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Aconteceu de 16 de julho a 2 de outubro de 2007, a Viagem de WindCar de André Issi, pelos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte da República Oriental do Uruguai. Confira a parte 8 do diário de bordo!
09/08/07 - Antes de partir, reaperto os cabos, pois o vento está forte. Agora são 8:45 h. Que deus me ajude! Faltam 95 km para a barra da Lagoa dos Patos. Estou próximo a Bojurù, de frente para a Barra Falsa, na Lagoa dos Patos. Vou rezando para o conserto dar certo, pois o vento está forte. A princípio estava dando certo, pois o carrinho pegou velocidade (apesar da areia mole).
Bueno, dia de vento favorável o pelotão não pára e assim fomos passando por ossos de baleia, lobos marinhos e cascos de navios pesqueiros. Eu nunca pensei que houvesse tantos. O farol de pedra da Conceição desabou e um pouco mais acima há uma torre de metal, é o novo farol. Sem sobressaltos fui deixando o carro correr, pois estava mais plano e sem grandes riachos, apenas alguns "mergulhos" em alguns mais profundos, mas tudo bem, normal.
Logo depois de ultrapassar um trator, vi uma caminhonete dando sinais de luz. Passo em velocidade e eles pedem que eu pare. É da FURG (Fundação Universidade de Rio Grande). São Candinho, Paulo e uma menina, amigos do Henri "Talhamar". Só consigo parar mais adiante, pois vinha em velocidade. Estou cheio de areia e molhado. Eles tiram muitas fotos, avisam de riachos grandes adiante e seguem para o norte, vão monitorar a barra da Lagoa do Peixe e voltam.
Quando eles partiram, percebi que o pneu estava saindo da roda, por isto trepidava tanto. Esvazio, ajeito o pneu e ponho menos pressão, pois o carro já está todo fora do esquadro e trepida com mais velocidade. Fui em frente e passei por outra torre de metal (farol do Estreito). Exatamente às 15 h o vento parou. Não dá de acreditar na força que tinha de manhã e de repente pára!
Para piorar começa a chover e imediatamente a superfície brilha e fica encharcada, difícil para puxar. Não há casas abandonadas por perto e só me resta puxar, pois acampar nas dunas é muito ruim. Caminho por mais de duas horas até que chego a um mato de casuarinas (uma espécie de pinus) que vi de longe. Está cercado, três placas de proibido entrar na porteira.
Acontece que o pelotão está encharcado, cansado e sem ver nada para frente por causa da neblina e da chuva.
Abri a porteira, penetrei no mato e montei a barraca (sob chuva) abrigado pela duna e pelas árvores. Estava tremendo, mas coloquei as roupas secas, comi a granola e fui dormir na barraca sarcófago. Deixei as roupas molhadas penduradas nos galhos (pois deu uma estiada) e dormi super bem, abrigado do vento.
10/08/07 - Sou despertado por raios e trovões e desarmo a barraca em tempo recorde. Nada de diário nem comida. Monto tudo e logo o dono das terras aparece. É seu Nilton, gente muito legal que diz que adiante há o povoado de Marumbi, quase em linha com S José do Norte. Então ontem andei cerca de 80 km e faltam uns 15 km até a barra. Pena que não há vento e tenho que seguir puxando. Chove, fica uma neblina que não deixa ver mais que 500 m . Logo adiante passo por pequenos abrigos com telhados de frente para o povoado e com redes penduradas.
Na neblina as coisas são estranhas, tu vês o que parece um farol e quando se aproxima não passa de uma estaca de rede. Caminho uma hora, como uma laranja, outra hora, outra laranja. Estou de botas e roupas de chuva, ruim para caminhar, mas não tem remédio. O pelotão não tomou café e está cansado. Vejo a carcaça de um enorme leão marinho e depois a de um filhote de baleia. Resolvo parar por ali para descansar.
- Senhor, estamos famintos e de saco cheio de comer queijo e salamito!
- O quê? Soldado reclamando da ração de guerra?
- Sim senhor!
- Bueno, então vou fazer algo que não vão esquecer.
- A comida estava ótima, apesar de fria.
- Senhor, que delícia. O que era?
- Ora, o kinojo, um pacote de sopa e... Sprite!
- Argh!
- Por que não fez com água fria?
- Ela estava por baixo das mochilas cheias de areia e achei melhor adicionar o refrigerante!
- Viram como ficou salgado, doce e frisante ao mesmo tempo?
Bueno, o tempo ficou esquisito e parece aumentar, mas está rondando. Parece ficar a favor e resolvo montar a vela. Ando um pouco e o vento pára, Grrrr! Em terra, para o lado da barra umas nuvens negras começam a girar em círculos e se dirigem para o mar. Parece um mini tornado.
- Senhor, estamos em perigo, é a frente fria com vento de SW se chocando com esse de NE.
Rajadas chegam de repente, violentas. Desmonto o mastro rapidamente, pois raios ao longe deixam todos de alerta. Virou um inferno, chove, venta forte e contra. A superfície fica molhada, mole e me obriga a um esforço triplo. As pernas fraquejam, tenho que parar a todo instante e os 7 km que faltavam parecem 20 agora. Paro a todo instante, e tenho que caminhar de costas, pois assim fica mais fácil de seguir contra o vento, pois este desvia no capuz e assim não judia tanto, pois o nariz pinga sem parar, pois ficou mais frio ainda.
Que coisa mais estafante, mas agora só faltam mais 3 km. Foram os piores que já andei. Sigo entre milhares de peixes porcos e, papa terras e bagres (perigosos de furar os pneus por causa dos esporões). O mau cheiro está no ar, as areias correm como loucas de encontro e oferecem bárbara resistência ao pelotão que está nas últimas. Quando dá, cantamos o hino farroupilha e seguimos em frente.
Finalmente, às 14:30 h, depois de 5 horas de caminhada arrastando o Imortal (em homenagem ao brasão de armas da bandeira gaúcha) o pelotão encilha as rédeas nas pedras dos molhes. Dou um berro de raiva, o pelotão conquista mais um baluarte! Depois arrasto até a vila quinta seção da Barra e lá muitas pessoas vem olhar o carro. Depois como um baita bauru e tomo um café quente, pois o vento está horrivelmente frio e forte. Está difícil de atravessar, mas lembrei de Chico Preto que disse que me atravessaria se não conseguisse com mais ninguém.
Encontro ele num barzinho, no quente e jogando cartas com os amigos.
Fico até com vergonha, mas não tenho nem onde dormir aqui e já escurece.
Chico se levanta, fala no telefone com os amigos e me leva a sua casa. Tomo um delicioso café em companhia de sua esposa e uma vizinha. Ele fala que se eu quiser dormir em sua casa ou no barco, que arranja quem solde a braçadeira rompida, etc. Cara, que pessoa maravilhosa, ele nem me conhece!
No fim, depois de fotos e conversas, ele concorda em me atravessar. Já que está quase escuro, vamos no vento cortante e três rapazes super divertidos carregam o carro pelo trapiche e o colocam no imenso barco pesqueiro (Chico Preto) sobre as redes, no convés. Mais uma pro caderninho. Sigo na rústica cabine e fico admirado da coragem deles de sair mar afora, à noite, soltar e recolher redes. Muitos dos cascos que encontrei eram de barcos iguais a este. Isso sim é que é coragem! O pelotão se recolhe a sua insignificância enquanto atravessamos em direção da quarta Seção da Barra, já em Rio Grande.
Quando tento pagar, Chico Preto não quer nem me ouvir falar, disse que já viajou muito e que estas coisas não se cobram, que dizer? Eles se vão, ganhei outro amigo, dos bons! Estou no meio de uma vila meio "complicada" e sigo caminhando por uma estrada enlameada rumo ao grupamento de Fuzileiros Navais. Falo com o pessoal que autoriza que deixe o carro aqui, mas não há alojamento. Em frente, nos Fuzileiros, fizemos o Estágio do curso de formação para oficiais do corpo de saúde da Marinha.
Ali eu, o Rojas, Bello, Beltrame, Verdi e tantos outros iniciamos nossa vida independente e sou muito grato, traz boas recordações. Se os guris soubessem que vinte anos depois estou onde tudo iniciou. Eu não tenho saída, tenho que apelar e chamar o Henri, mas queria tomar um banho antes. Foi ele que fez com que eu passasse por Rio Grande na viagem do caiaque e fosse alojado no Yatch Club de Rio Grande.
Falo com ele e vou arrumando os tarecos antes que venha. Fico ali no vento gelado arrumando tudo e quando vou tirar as botas, com horror, que dois zorrilhos vêm abraçados nas meias. Elas fedem tanto que depois de mais de oito horas de caminhada os bichinhos se apaixonaram pela "essência" das meias que eles as querem com cobertor. Para minha desgraça chega o Henri e a Maíra e não deu tempo de trocá-las.
Só aí me dou conta de que o último banho foi em Quintão. Sou muito bem recebido pelos dois que mereceriam uma medalha de bravura, pois levaram o pelotão fedorento sem fazer nenhum comentário. Quando chegamos a sua casa, coloco as meias em um balde com ácido.
- Morram suas meias fedidas!
- Minhas botas estão pior que caldeirão de bruxa!
Quando me olho no espelho outro choque. Só aí foi que vi como está frio, pois minha barba está branca por causa da geada e da neve. Um banho delicioso, uma janta divina que Julieta preparou e assim recupero minha dignidade de ser humano resgatado do banhado!
11/08/07 - Resgatamos o carro no Comando de Grupamento Naval do sul e voltamos para a casa do Henri. Ele tira as cordas, olha e reolha e logo está cortando chapas de inox, desentortando longarinas e o meu carro ficou melhor do que estava antes. Se havia alguém que pudesse recuperar meu carro aqui em Rio Grande, seria o Henri, que tem uma oficina em casa com todo e qualquer tipo de ferramentas que possui como hobby. Revejo dona Gesine e seu Pierre, vamos jantar e passear.
Almoço, amigos do Heri, Yatch e outro passeio maravilhoso em companhia dele, de Julieta e Maíra. Ontem foi dia dos pais e fomos passear de Toyota desde Povo Novo, arraial, Quitéria e vila Quinta. Voltamos depois de visitar os pais e irmãos de Julieta e depois me pus a escrever. Agora são 4:34 h da manhã e estou podre. Mais tarde estarei partindo para o sul. Tem feito muito frio, ontem fez 0º C e outros dias esteve - 2 e -4º C. Vou enviar este e depois vou tentar mandar as fotos.
Trecho R Grande - Chuy
É isso aí amigos, foi mais feio que peleia de foice no escuro, mas a custa de grande esforço e muita raiva o pelotão chegou há pouco ao Uruguay, de onde agora vos escrevo. Desculpem a acentuação, mas o teclado é em espanhol e aí complica o vosso "catador de milho". Cheguei aqui completamente encharcado e com frio de rachar, mas o inimigo abriu o flanco e o pelotão aproveitou a oportunidade e se jogou para o tudo ou nada e a vitória, antes tarde do que nunca, premiou todo o sofrimento que foram os últimos noventa quilômetros de uma viagem que já chega aos 800 km.
Pensei em desistir, mas o que eu me arrebentei nos tais de "conchais" me deu tanta raiva que agora vou dar marcha-a-ré no caminhão e passar por cima dele de novo, só de raiva! A mãe foi pro hospital, mas me informaram que ela recebe alta hoje e que está bem, por isto o pelotão volta para essa guerra sem fim.
Fonte:
André Issi Cidade:
Porto Alegre-RS-Brasil Fotos: André Issi Publicado: Debora Americo da Silva Date: 17/10/2007
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