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Aconteceu de 16 de julho a 2 de outubro de 2007, a Viagem de WindCar de André Issi, pelos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte da República Oriental do Uruguai. Confira a parte 9 do diário de bordo!
Rio Grande
13/08/07 - Eu fiquei tão desesperado para escrever antes de partir que acabei resumindo um pouco da acolhida maravilhosa que recebi de Henri, seus familiares e os de Julieta, sua esposa. Foi um fim de semana ultra-especial, assim como foram os dias que passei com eles durante a viagem do caiaque e da viagem para a Argentina de moto, ano passado. Muito obrigado amigos!
O Henri ainda foi buscar a câmara de ar no borracheiro e me deixou na Av. Atlântica, no centro do Cassino. Ali montei a bagagem e fui entre os eucaliptos até uma lan house mandar as fotos que não tive tempo de mandar, pois escrevi até as cinco da matina e levantei às sete, pois o coitado do Henri tinha que trabalhar e se atrasou por minha causa. Fiquei mandando fotos até às 12 h e depois fui para a praia.
A lan house ficava exatamente na esquina da Rua Porto Alegre, a mesma onde havia o "fantasminha", a casinha de madeira onde sempre passávamos as férias de verão em nossa infância. Não havia luz, o lampião era de querosene, o leiteiro trazia o leite em garrafas coloridas penduradas na sela. Coisas de High Lander! Duas pessoas ali vêm me ajudar e tiram fotos. Vejo a belíssima estátua de Yemanjá na chegada à praia.
- Tenente, o que está fazendo?
- Depositando flores para a santa.
- E desde quando o senhor é adepto de Yemanjá?
- Se ela é tão gostosa como essa estátua, sou adepto desde hoje.
- Pensávamos que como homem do mar o senhor preferisse as sereias.
- Tá louco? Só se eu fosse metade golfinho, fazer as coisas pela metade não é comigo!
Venta frio e forte, penso em sair amanhã, dormir numa pousada.
- O quê? Já pra peleia!
- Basta um final de semana e já viraram uns molóides!
Parto perto de 13 h e quarenta minutos depois chego aos destroços do navio Altair que naufragou em 1976. Tiro umas fotos e a praia se revela o melhor trecho que passei até agora. Ampla, limpa, firme e melhor, vento favorável. Mais adiante o vento foi diminuindo e tive que ir bordejando para pegar mais velocidade. O carro e a estrutura parecem bem, estrala aqui e ali, mas acho que é normal. No fim, estou no estilo patinete, pois ficou fraco demais.
- Senhor, o Imortal está depressivo!
- Ele não sabe mais se é carro a vela, patinete, carro de mão, carroça ou cavalo...
- Deixem-no, ele é adolescente e está buscando sua própria identidade...
- Mais queixas...
-O que é agora?
- O soldado sarcófago (barraca) reclama que todos o chamam de "baixinho"!
- É o que sempre digo, quando o pelotão não está de peleia começam as picuinhas!
As horas passam e vários riachos sem importância e um ou dois que parei antes para não me molhar. Aquela roupa "china" para chuva chupa tudo, deveria ser utilizada para coisas mais úteis como absorventes, por exemplo.
Em um dos riachos conheço Ernani. Mora em uma casa ali nas dunas e diz que o farol Sarita está a 40 km e que eu posso chegar lá ainda hoje. Todavia faltam só duas horas para findar o dia, vou tentar!
Depois outro homem se aproxima, pois a vela é visível de longe. Ele gesticula grosseiramente, quase impondo que eu deveria seguir em sua direção, mesmo quando eu sinalizo que vou em frente. Só me faltava um qualquer querendo dar ordens ao pelotão! A praia fica mole, vai diminuindo e o vento também. Como já vejo o farol, sigo puxando no final e, já no escuro, chego em linha com o dito cujo, mas ele está muito para dentro, já nas dunas.
Deixo o carro na praia e sigo no escuro em direção as duas dunas altas que têm árvores de pinus. Volto e arrasto o Imortal até a base delas e resolvo montar a barraca sem a lanterna, para aprender para uma situação de emergência. Não é que deu certo? O sarcófago até que ficou bem montado. Ô barraquinha baixinha! Náo dá nem de ficar sentado nela.
14/08/07 - Andei 60 km ontem, mesmo saindo só às 13 h. Agora são 8:18 h, escrevo sentado nas dunas tomando um sol para aquecer um pouco. Parto às 9:40 h com vento favorável e vou cruzando com lobos e gaivotas até que surge uma Toyota da marinha. É Axel, pensa que sou o Lúcio, amigo do Nardi e do Henri. É que Lúcio, além de professor de vela no Yacht de Rio Grande viaja em carros a vela do Nardi. Paro pra almoçar perto de doze horas e tento alimentar um lobo magro, mas ele recusa o peixe.
Depois sigo puxando, porque o vento parou total. Como deixei a calça china pendurada para secar na retranca, só fui perceber que a dita cuja caiu sei lá onde. Busco ou não? Melhor buscar, por pior que seja. Há uma neblina no ar e bastou correr seis minutos para não ver mais o Imortal. Que tempo esquisito. Vejo para o fundo mato de pinus e dunas não muito altas que não darão abrigo para o caso de vento ou chuva que estão previstos para hoje. Às 15:30 h, finalmente entra o NE e desisto de procurar local para me abrigar, pois vejo o farol Verga ao longe.
Chego rápido lá, recém são 16:44 h, mas é melhor me garantir. Arrasto o Imortal sobre as dunas e o farol tem uma porta na parte de trás. Melhor, está aberto. É uma base de concreto piramidal e uma torre de metal na parte superior. Está cheio de areia, mas é muito bom abrigo. Deixo o carro e a vela na duna em frente e coloco o plástico sobre a areia. No meio o saco de dormir e dobro o plástico por cima para reter ar quente e suportar mais uma noite fria.
Agora são 18 h, estou sentado dentro do farol Verga enquanto sopra um NE feio lá fora. O carro ficou na moita e ninguém vê lá da praia. O travesseiro inflável furou (como na viagem do caiaque) então vou usar uma garrafa de refri como travesseiro daqui pra frente. Forro com minha manta de lã e fica show!
15/08/07 - Está nublado e parece que vem chuva. São 7:47 h e não está tão frio, se bem que estou com o "kit" de dormir: duas meias, dois abrigos, camiseta, jaqueta de neoprene, dois blusões de lã, japona grossa (que estragou o fecho) e japona fina do Grêmio. Fora luvas e touca de lã, básico! stou com erupçóes cutâneas no dorso da máo direita; devem ser por causa da ração de guerra, conservantes ou mofo, sei lá!
- Senhor. Estas erupçóes apareceram naqueles exploradores que tentavam achar uma passagem entre o Atlântico e o Pacífico, próximo ao pólo norte.
- O que aconteceu?
- Os que tiveram sorte morreram antes, intoxicados pelas toxinas em alimentos enlatados. O navio ficou aprisionado pelo gelo por três anos, pois os verões foram muito rigorosos e não houve degelo.
No fim o navio foi destruído pela pressão do gelo e os que sobreviveram tentaram ir para o sul, rumo a uma estação baleeira arrastando enormes botes sobre o gelo. A comida acabou, houve casos de antropofagia e não sobrou ninguém para contar a estória, apenas evidências. Parece que o nome do navio era Endurance.
- Tudo bem, não te preocupes, pois os exploradores eram ingleses e o pelotão foi forjado no Rio Grande e agüenta muito mais que isso!
- Êta índio bagual! Gaúcho barbaridade!
- Senhor, podemos utilizar como enfermeiras aquelas "mulheres da vida" que acompanham o pelotão numa carroça velha (meu corpo).
- Quem?
- As irmãs Pedritas (pedras no rim) e as gêmeas, as Ernas (2 hérnias de disco).
- É verdade, todo pelotáo é seguido por "Chinas" e além da "especialidade" elas podem servir como enfermeiras...
-Vá chamá-las!
Ao puxar o imortal levei uns sustos, pois toda hora parecia que um carro se aproximava rápido, quase ao meu lado. Depois é que percebi: era o eco da rebentação batendo na vela. Parto às 9:40 h, não há vento e sigo puxando por uma hora. Paro para comer uma laranja e ao olhar para o horizonte fico de cara com as "peças" que essa imensidão prega aos olhos. Tu vês algo ao longe, parece uma pessoa, mas depois de avançar muito, percebes que não passava de uma gaivota.
Confundi uma estaca na duna com um farol. Vacas parecem casas, depois carros e finalmente, Vacas! Sigo em frente e numa duna ao longe vejo vários cachorros descendo e vindo pela praia em minha direção. Como não fico só olhando, deixo o facão à mão! Eles retornam para as dunas e vejo uma coisa esquisita ao longe, parece uma neblina branca, mas é um forte vento SW que chega de repente.
- Senhor, estamos sofrendo um ataque! Não conseguiremos avançar!
- Negativo, aqui a praia é larga e firme, temos espaço para orçar!
- Impossível, senhor!
- Para o pelotão isso não existe, sempre teremos um punhal na bota (carta na manga)!
E assim seguimos em frente, bordejando e avançando graças a praia larga e firme.
- Senhor outro ataque de índios, parece que são da tribo canídea!
- Calamos as baionetas (facão)?
- Negativo, acho que vi os chefes deles (pescadores) e não quero arranjar mais encrencas que já temos.
- Que fazemos?
-Lutem a soco! Acho que estes índios nos confundiram com algum carroção de colonos, por causa da lona que cobre a bagagem.
Cara, que inferno. Cerca de quinze cachorros correm a meu lado enquanto subo e desço a praia. Eles se aproximam dos dois lados e além de velejar tenho que me cuidar para não ser mordido. Quando o carro pega velocidade tento atropelá-los, mas os bichos são muito rápidos. Aquela zoeira nos meus ouvidos vai me perseguindo, irritando e despertando meu ódio assassino. Quando o líder deles se aproximou mais perto, acertei um soco que o derrubou e este embolou com outro que vinha logo atrás.
- Grande tiro tenente!
Ele voltou a carga e a estes se aliaram outros mais. Para meu azar a praia ficou mole, estreita e o carro atolava. Aproveitava para jogar areia e conchas, de preferência nos olhos. O vento SW cada vez mais forte me fez cometer um erro. O carro atolou antes de dar o bordo, eles vieram por cima e na ânsia de acertá-los, deixei a retranca subir e dar a volta com o cabo preso.
Resultado: quebrou a tala mestra da vela. Logo o pedaço pequeno furou a bainha da tala e ameaçava rasgar a vela. Fui em frente, os cornos ficaram para trás e como estava atolando direto além do risco de rasgar a vela, resolvi seguir puxando. Deito o carro para remover a vela. Ela estremece no chão como um possuído pelo "demo" em terreiro de umbanda. Dois coices a la pelotão e o bicho se acalma até que enrolo.
Acontece que com forte vento contra, mar subindo e sem parte firme, seguir em frente era só pra me ferrar. Resolvo almoçar na entrada de um riacho ao abrigo de uma pequena duna e decidir o que fazer. Para o sul o céu roxo e prenúncio de tempestade. Acampar ali era temerário, mas os pinus ficaram para trás e uma planície de areia e sem dunas era o que tinha para frente. Apenas tufos de capim colono e salgado. Que fazer? Resolvo utilizar o GPS pela primeira vez. Olhando o mapa dele e o que eu tenho calculei que minha única saída seria o farol Albardáo, mas ele estava há cerca de 12 km , eu teria só três horas, arrastando contra o vento e a areia mole, afora o fato que a partir das 13 h o mar sobe cada vez mais.
Que que tu achas cara? Se a gente agüentar arrastar sem parar chegaremos perto, mas se as forças acabarem vamos morrer na praia, pois se a tempestade nos alcança antes. Resolvi tentar! Eu não tenho escolha, é chegar ou chegar! Começo a marcha desesperada, atolando, me irritando e xingando o vento, o carro e tudo mais que se atravesse no caminho. Na beira da praia está mole, no meio também, entre as dunas pior.
Começo a ficar agoniado e não adianta simplesmente parar. Se o temporal me pega naquela parte estou ferrado. Sou obrigado a seguir mesmo sabendo que não vou conseguir. A tempestade chega antes ou minhas forças acabam. Depois de uma hora vejo o farol na bruma e o céu roxo por trás dele. Se o vento mais forte e a chuva me alcançarem antes, morrerei na praia. Não tenho mais forças!
- Pelotão! Cantem o hino farroupilha...
- Até a pé nós iremos...
- Não, esse não!
- Como a aurora precursora do farol da Divindade
- Foi o vinte de Setembro, o precursor da Liberdade.
- É isso aí bugrada. Não desistam!
Pela primeira vez na viagem estou agoniado, pois se não chegar a tempo vou me ferrar. Faço alongamentos, paro para respirar, estou nas últimas. Já vejo o farol há duas horas, mas falta mais de hora e meia.
- Alguém jogue um laço e traga esse maldito farol mais pra perto! No meio de tudo vejo um porco solitário na beira da praia. Pronto, além do extremo cansaço físico estou vendo coisas. Além disto, vários barcos de pesca sobem a costa a favor do vento, a menos de 1 km da costa. Estão fazendo arrastão. Lembro de Chico Preto, o amigo que ganhei na vila Quinta. Depois de 3,5 h de caminhada desesperada chego a frente ao farol que está bem para dentro, lá no meio das dunas.
Já passa de 18 h, escurece rápido. Deixo o carro e sigo a pé para o farol. Falo com Franklin e outro faroleiro. Eles dizem que posso ficar, tenho que arrastar o Imortal sobre as dunas moles. Vejo algo mais próximo da beira e pergunto o que é.
- É um container...
Se for bom, posso ficar lá?
- Como você quiser...
Vou a pé. A porta está aberta e virada para NW, abriga do SW. Por dentro tem furos na parede SW, mas o vento mudou para SE e dá para encarar.
Arrasto o Imortal até ali, monto a lona e o saco de dormir ao fundo do container e a chuva chega com tudo. Será que tem um santo me ajudando?
Antes que pense muito, desabo no chão e durmo. Estou no meu limite físico, quase estafa. Amanhã conserto a tala que quebrou e reaperto uns parafusos. Que dia!
Não foi nada, mas andei 30 km contra o vento. Dos 220 km que faltavam de Rio Grande já fiz 130 km . No total já foram mais de 700 km. Faltam só 90 km para o Chuí. A tripulação até já fez uma marchinha de carnaval:
- Hei Chuí, olha eu aqui, olha eu aqui...
Como algo e "apago"!
Fonte:
André Issi Cidade:
Porto Alegre-RS-Brasil Fotos: André Issi Publicado: Debora Americo da Silva Date: 17/10/2007
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