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Viagem de WindCar de André Issi 2007 - Parte 7

Aconteceu de 16 de julho a 2 de outubro de 2007, a Viagem de WindCar de André Issi, pelos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte da República Oriental do Uruguai. Confira a parte 7 do diário de bordo!

06/08/07 - Cara, que vento forte e de rajadas.

- Senhor, esse vento dá medo! Não é melhor esperar diminuir?
- Negativo, nós viemos combater e não podemos escolher. Vento favorável é raríssimo e temos que avançar a qualquer custo!

Tenho medo de estragar algo, mas ou eu crio coragem e arrisco ou é melhor voltar para casa. Mal armo a vela e o carro dispara como louco, pega velocidade demais e fica perigoso, pois as constantes chuvas armaram dezenas de armadilhas, o mar está alto e os riachos cavocaram barrancos perigosos além de estarem bem mais profundos. Quando menos espero, mergulho com força nos riachos mesmo seguindo as instruções do Nardi de navegar junto às ondas para livrar dos barrancos.

Quando o mar recua posso descer um pouco e diminuir o perigo, mas às vezes coincide de o mar subir bem na hora que surge um riacho e a coisa fica perigosa, pois estou muito veloz, o carro não tem freios e só tem duas opções: ou dou um cavalo de pau ou embico para o mar. Afrouxava a vela quando surgiam os riachos, mas parecia que ali ele pegava mais velocidade ainda. Passei por um esqueleto de baleia e tirei umas fotos.

Seguindo adiante encontrei dois enormes riachos onde o carro quase flutuou e a força da vela o fez emergir e avançar. O negócio começou a fugir do meu controle. Embiquei contra o vento para verificar os cabos e o carro não parava. Para meu espanto ele empinou sozinho, pois as rodas estavam apoiadas no barranco; isto que a vela estava solta. Segui em frente e a força do vento cada vez pior.

É a primeira vez que sopra um nordeste de jeito em 20 dias. Já nem paro para fotografar os vários esqueletos de navios e outro enorme, de baleia. Estou encharcado e de botas cheias de água de tanto varar riachos profundos. Quase não enxergo direito, pois virei croquete de areia e os óculos escuros estão arranhados na vã tentativa de tirar a areia e ver algo.

- Senhor, há um enorme rio a frente, é profundo e tem barranco.

Estou em alta velocidade, com certeza a mais de 60 km/h e dar um cavalo de pau a menos de 10 m é arriscadíssimo de capotar sem parar. Para meu azar o mar sobe com tudo invade o rio com tal força que parece uma pororoca, pois a água do riacho desce com fúria.

- Rápido, soltem a vela!
-Soltamos, mas o cabo trancou nas mochilas e ela abriu na posição "asa de pomba", onde o carro pegou mais velocidade ainda.

Para piorar havia uma descida antes do riacho e fui para o choque a mais de 70 km/h . Não havia mais o que fazer, segurei-me nas barras e não vi mais nada. Foi uma pancada tão forte que a roda dianteira mergulhou, trancou no fundo e o carro levantou nas duas rodas traseiras, girou no ar e tombou para bombordo. Meu desespero era que o carro fosse enterrando na areia com aquela força de água e tentei me desvencilhar do ferro retorcido para dentro e que me prendia dentro do carro.

Saio dele desesperado, tento levantar pelo mastro, mas a força do vento na vela o mantém para baixo. Corro atrás dos chinelos que seguem a correnteza para o mar e os deixo em terra firme. Volto para o carro e desamarro nervosamente o cabo que prende a retranca para tentar sacar mastro e vela ao mesmo tempo.

- Sai sua maldita, sai senão eu te quebro ao meio!

E berrando como um doido consegui, no desespero, arrancar o mastro e a vela. Levo tudo até o outro lado, volto ao carro, consigo desvirá-lo e arrasto o coitado até onde está a vela. Resgato os chinelos e vejo que o varão está muito torto para dentro. Desentorto com coices para que pelo menos eu possa entrar no cockpit novamente. Abro a caixa preta e escuto os últimos momentos da tripulação:

- Estamos com muita velocidade, desvia!
- Não dá!
- Tenta os freios...
- Não tem senhor!
- Baixe os flaps (cabos da vela)...
- Soltamos, mas prendeu. Não funciona!
- Estamos com muita velocidade....
- BZZZ, BZZZ (sons de choque nas ondas, etc...)

Olho para mim, desta vez estou inteiro, tenho que montar a vela e seguir.

- Senhor, estamos apavorados...
- O primeiro que arrepiar vai se ver comigo!
- Todo combate tem esses choques de tropas.
- Reagrupem o pelotão e preparem-se para o combate!
- O pelotão tem que seguir batalhando!

E assim nos fomos, agora mais experientes e conscientes que o negócio não é tão fácil assim e que tem que ter muita farinha no saco. Encharcados e congelados seguimos em frente passando por riachos menores, agora sem os óculos que foram aposentados, pois prefiro ficar cheio de areia nos olhos, mas enxergando melhor por onde vou passar. Passei vários riachos, mas havia outro enorme, só que vi com mais antecedência.

- Soltem o cabo!
- Trancou de novo!
- Puxem com a mão!
- Soltou senhor, mas ainda estamos com muita velocidade...
- Preparar cavalo de pau!
- Estamos muito rápidos...
- AGORA!

É viver ou morrer. A roda dianteira gira, vejo a traseira esquerda deslizando na areia, o carro girando e ficando de frente para o vento. A vela balança como louca e o carro inicia a andar de ré, tal a força do vento.

- Pelotão, finquem as esporas no chão até que gastem e arranquem os "garrões"!

Finalmente o bólido pára!

- É isso aí xiruzada, ainda terão que inventar um bicho bagual que o pelotão não aprenda a domar.

Desço e atravesso o Imortal (em homenagem ao brasão de armas da República do Rio Grande) até o outro lado. Acontece que meu cavalo está ferido e estrala sem parar. Estou encharcado, cheio de areia, botas cheias de água e enregelado. Não quero parar nem para tirar fotos, tanto que passo por várias carcaças de barcos, grandes esqueletos de baleia e dois faróis: Solidão (avermelhado e base cônica) e Mostardas.

Nem quero saber se molhou a máquina fotográfica para não baixar mais o astral. Ali no farol de Mostardas havia um povoado grande, mas mesmo com o vento diminuindo bastante sigo em frente, já andando de um lado a outro para pegar mais velocidade. Aproveito para aprender a andar com uma das rodas no ar, mas o carro estava esquisito.

- Senhor, rompeu a solda que segura a braçadeira das longarinas ao mastro.
- Droga, façam um conserto emergencial com o cabo que usamos como rédea (para puxar o carro)!
Encharcado, congelado, meio da tarde e vento parando. Dormir aonde? Subo uma duna e vejo árvores ao longe. São 15:30 o vento parou total, mas pela primeira vez (em 20 dias) velejei por 6 h seguidas. Sigo puxando e chego às árvores. O céu promete chuva e ali há um povoado, mas não vejo moradores. Um povoado fantasma semi-enterrado pelas dunas.

Vejo um cachorro preto, algumas galinhas e só! Chamo e nada! Aparece um carro e um dos moradores sai da casa. Pergunto se posso passar a noite em uma das várias casas. Tudo bem! Protásio (Tazinho) é muito legal e oferece um café que tomo ao lado do fogão a lenha que aquece um pouco. Ajeito umas tralhas, coloco roupas secas e descubro que a máquina fotográfica molhou, já era!

Tiro as pilhas, ajeito a lona e o saco de dormir em um diminuto quartinho e vou dormir. O saco de dormir molhou então deito sobre o plástico e puxo a metade sobre mim para reter o ar quente. Chove forte e para completar, duas goteiras finalizam o dia. Uma sobre a cabeça e outra nos pés. Tortura chinesa (aquele som martelando no plástico e molhando aos poucos) para lembrar da roupa de chuva chinesa que não serve pra nada. Assim passei a noite.

07/08/07 - Viajei mais de 100 km ontem, estou na altura de Tavares e a 8 km da travessia da barra da Lagoa do Peixe, um parque nacional onde centenas de espécies de aves migratórias param em sua trajetória e onde há muito camarão e tainha. Poucos puderam permanecer e por isto o povoado ficou "fantasma". Além disto, o mar avançou e mais de 150 m foram tomados; onde antes havia casas hoje é o mar que continua avançando.

Fora isto as dunas avançaram, inclusive já invadiram a garagem da casa onde deixei o carrinho. Agora são 11:15 h, adaptei uma madeira para apoiar a braçadeira quebrada e fixei com cordas, espero que funcione. As fotos já eram, as roupas coloquei para secar no forte vento SW que sopra hoje e tenho que decidir o que faço. Resolvo tirar o dia para consertar coisas enquanto secam as coisas de ontem. Como não tenho nada a perder, abri a máquina fotográfica tirando os minúsculos parafusos com a ponta do punhal e a coloquei ao vento, aberta com uma madeirinha.

Na parte da tarde fui até a Lagoa do Peixe caminhando pelas dunas e encontrei a rural de Jorge "Lambari" que a deixou ali na margem para largar as redes. A rural é como muitas outras daqui, funciona a gás, cabine em madeira e muita improvisação. Volto ao povoado e a máquina fotográfica voltou a funcionar. Fiquei louco de alegria e acabei jantando com Luis, Jorge, Jéferson e Lambari. Comi um delicioso arroz com feijão, moranga e aipim. Que pessoal legal. Um frio de rachar, mas sigo para minha casa no escuro e dessa vez minhas roupas estavam secas.

08/08/07 - Acordo cedo, tomo café com os amigos que preparam dois ovos e um copo de café antes de partir. Que gente mais amiga. Jorge dá as dicas para subir a barra onde há um povoado e conseguir um caíque para atravessar a barra que está profunda e com muita correnteza. Parto às 10h com vento fraco e uma hora depois chego a barra. Subo até o carro atolar e sigo a pé até o povoado. Encontro uma senhora, seu Nilton e Joel. Eles vão me atravessar. Pego uma tábua de madeira grossa para fazer novo conserto, pois a outra não agüentou e partiu.

Na hora de atravessar tiro as botas, cair na água com elas é caixão. Não adiantou seu Joel dizer que não precisava, não vou dar chance pro azar. Foi uma luta, mas seu Joel conseguiu tirar uma foto para mim e depois ele se foi enquanto eu cortava a grossa tábua com meu facão. Amarro com cordas e sigo arrastando pela areia mole com muito esforço até voltar a beira do mar.

O vento ficou mais forte e sigo logo para aproveitar, pois o vento pára de repente por volta de 15 h. Mas o conserto não durou muito, pois as cordas afrouxaram e tive uma crise histérica e fiquei berrando toda sorte de nomes feios enquanto desamarrava e reamarrava as cordas, agora utilizando as outras que possuía. Segui em frente, a braçadeira rompeu em outro ponto e vou amanhã para ver se consigo chegar a Rio Grande.

Não posso trocar de bordo e tenho que segurar o mastro com as mãos para impedir que ao virar de lado, force mais ainda sobre a braçadeira. Ao passar pelo povoado areia da Praia, o pneu traseiro fura de novo. O pessoal dali veio observar, ofereceu pouso em suas casas, mas dessa vez troquei rápido a câmara e resolvi seguir mais um pouco.

É a neura de aproveitar o vento favorável ao máximo. Sigo em frente até às 17:30 h, e resolvo arrastar sobre as dunas até um grande casarão nas dunas. O vento frio está forte, mas ele tem uma boa varanda e coloco o plástico no chão. Chove muito durante a noite, mas as goteiras não me alcançaram e dormi bem.

Fonte: André Issi
Cidade: Porto Alegre-RS-Brasil
Fotos: André Issi
Publicado: Debora Americo da Silva
Date: 17/10/2007 <%insert_data_here%>

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