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Aconteceu de 16 de julho a 2 de outubro de 2007, a Viagem de WindCar de André Issi, pelos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte da República Oriental do Uruguai. Confira a parte 4 do diário de bordo!
Pois é, o Luigi partiu e todos no pelotão sentem sua falta. Era o escrivão dos diários e sem ele volto a "catar milho"! Na verdade esta viagem iniciou com uma de moto, que levou oito horas desde Imbituba a Torres (pela praia). Depois mais duas de moto em função do carrinho que não conseguia encontrar.
Em uma delas perdi os 1600 dólares que trazia para pagar os carrinhos. Coloquei por dentro da bota e voou nota por nota. De carro ainda fomos ter uma aula em Cidreira e depois de porto para a Guarda e dali para Imbituba, mais de 4000 km.
- Soldado! Relatório!
- Senhor, perdemos o tenente fogareiro, três soldados bujões e duas varetas da barraca naquele combate nas dunas.
- Em Torres perdemos o tenente Luigi, sargento Panela e mais quatro soldados bujões dispensados em função do falecimento do tenente fogareiro.
- Afora isto, o Tenente Issi ficou com mais cinco "medalhas" (cicatrizes) em combate no Morro dos Conventos(queda e atropelamento pelo carrinho).
- E os reforços?
- Bueno, este ano levamos mais duas "damas de companhia" (hérnias), afora as fraturas de plantão.
É isso aí. Parto do hotel e vou à casa de Lopes e Gabriel que guardaram o carrinho para mim. Consigo montar a vela sozinho e vou ao campo de batalha que vejo pela terceira vez. Ainda está com pouca praia, mas dá para encarar. O vento fraco e a favor não tem força para deslocar a mim e ao carrinho.
Descubro que subindo na longarina da roda dianteira o carrinho atola menos e até dá para seguir em frente. Dou um embalo, pulo na longarina e sigo em pé, de frente para onde estou indo e controlando a direção com as rédeas ou corrigindo o curso dando biquinhos na roda dianteira. Andar no estilo "patinete" corre o risco de ser atropelado se cair, mas a velocidade é baixa.
As horas vão passando e mais adiante encontro outro filhote de lobo marinho (não sei a diferença entre lobo ou leão marinho). Tiro uma foto do bichinho e mais adiante encontro enormes carretéis de cabos de luz, agora amarrados em troncos e que são utilizados para facilitar o recolhimento das redes de pesca. É impressionante o número de redes! Por volta de 15 h, justo quando o mar subiu, o vento aumentou.
- Senhor, o inimigo cortou nosso caminho!
- Calar baionetas e preparar para combate.
- Este vento favorável é raríssimo e temos que avançar de qualquer jeito!
Odeio ir por onde estão as ondas, pois os carrinhos não tem paralamas e na areia molhada o cara vira um verdadeiro "croquete de areia molhada e congelante. Bueno, seu André. Te rala! Agora enfrenta isso ou desiste!
- Nem a pau, Juvenal!
E lá se vai o croquete, digo, pelotão! O mar sobe até as dunas, desce uns 20 m e volta com tudo. Para pegar velocidade, tendo que acompanhar o recuo das ondas e subir antes que elas me atinjam. Acontece que, às vezes, elas vêm muito rápidas e o carrinho perde velocidade na subida e somos envolvidos pela água gelada.
Apesar de estar com roupa de chuva, já estou encharcado. Cabos e roldanas estão entupidos de areia que lixam as mãos nuas que manejam retranca e cabos. Começo a tremer, mas agora só me resta seguir em frente sem parar sequer para comer. O vento aumenta e o jogo de gato e rato se sucede na região das ondas e das dunas.
Quando subo, encontro areia mole, o carrinho pára e as ondas vêm por cima.
Ele atola, tenho que descer e voltar ao cockpit toda hora. Passando por Capão da Canoa há uma infinidade de pedras e lixo junto à estreita faixa de terra e tenho medo que fure os pneus. Sigo adiante e paro depois das 17 h, já com o sol abaixo do horizonte, muito vento, frio, encharcado e cheio de areia.
Tive que desmontar a vela, pois havia uma plataforma (Xangri-lá). Alguns caras que pescavam ali perguntam se não tenho frio. Estou cheio de areia e só me resta entrar no mar com carrinho e tudo para me livrar da areia.
Uma onda forte quase faz o carro me atropelar. Agora tenho que achar lugar para dormir, mas é um local de casas de alto luxo, cercas elétricas e seguranças. Desmonto vela e mastro e sigo pelas ruas, já escuro e com vento forte.
- Senhor, que fazemos?
- Calma, desenvolvi uma técnica Ninja para estas situações!
- Agora nós somos a escuridão e o inimigo não nos perceberá.
-Como se faz isto, senhor?
- Basta usar o poder da mente!
Dito e feito, à medida que caminhava os seguranças me seguiam discretamente com suas motinhos. Em uma distração deles, encontrei um condomínio onde as luzes estavam apagadas, estava abandonado e havia varandas que protegeriam do vento NE. Fui para a varanda mais do fundo, onde era mais escuro.
Troquei de roupa, coloquei plástico, isolante térmico e o saco de dormir por cima. Puxei o plástico sobre o saco de dormir e assim passei uma noite que prometia ser difícil razoavelmente bem. Como não comi nada o dia inteiro, fiz uma granola básica e fui nanar.
31/07/07 - Acordei bem cedo e parto logo, com as roupas ainda molhadas de ontem. Cadê o vento? Nothing!
- Senhor, como vamos combater o inimigo?
- Já estamos combatendo!
- Vocês relaxaram e o pelotão foi tomado por uma leva de ácidos graxos, colesteróis e assemelhados.
Quando chegamos ao final da viagem de caiaque ano passado o pelotão não passava de 68 kg. Ao partirmos de Imbituba, vocês largaram com 86 kg.
- Agora... MARCHEM!
- SEUS "APAGADÕES"!
E assim nos fomos, marchando e cantando a canção. Parei para almoçar ao meio dia, pois já estava com dor de cabeça. Ali ao lado havia um daqueles carretéis para recolher as redes do mar. Mais adiante encontrei uma fêmea de lobo marinho e dois filhotes. Um deles estava morto. Depois de três horas de caminhada o vento começou a se manifestar.
Fraco a princípio, mas às 13 h já podia navegar sentado, pois o estilo "patinete" é cansativo. Às 14:30 hs, já com o mar subindo e com pouca praia, cheguei a foz do Rio Tramandaí. Conversei com Eduardo que veleja de windsurf e kite surf e dali segui para o hotel Alaska. O mesmo onde me hospedei ano passado quando passei rumo a Torres naquela viagem de oito meses.
Aliás, foi ali que se hospedaram meus hermanos de Rosário em sua viagem de caiaque rumo ao Rio de Janeiro. Encontrei Márcia, esposa de Marcos, dona Vani, esposa de seu Juvenal, o dono. Agora são 21 h e escrevo na mesma net onde enviava os mails ano passado. Foi legal ter passado aqui e rever meus amigos. Parece que vem outra frente freia e chuva, mas o pelotão segue em frente.
Quintão
03/08/07 - 19:42 h - Buenas e me espalho, nos pequenos dou de plancha e nos grandes dou de talho! Assim chegou o tenente Issi em Quintão ontem, abaixo de chuva. Como minha roupa não agüentou a marcha, tive que comprar outra de chuva que só chega amanhã. É chuva que não pára mais, mas amanhã as aventuras continuam pela parte mais desolada da viagem. Disseram que daqui há 100 km não haverá passo na saída de um riacho, mas é coisa pra mais tarde.
Fonte:
André Issi Cidade:
Porto Alegre-RS-Brasil Fotos: André Issi Publicado: Debora Americo da Silva Date: 17/10/2007
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