! Ao amanhecer outro temporal! O tornozelo ficou como uma bolota, mas não dou mais bola. Ele que se vire com aquela pomada pra cavalo!
Ainda não terminou.
- Senhor, que faremos?
- Não saberemos viver sem guerras...
- O Danilo, do Veleiros do Sul falou brincando em fazermos 1000 milhas...
- Ele nos deu a maior força na viagem do caiaque.
- O que vocês acham de fazermos estas mil milhas ou mais?
- O pelotão explode de alegria.
Nunca fomos normais mesmo, que mal há em fazer uma loucura dentro da outra?
O pelotão tem gás para isto e muito mais.
Huevos hombres! Vamos a Imbituba para terminar o que começamos e voltar as armas para o sul atrás dessas tais de "mil milhas".
Não tem as de Indianápolis?
Agora haverá as "mil milhas do Pelotão", parece que estão lá pelas bandas de Capão da Canoa...
- Senhor, será que não ficaremos tontos com tantos meia volta, volver?
Fonte:
André Issi Cidade:
Quintão-RS-Brasil Fotos: André Issi Publicado: Debora Dias Date: 25/09/2007
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