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Aconteceu de 16 de julho a 2 de outubro de 2007, a Viagem de WindCar de André Issi, pelos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte da República Oriental do Uruguai. Confira a parte 19 do diário de bordo!
23/09/07 - Acordo cedo, parece haver um carro com motor ligado, mas é o exército de Thor rugindo porque foi enganado pelo pelotão. É trovoada que não acaba mais. Estou com preguiça aliado ao fato de estar chovendo e saber que existe a rampa para os céus de Olímpia me esperando para chegar de volta a Imbituba.
- Doutor, como está o soldado TE?
- Senhor, depois de tanta pomada para cavalo ele não incha, relincha!
Fico deitado até mais tarde, tomo outro banho e inicio a arrumar as coisas.
Paul traz o café, eu até já tinha comido minha gororoba, mas pensando no esforço que farei, resolvo aceitar. Paul é filho de dinamarqueses e Paula é tão simpática quanto ele. Sua filha Camila é linda, assim como a amiguinha dela, filha de holandeses. Além da pousada, aqui tem uma guarderia de wind e kite surf, esporte que Paul pratica. Despeço-me de Paula e sigo com Paul para a praia. Parou de chover e há um fraco vento NE que pára justo na hora que vou parti. Corno!
Chega Lars, irmão de Paul e ele diz que amanhã entra vento sul forte.
Droga, teria que chegar hoje em Laguna, mas já são quase 14 h...
Resolvo seguir e dormir onde escurecer. Sigo puxando, certo que mais bons amigos o pelotão acaba de conhecer. O vento se manifesta fracamente e resolvo andar no "patinete" para tirar a "virgindade" desta praia. Passa um cara correndo pouco depois, é John, um americano que puxa conversa por causa do carro. Depois vejo as baleias de novo e subo o barranco para tirar umas fotos com o Imortal em primeiro plano. Vejo a imensa cauda, chafariz e até a cabeça quadrada que uma coloca para fora. Acho que são cachalotes! De certeza eu vi um filhote ao lado da mãe. Baleias grandes havia quatro.
- Pelotão! Sentido!
- Preparem-se para a peleia!
Sigo em frente, subo o barranco já na praia da Ribanceira e chegam Leonel e Cláudia que moram ali e param para conversar enquanto chove.
Eles ficam maravilhados com a viagem e convidam para voltar um dia e visitá-los. Sigo em frente e começo a subir a ladeira íngreme. Que dureza!
Não sei se estou molhado da chuva ou do esforço para escalar aquilo. Bem ou mal o pelotão chega lá no alto. Há uma neblina que não permite ver muito além. No GPS deu 180 m de altura, mas pareceu ser 1180m.
- Soldados, do alto dessa montanha 1650 km vos contemplam e 350 km vos esperam!
- Senhor, estamos confusos com essa estória de milhas náuticas, milhas terrestres.
- Porque não é tudo em quilômetros?
- Por causa dos ingleses. Eles pensam que são diferentes, andam pela esquerda, o peso não é em quilos, é em libras. Profundidade é em pés e por aí vai...
- Esses caras são uns "atravessados"!
- E as mulheres também são "atravessadas"?
O Tenente Issi esteve por Londres e retruca:
- Elas são normais, apenas a diferença é que depois de tudo elas não fumam um cigarro, preferem tomar um chá...
- O pior é que eles espalharam seus costumes pelas colônias...
- Sim, mas quem inventou o "viagra" não foram eles, foram os indianos...
- Tu deve estar falando naquela estória de encantar a serpente, mas aquilo não funciona direito...
- Não?
- Claro, como é que o vivente vai transar e tocar flauta ao mesmo tempo?
- Bueno, então tem que ser o marido e um amante...
- Resta saber quem vai tocar a flauta!
- Chega seus inúteis, ainda temos que descer o monte da Agonia e chegar a praia.
Está soprando vento do norte. Se conseguir chegar lá e o chifrudo do vento não parar posso ir um pouco além do que quero. Amanhã seguir contra o vento sul forte que virá será um problema. O problema é que chego a praia só depois das 17 h. Nublado como está escurece antes. Encontro Gelson de novo. Despeço-me do amigo pela terceira vez. aliás, todos os pontos por onde passar agora será pela terceira vez. Exceto Ibiraquera e La Coronilla que foram os extremos e Quintão, pois passarei e retornarei pela quarta vez. Ali, se Deus permitir, encerra a viagem, depois de 2000 km. Armo a vela e sigo velejando devagar rumo a Itapirubá. Já está escuro, desarmo a vela, atravesso a ponta pelo povoado e rearmo do outro lado.
- Senhor, como vamos resgatar o sargento Fogareiro no escuro?
- Ele ficou ali até hoje. Um dia eu venho de moto e o resgato...
Todos ficam tristes, gostariam de levar consigo os restos mortais de um companheiro de mais de 20 anos de peleia. Sigo em frente, já está difícil para navegar no escuro, não tem como saber onde fica o local no escuro e nas dunas. Vou em frente, mas o olhar não deixa de perscrutar as dunas na vã esperança de poder encontrar meu companheiro. Depois de um tempo acho que vi algo. Saio da beira e atol. Resolvo deixar o imortal ali e subir um pouco mais. acho que vi um poste e umas dunas altas. Sem ver direito adentro em um banhado e me enterro na areia mole, mierda! Continuo em frente e reconheço uma das dunas.
Adiante tem outra alta então tenho que dobrar a esquerda para encontrar aquela onde montamos a barraca e deixamos o sargento. Cara, consegui! Chego mais perto e consigo encontrá-lo no escuro. Ao voltar para o Imortal o resto do pelotão urra de felicidade. Amarro na parte de trás e volto para a beira. O vento parece ter diminuído. Agora eu fiquei mal, pois vejo clarões no céu e algo ruim vem por aí. Pior é que será bem na região de dunas sem abrigo como foi da outra vez. Sigo velejando e "bombeando" a vela. Assim vou seguindo e começo a rodar pela parte molhada, pois ali reflete um pouco a luminosidade da lua que fica encoberta por nuvens rápidas. Vejo luzes ao longe. É um povoado antes da ponta do Gi. Os clarões estão mais freqüentes.
- Senhor temporal a frente.
- Teremos que desmontar o mastro!
- Negativo, toquem o máximo que puderem. Ficar sem abrigo no escuro e na tempestade pode ser pior.
Consigo chegar na ponta do Gi, atravesso a estradinha até o outro lado e retorno a praia. Vejo as luzes longínquas de Laguna e o temporal se aproximando pelo sul. Situação parecida com a do farol Albardão em menor escala. Tenho que chegar pelo menos até um pequeno costão antes da última praia, ali fica só há três quilômetros da Barra e posso seguir puxando. Virou um jogo enervante, pois mesmo o vento tendo aumentado um pouco minha aproximação é enervante, pois além dos relâmpagos, escuto os trovões.
- Homens, huevos!
- Sigam em frente e mantenham a lança do Imortal apontada para os inimigos do céu.
- Senhor, eles vão nos transformar em torresmo!
Finalmente, por volta de 21 h o pelotão chega ao destino. Desarmo a vela e arrasto o Imortal para cima. Há um vigia das casas ali. A cachorrada dele se põem por cima, mas ele os chama e me ajuda a levantar o carro sobre a barreira que tem ali. Sigo puxando pelo asfalto naquela parte perigosa e estreita agora no escuro. Muitos carros travam bruscamente, mas deu tudo certo. Desaba o maior temporal e sigo pela chuva. Quando passo pela pior parte, apesar das trovoadas e relâmpagos, vou cantando Sing in the rain e chutando as poças de água.
Como é bom ganhar! O vento parou total e começa a vir do sul. Sigo até o camping, deixo o carro sob um telhado (não tem ninguém) e como não chove mais vou comer algo para comemorar. Tchê, fui longe para encontrar algo aberto àquela hora e entra um violento temporal acompanhado de vento fortíssimo do sul. Tenho que ficar na lanchonete por horas até dar uma leve diminuída na chuva e voltar ao camping onde dormi no chão, ao lado das pias como da outra vez. Amanhã o Zinho chega e eu fico em um quarto.
24/09/07 - Fui para um quarto, levo o Imortal e o deixo em uma oficina mecânica para trocar os rolamentos e seguir viagem. Parece que só vão trocar amanhã. Agora são quase 19 h e estou terminando o diário aqui no centro. Amanhã provavelmente eu sigo. Tchê, esse tal de Thor é um chifrudo mesmo. Tentou matar o pelotão a choque, mas para desafiá-lo resolvemos velejar até às duas da matina em pleno temporal. Ontem também viajamos de noite, mas fomos premiados com a lua nascendo cor de fogo no mar e os soldados de Thor (nuvens) fugindo para o norte.
Trecho Laguna - Torres
25/09/07 - Laguna
A MALDIÇÃO!
- Senhor, essa guerra parece uma maldição!
- Mais ou menos...
- O "Espírito que Manda" ficou irado quando o pelotão foi de moto com mil e seiscentos dólares dentro da bota para pagar o Imortal...
- O que aconteceu?
- Os dólares voaram de dentro da bota, nota por nota!
- Fomos amaldiçoados e só sairemos dessa quando pagarmos um quilômetro por dólar perdido.
- Mas já andamos mais de 1650 km!
- A maldição quer que paguemos com juros e correção monetária!
- Além disto, em nossa ausência Thor, o chifrudo, atacou o Rio Grande e vários municípios estão em calamidade pública.
- As ordens são para voltar ao Rio Grande e destroçar o inimigo!
- Senhor, eles tentaram nos atacar aqui, mas foram derrotados.
- Eles não sabiam que o Imortal tem uma lança apontada para o céu. Ela furou a barriga do inimigo e eles sangraram até morrer...
- Além disto não encontramos as descendentes de Anita.
Sigo para a mecânica de Rud que tem cavalo e me orienta para uma futura viagem. Eles trocaram os rolamentos das rodas, mas o bagageiro está rompendo na solda anterior. Nova solda e a constatação de que havia rolamentos na guia da roda dianteira. Havia, mas agora só restou o parafuso e uma tremenda folga. Azar, o pelotão tem que voltar ao Rio Grande para se livrar da maldição e combater o exército de Thor! Volto ao camping e depois de despedir-me de Zinho e Flávio, retorno para a balsa.
O pior é que a mecânica era perto da balsa e o camping perto da barra. Foi um vai-e-vem do cão. Agora é como gaúcho gosta, tudo "TRI", ou seja, todos os lugares por onde passar será pela terceira vez! Atravesso a balsa e às 12:30 h estou do outro lado. Tenho vento sul pela frente, mas o pelotão já está acostumado.
- Senhor, não é justo! Esse desgraçado sempre se vira quando o pelotão muda de rumo!
Paro em um povoado para almoçar, pois estou cadavérico e o esforço será grande pela estrada contra o vento. Na lagoa de Santo Antônio tiro umas fotos de barcos pendurados sobre a água em pequenas palafitas que lhes servem de abrigo. Eles são suspensos por rústicas roldanas de madeira. As horas passam, encontro outros moradores que dizem que tratores abriram a barra do Camacho, então é melhor seguir em frente pela estrada para cruzar pela ponte, já em Camacho, bairro de Jaguaruna. Passo pela lagoa da Cigana e logo chego a ponte. Antes dela há uma lagoa e uma placa dizendo para preservá-la, pois ali vive um jacaré.
Aqui passei na volta de bicicleta pela América do Sul e esse povoado e a ponte não existiam. Quase perdi a bicicleta na travessia por dentro da água.
Mando notícias pela net e depois sigo pela rua a beira das dunas e chego a uma casa, a última da rua. Ali tem uma baita varanda. Coloco o plástico no chão e deito por cima. Cansei brody! Foram no total mais de 25 km puxando o Imortal no vai-e-vem de hoje.
26/09/07 - Acordo cedo, pois uma corruíra atrevida pousou nos meus cabelos e esgravata atrás de aranhas e piolhos. Arrumo tudo, como a granola e chega um senhor. Ele já chega de sola:
- O senhor não pode ficar aqui!
Como o pelotão já sente o astral das pessoas, adota a tática do bateu levou:
- Não, eu vou ficar aqui olhando aquele pé de pinus crescer!
- Tu não tá vendo que eu já estava de saída?
- Tu és o dono?
- Não, mas eu cuido...
- Se cuidasse, estaria aqui quando eu cheguei à noite!
Ele entra na casa e observa se não falta nada.
- Vê se eu não peguei a tv para assistir no carro a vela!
Ele me fuzila com os olhos e devolvo o olhar pro chifrudo. Arrumo minhas coisas e sigo para atravessar as dunas. Lembro de certa vez quando eu, o Bello e o Rojas resolvemos seguir pelas dunas desde a Lagoa da Conceição até a praia da Joaquina. Em certo momento o Bello falou que tinha treinado nos fuzileiros a caminhar pelas dunas:
- Querem ver?
Eu e o Rojas, já conhecendo o nosso amigo, dissemos que não precisava!
O Bello começou a balbuciar:
- Eu preciso, eu preciso.
E o cara se foi dunas afora para "demonstrar" a eficiência de seu "passo ninja". Diz a lenda que foi encontrado semanas mais tarde. Ele caminhou até bater no muro do Grupamento de Fuzileiros Navais, em Rio Grande onde desmaiou. Quando despertou passou a vagar pelas dunas e a gritar em voz alta:
- Eu amo a minha mulher! Eu amo a minha mulher!
Quando soubemos do paradeiro, fomos resgatá-lo em Rio Grande. Hoje ele é clinico geral na polícia militar e no centro comercial de Campinas.
- Senhor, esses seus amigos médicos são meio "gira". Um chuta a parede e destronca os dedos, seu irmão adora "guerra de bugio", faz necessidades na mão e joga nos outros... Agora esse daí!
- Mas ele tem um amigo médico "normal", é o Dr Verdi, dermatologista...
- As mulheres sempre dizem que ele é educado e não olha para outra mulher que não seja sua esposa. Sequer faz comentários...
- Esse cara é um mau exemplo, pois quando dizemos que todo homem olha ou comenta elas logo dizem:
- O Verdi não olha!
- O Verdi não comenta!
Certa vez, em uma festa de despedida, resolvemos fazer um teste definitivo. Eu ficaria conversando com o Verdi sobre um programa de prevenção de AIDS que ele estava desenvolvendo e pediríamos para uma amiga passar ao lado. Já tínhamos câmaras de alta velocidade para registrar o momento e desmascarar esse homem "reto"! A Aninha era ma-ra-vi-lho-sa e conseguimos que concordasse em fazer um topless e passasse a nosso lado no momento que eu estivesse conversando com ele:
- Por favor Aninha, é pelo bem da ciência!
Eu já estava preparado para o momento, pois deveria cuidar o Verdi para ver se ele movia os olhos para o lado. Coloquei viseira de cavalo e óculos escuros. Quando a Aninha passou, três colegas ficaram com problemas permanentes de torcicolo, um quase ficou tetraplégico. Cara, ele continuou falando do programa de prevenção e não desviou o olhar. Depois fomos olhar na filmagem em alta velocidade e só aí vimos que ele moveu o cantinho do lábio.
- E qual foi a conclusão?
- Foram duas:
- Ele não é desse planeta e certamente não é do planeta Vênus!
É por isto que todo médico não conversa muito com os pacientes, eles têm medo de mostrar a sua verdadeira personalidade! Quando chego a praia, o vento ainda não surgiu e resolvo seguir puxando. Na praia de Figueirinha encontro pescadores recolhendo a rede e Gabriel quer de toda a maneira que eu fique e almoce com eles.
- Me faria muito gosto, diz ele!
Digo que não é desfeita, mas eu tenho que aproveitar que o mar está baixo e seguir, pois aqui é região de dunas altas e o mar batia nelas quando eu passei dia 20. Sigo em frente e o vento fica um pouco melhor e sigo no patinete, velejando e puxando quando atola. Às 15 h chego a barra do rio Torneiro. Desmonto o mastro e sigo até a casa de meu amigo Rogério. Ele não está e tenho que esperar. Uma menina aparece com seu filhinho. Coloco o guri no Imortal e o puxo. Ele fica fascinado e não quer descer. Quando chega o Rogério, a menina e seu filho seguem junto no caíque. Já do outro lado sigo em frente com vento de popa fraco. Passo pela plataforma norte de Rincão e ali vejo algo que não queria ver: Um lobo marinho está tendo convulsões na areia. Está morrendo e não posso fazer nada.
Merda! Há um círculo pequeno onde ele se arrastou e outro maior, crivado de patas de abutres. Aquilo indica que eles se aproximavam para bicar os olhos do lobo e ele girava para se defender. A primeira coisa que os abutres comem das carcaças são os olhos e às vezes eles não esperam que o animal morra para iniciar o banquete. Ele está virado de barriga pra cima e os olhos raspam na areia. Tem espamos semelhantes a soluços e move a nadadeira para cima sistematicamente. Quando tento desvirá-lo, ele reage. Tomara que ele morra esta noite antes que os abutres voltem amanhã!
Sigo meu caminho, olhando para frente tristemente. Apesar de tudo admiro o bichinho que está lutando até o fim. Peleando hasta la muerte! Espero que assim seja comigo, embora eu acredite que nosso destino já esteja escrito! Mais adiante passo pela segunda plataforma. Um homem correu quase mil metros com seu cachorro para me alcançar enquanto desmontava o mastro para cruzar a plataforma. Era seu Ciso, que queria de todas as formas que eu fosse dormir em sua casa. Foi ele quem me levou lanche e pomada para o tornozelo quando dormi na vinda. Novamente fiquei constrangido, mas o pelotão tem que aproveitar o vento favorável, mesmo que seja fraco. Ao anoitecer chego a barra do rio Araranguá. Sigo velejando subindo a foz até que fica estreito demais e tenho que seguir puxando no escuro.
Finalmente chego na Ilha e ali revejo meu amigo, seu Alvacir, aquele do acidente do caminhão. Janto com eles e começa a chover forte aliado às rajadas de vento. Tomo dois copos de vinho e um delicioso arroz com guisado e ovo que dona Raquel preparou. Fico assistindo aos noticiários, já são 21:30 h, a chuva tocada a vento aperta e resolvo seguir pela noite rumo a balsa. Ele se nega a me cobrar e comenta com seu Schimidt:
- Isso é que é coragem!
Como se o verdadeiro corajoso ali não fosse ele, que quase morreu em um acidente terrível e reconstruiu sua vida. Isso sim é que é coragem! Saio dali certo de que ganhei um grande amigo! Assim estarei do outro lado quando amanhecer. Eles disseram que a última é às 23 h. Sigo pela estrada no escuro, parece que aquele vinho me tirou o sono e o cansaço. Lembro das folhas de coca que usei para subir a cordilheira dos Andes de bicicleta. Todos diziam que tirava o cansaço e ajudava a respirar melhor na altitude. Não funcionou e troquei as folhas por duas peles de ovelha que um campesino recém havia carneado. No dia seguinte todas as moscas da cordilheira me seguiam.
- Soldados, não pisem onde brilha. Ali é água ou lama!
Chove, pára e assim vou em frente passando por povoadinhos onde os únicos despertos são os cachorros que latem sem parar. Às 22:55 h chego a balsa. Cruzamos o rio e sigo puxando para o Morro dos Conventos.
- Senhor, não seria esse o "Morro dos Ventos Uivantes"?
É uma tempestade que se aproxima e a chuva castiga o pelotão que se perde. Queria um atalho para a praia Pai Querê e acabo tendo que subir o morro e descer naquela lomba gigante... Mierda, fiz uma volta gigante e não serviu para nada! É meia noite e começo a longa descida para a praia. Quero dormir na varanda de uma casa, mas ali não parece legal. Sigo pela praia e subo quando vejo outro povoado. Não encontro nada de acordo, tem muita gente por aqui e vou me incomodar.
- Droga, porcaria!
- Voltem para a praia, armem a vela e sigam velejando!
Um baita temporal, tudo encharcado e perto de duas da matina o pelotão segue em campanha desde às oito da manhã. Pelo menos o vento está bem forte e vamos passando por atoleiros e saídas de riachos sem fim. A briga está tipo assim: peleia de foice no escuro! Consigo desviar das estacas de redes e avançando bem rápido. Resolvo seguir assim até o amanhecer, mas uma visão pavorosa de uma tempestade elétrica me deixa sem saída. Não sei onde estou, mas vejo uma casa na beira que me pareceu familiar. Volto e percebo que foi ali que eu e o Luigi dormimos no auge do inverno (Arroio do Silva). Naquela noite fez 4º abaixo de zero ali na serra ao lado.
- Senhor, ataque aéreo!
- Procurem uma trincheira e agüentem!
Arrasto o Imortal, desmonto a vela e a tempestade fica mais forte ainda. Vejo parelhas de barcos de pesca seguindo para o sul enquanto raios e trovões iluminam tudo como se fosse dia. Esses caras que trabalham em traineiras devem tener una pelota a mas, pois enfrentar ondas e tempestades em alto mar não é para qualquer um.
Fonte:
André Issi Cidade:
Porto Alegre-RS-Brasil Fotos: André Issi Publicado: Debora Americo da Silva Date: 23/10/2007
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