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Viagem de WindCar de André Issi 2007 - Parte 5

Aconteceu de 16 de julho a 2 de outubro de 2007, a Viagem de WindCar de André Issi, pelos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte da República Oriental do Uruguai. Confira a parte 5 do diário de bordo!

1º/08/07 - Parti de Tramandaí depois de reencontrar seu Juvenal. A festa foi completa. Dona Vani lembra minha mãe e é muito querida. Marcia, Marcos e seu filho (Taylor) são pessoas especiais e só aceitei que não me cobrassem a diária com a promessa de que irão retribuir a visita lá na pousada. Essa é a parte que mais interessa nas viagens, a amizade que permanece, os bons amigos.

Às 10:30 hs já estou na praia velejando e logo adiante desmonto a vela para cruzar pela plataforma de pesca. Dali em diante o vento diminuiu e tive que velejar no estilo "patinete", ou seja, dar um embalo e subir na longarina do eixo dianteiro e seguir de pé, apoiado no mastro, segurando o cabo da vela e controlando a direção dando bicos no comando da roda dianteira.

Fico parecendo com aqueles mestres de barcos que seguem de pé em suas canoas com os cabos do leme na mão. É legal, pois o cara segue de frente para onde está indo e percebe melhor onde a areia está mais firme. O perigo é escorregar e ser atropelado, mas isto só aconteceu uma vez; acho que estou ficando craque! As horas passam, observo as gaivotas, as garças e os talha-mares.

Eles ficam numa patinha só e ficam pulando. Não sei se a areia está fria, mas a outra pata não está machucada. Na hora de voar eles a colocam no chão. Passo por uma infinidade de lobos marinhos mortos, na maioria são filhotes, parecem pequenos cachorros sem orelhas. Horas depois chego à plataforma de Salinas, a mesma onde o Nardi nos deu a única aula que tivemos um dia antes de partir.

Estava gelado para caramba e tomamos nosso primeiro "banho de areia". Depois passo por Cidreira e um casal legal (Caco e Lúcia) conversa e oferece chimarrão. Era tudo que eu queria! Passei o dia todo sem comer, mas o pelotão têm que aproveitar os raríssimos ventos favoráveis, mesmo que fracos. Até hoje não houve um dia inteiro de vento forte o suficiente para eu velejar normal. Por isto adotei o estilo "patinete"! O pelotão está ficando com fome, mas é bom para emagrecer, hehehe.

Amanhã entra chuva e outra frente fria, por isto tenho que aproveitar. Depois de Cidreira o cenário ficou feio e triste. Há uma verdadeira favela que tomou conta das dunas e com elas lixo, bichos e detritos. Assim foi até chegar a Pinhal. Há, também, muitos desses rolos que os pescadores utilizam para remover as redes do mar. Desde Capão há áreas demarcadas para pesca, surf e banhistas, visto que essas redes são perigosíssimas, pois mais de 40 surfistas e banhistas já morreram enroscados nelas.

É uma polêmica que se arrasta e as pessoas morrem. Outro fator curioso são as casas de salva-vidas ao longo da orla. Cada município as faz nas mais diferentes formas, desde pirâmides, quadradas ou mesmo em formato de boné. Às 17:30 hs, quase escuro, resolvo sair da praia para encontrar a varanda de uma casa pois há previsão de chuva para esta noite e guardar a barraca molhada é ruim.

Resolvo limpar o carro e as roupas com a escova antes de seguir. Percebo algo estranho no pneu e puxo. Era uma espinha de peixe e foi tirar para esvaziar. Tchê, que confusão! É um vira-desvira o carro e nada da câmara sair. As coisas se espalham no chão e não posso sair dali sem antes consertar o pneu. Para complicar o mastro travou e não desconecta GRRRRR!

Estou quase mordendo aquela maldita câmara que não sai e ainda por cima o esforço arranca as cascas das feridas do tombo em Morro dos Conventos. Ah é, tu vai ver maldita! Pego o alicate e tiro a câmara "a la André ", ou seja, animalescamente. Acabo arrancando o ventil, grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!

- Burro, incompetente!
- Sabia que irias fazer porcaria!
- Agora azar, arranquei a maldita e consegui colocar outra. O mais importante é achar abrigo.

Sigo pelas ruas possesso, pois o mastro "colou" por causa da areia e não desmonta totalmente. Para me acalmar os cachorros se botam por cima e estragam meu disfarce ninja para encontrar uma varanda em silêncio. GRRRRRRRRRR!

- Calma seu boludo, te concentra no objetivo maior!
- Vai querer jogar pedra em tudo que vê ou achar lugar para dormir?

Bueno, as casas estão no fim e finalmente encontro uma de jeito, com boa varanda e abrigada. Coloco o saco de dormir e tento passar a noite.

02/08/07 - Desperto com chuva e vento sul. Hoje a Ângela (minha irmã) está de aniversário. Parabéns! Lúcio (professor de windcar em Rio Grande ) falou que só terei vento favorável terça que vem. Ele é amigo do Nardi e do Henri "Talha-mar". Os amigos crescem na mesma medida da viagem. O Danilo ajuda como pode com previsões e o Rodrigo "Asterix" (que é biólogo), informa sobre a fauna. Ele disse que aquele "filhote" de golfinho (esqueleto) na verdade é adulto.

"A observação que tenho que fazer é que o 'filhote de golfinho' que você fotografou na verdade é um golfinho adulto! Provavelmente você vai encontrar muitas mais ao longo do litoral, em especial ao gaúcho na parte sul. Trata-se do menor golfinho do mundo e que vive em nossas águas, da Argentina ao Rio de Janeiro, em maior quantidade concentrand-se do Uruguai a Santa Catarina e Paraná! O Rio Grande do Sul é rota e presença freqüente desses animais. Chama-se vulgarmente como Franciscana (na região do Prata) e Toninha (RS, SC, PR) e a espécie é a Pontoporia bleinvillei. São animais muito frágeis e acabam morrendo emalhados nas redes de pesca próximo ao litoral onde se afogam rapidamente. Como é proibido por lei matar, capturar ou perseguir estes animais, os pescadores com medo as desemalham já mortas ou ainda inconscientes e vão acabar dando na praia. No caso das inconscientes acabam indo ao fundo e se afogando. Se você puder ao longo da sua jornada registrar com uma foto (coloque alguma coisa como uma caixa de fósforo ao lado para se ter uma noção do tamanho) e as coordenadas (tá funcionando o GPS?) seria uma boa para eu repassar esses dados ao Museu Oceanográfico de Itajaí, onde sou co-fundador e colaborador. Eles realizam trabalho de pesquisa com estes mamíferos e seus dados podem ajudar em algum aspecto sobre a mortandade e distribuição no litoral. O mesmo vai ocorrer com lobos e leões marinhos, eventualmente outra espécie de golfinho e provavelmente vai encontrar várias tartarugas marinhas mortas. Se fotografa-las é possível que identifique para você as espécies o que, ainda mais por fotos, vai depender muito do estado de deterioração para achar as características. Achei que ia gostar desse feedback pois sei que curte os animais que encontra e sabendo mais deles fica melhor ainda. Abração! Toca ficha! Bom passeio. Asterix "

Bueno, vamos em frente pela praia com fraco vento de proa, areia mole e ruim de puxar.

- Hay que tener huevos!

Paro em uma guarita na praia para descansar, pois mesmo com chuva e frio fico suando pelo esforço de puxar. Já estou em Magistério e decido que é melhor ir por cima, pois é mais fácil de seguir. O plano é parar em Quintão, comprar câmaras, reparos de câmara e mais kinojo antes dos próximos 200 ou 300 km sem nada. Dali pra frente é sem moleza, apenas dunas e eventuais povoados perdidos no meio do nada. Resolvo também almoçar, pois estou ficando fraco.

Liguei pra casa, dei os parabéns a Ângela e falei com a mãe. Ela disse que o Luigi emagreceu cinco quilos nos 14 dias que viajamos e que está comendo como nunca. Paro para almoçar no restaurante da Olga em Magistério. Tchê, nunca comi um filé a parmegiana tão saboroso. Que delícia! Para acompanhar uma deliciosa feijoada e dois baita copos de vinho, que adoro. Antes não bebia por causa do Luigi, para não influenciar soldado tão novo e adepto do refri.

Fico assistindo tv, bebendo o vinho e sem vontade nenhuma de seguir puxando na chuva. Faço amizade com Olga, Tereza e Jaíra e elas topam fazer um café depois de eu "chorar" dizendo que poderia ser meu último café, heheheh. Essa "tática" sempre funciona com a mãe!

Depois sigo até uma casa de material de construção para comprar o que falta. Uma parte havia, mas o resto só em outro local. Os donos, sr. Júlio e Simone, me levam de carro até onde tem o que preciso. Que pessoal legal! É isto que torna viagens assim tão agradáveis, as pessoas saem da rotina e te surpreendem! Dali sigo para o asfalto que liga Magistério a Quintão.

- Senhor, o nosso barco não foi desenhado para pelear por aqui!
- Quieto, o nosso pelotão peleia onde quiser! Se aparecer vento por aqui monte a vela e siga em frente.
- Mas pode haver polícia, não temos freios.
- Então atropele, pois eles só param para verificar a validade do extintor!
- Senhor e essa mania de velejar em pé, junto ao mastro e de frente para a proa?
- Dizem que estamos amaldiçoados, pois nas noites de lua cheia vemos apenas nossos corpos magros. Como se fossem esqueletos!
- Será que o nosso barco não está amaldiçoado como aquele navio fantasma do Jack Sparrow?
- CHEGA!
- Te pára de frescura!
- O bagual que não aguentar o tirão sentirá a fúria do pelotão!
- Esta guerra é real e se o inimigo (vento) vacilar, montamos a vela e seguimos por cima desse bicho preto (asfalto) rumo ao sul velejando.
- O pelotão não tem caminho definido, não temos regras e só dependemos de nosso esforço!
- E os Imperialistas (polícia)?
- Soldado, viemos aqui para combater e não para pedir licença.

E às 17 h o pelotão chega em Quintão! Acampamos na pousada da Lorinha e do Francisco. Chuva, ruas inundadas e vento. Não sei como, mas a calça de chuva rasgou nas duas pernas e nem o conserto com fita silver tape ajudou. Amanhã tenho que achar outra em Quintão no inverno e chovendo a cântaros!

Fonte: André Issi
Cidade: Porto Alegre-RS-Brasil
Fotos: André Issi
Publicado: Debora Americo da Silva
Date: 17/10/2007 <%insert_data_here%>

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  Evento 7306 - Viagem WindCar

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