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De Março a Agosto de 2007, Eduardo Feijó botou o pé na estrada e rodou o mundo. Confira a parte 6, no Nepal, desta grande aventura!
Katmandu, 29/04/2007 - 20h10 - O principal motivo que traz o viajante para o Nepal são as suas montanhas. Os picos mais altos do mundo estão aqui, como o Everest, o Annapurna e vários outros do Himalaia. Mas o que mais chamou a minha atenção nestes primeiros dias são os magníficos templos que encontrei. No Nepal há uma curiosa combinação entre o Hinduismo e o Budismo. Mas como não sou um especialista no assunto, prefiro não tentar descrever com palavras. Ficarei somente com o registro fotográfico.
Você deve estar perguntando: Edu, você não deveria estar em um trekking neste momento? Sim, deveria... Porém, os ventos fortes impediram que o pequeno avião que me levaria até o inicio da trilha decolasse de Pokhara (a foto ao lado é do pico Machhaouchhere, observado do aeroporto). O pior é que não dá para saber com antecedência se o vôo será realizado ou não. Tem que esperar no aeroporto até que o piloto confirme a decolagem. Neste dia a espera foi de 4 horas, frustrando a mim e a mais 6 passageiros. Vou explicar melhor: o roteiro de trekking considerado o melhor em relação à paisagem e à diversidade cultural é a volta dos Annapurnas. Este roteiro leva 18 dias. Quem não dispõe deste tempo pode fazer a metade do circuito e tomar um avião de retorno. No meu caso, como dispunha de apenas 4 dias, optei por ida e volta de avião.
Como eu não tinha mais tempo disponível resolvi voltar para Katmandu, e tive que me contentar com as fotos da janela do avião. A companhia aérea reembolsou todos os gastos. Quem me conhece sabe que eu adoro paisagens de montanha, e talvez possa imaginar o quanto eu senti não ter conseguido fazer esta trilha. O que me deixou menos frustrado é que esta não é a melhor época para andar pelas montanhas, pois o céu não é tão claro quanto em outubro e novembro. Ou seja, é um lugar para eu voltar no futuro.
Voltando a falar dos templos, basta que você ande meio quarteirão em Katmandu para encontrar um templo, um santuário ou uma escultura. A arquitetura é peculiar e muito bonita, embora o estado de conservação nem sempre seja o melhor. O Nepal é um país muito pobre e você percebe facilmente a condição precária dos seus habitantes. Aliás, andar pelas ruas é sempre curioso, pois motos, carros, rickshaws (foto ao lado) e pedestres dividem um espaço minúsculo, e a calçada, quando existe, é ocupada pelas lojas. O assedio dos vendedores é muito menor do que no Egito, e isto torna as caminhadas muito mais agradáveis. De uma forma geral os preços são bem em conta para o padrão brasileiro, e com R$ 35 por dia é possível conseguir um hotel bem localizado, simples e limpo, e fazer duas boas refeições.
O meu restaurante favorito em Katmandu é o Helena, nome da minha mãe. O restaurante é curioso pois fica espalhado em 8 andares! Para almoçar o melhor ambiente é a cobertura. Para jantar o melhor é ficar nas mesas com almofadas, onde você pode tirar o tênis e ficar a vontade. A luz de velas não é somente para dar um clima romântico, mas principalmente por que falta energia elétrica quase todo dia. Uma das melhores coisas em Katmandu é que você não depende de transporte para fazer os passeios. O táxi somente é necessário para ir ao aeroporto ou para visitar alguma cidade nas proximidades. Este é um dos motivos pelos quais prefiro visitar cidades menores (tenho que me preparar psicologicamente, pois em breve irei para Delhi, com mais de 13 milhões de habitantes).
Andei até a praça Durban, no centro de Katmandu, onde fica o antigo palácio real (sim, o Nepal é uma monarquia) e uma série de belas construções. Encontrei um bom local para fotografar as pessoas. Infelizmente, como a conexão com a internet é ruim por aqui, você terá que aguardar um tempo até que eu consiga carregar as fotos. Hoje fui visitar o Templo de Swayambhunath, construído em 1646 no alto de uma colina, muito bem preservado e com um ótimo visual de Katmandu. Umas das coisas curiosas deste templo é que há dezenas de pequenos macacos que ficam circulando livremente. Há várias de estátuas espalhadas ao redor do templo.
Ah, esqueci de falar: o fuso horário no Nepal é 8h45 adiantado em relação ao Brasil. Ou seja, enquanto eu escrevo este texto antes de dormir você está almoçando no Brasil.
Delhi, 25/04/2007 - 01h30 - O vôo de Londres para Delhi durou 8,5 horas e foi muito tranqüilo. Eu tinha três poltronas a minha disposição! Como o vôo foi diurno aproveitei para ler o Lonely Planet do Nepal do inicio ao fim. Umas 300 paginas. Ao chegar no aeroporto em Delhi o avião teve que esperar na pista durante uma hora até conseguir um terminal para desembarque. Esta é a Índia! O fuso horário em relação à Londres é de +4,5 horas. Desta forma estou 8,5 horas adiantadas em relação ao Brasil. O meu vôo para Katmandu no Nepal é amanha pela manhã, então escolhi um hotel próximo ao aeroporto.
Ao sair da área de desembarque um sujeito bem aparentado me ofereceu um táxi. O preço era de 700 rúpias, cerca de R$ 30. Eu já sabia que o preço seria de no máximo 150 rúpias. Quando eu reclamei, ele reduziu para 600, então eu ofereci 100. Ele desistiu e foi embora. Fui até o balcão de táxis pré-pagos e paguei as 150 rúpias. Como eu sabia o valor do táxi? Fácil, uns dias antes eu havia enviado um e-mail ao hotel para me informar. Embora o hotel seja realmente muito próximo ao aeroporto, é barato e bem simples. Muitas pessoas já haviam me falado sobre os hotéis baratos na Índia, e este não é diferente. Há poeira espalhada pelo quarto e o chuveiro não tem água quente. Mas não terei problemas para tomar um banho frio, pois estamos numa época de calor.
Katmandu, 04/05/2007 - 23h20 - Hoje tem lua cheia! Estou no ponto mais alto de Katmandu para fotografá-la. Enquanto isso, eu observo o por do sol atrás das montanhas. Essas pequenas coisas me dão muito prazer. Hoje mal me recordo da frustração por não ter feito o trekking do Annapurna. Por outro lado, tendo mais tempo disponível, aproveitei para fazer os passeios em um ritmo mais lento. Para que vocês entendam melhor a minha rotina:
A) Durmo umas 7 horas por dia. Acordo por volta das 9 da manhã quando o passeio é por minha conta. Quando é com um grupo, este horário é mais variável. Para o do balão, por exemplo, acordei às 5 horas;
B) Os passeios duram entre 6 e 8 horas, contando os deslocamentos e a própria visita. Normalmente aproveito a luz do dia ao máximo para fotografar;
C) No hotel seleciono as fotos uma a uma e elimino as que eu não gosto. Coloco legendas em quase todas as escolhidas. Anoto no meu caderno os principais acontecimentos do dia. Devo gastar umas 2 horas para isto;
D) Em média, a cada quatro dias releio as anotações e escrevo o texto do blog. Seleciono as fotos que ilustrarão o texto. Reviso o texto para as ultimas correções e alterações. Mais umas 2 horas, no mínimo;
E) Normalmente gasto umas 2 horas por dia na internet para escrever no blog, carregar as fotos, responder aos e-mails, acessar o home banking e pesquisar informações sobre os próximos passeios. Dependendo da velocidade da conexão muitas vezes não é possível fazer tudo isso no mesmo dia. Cada mudança de cidade envolve encontrar um novo local para usar a internet. Nem sempre a primeira escolha é a melhor;
F) Gasto mais 1 hora, mais ou menos, para planejar os próximos dias. Isso envolve o resultado das pesquisas na internet e a leitura do Lonely Planet. Quanto mudo de país estudo um pouco da historia e da geografia antes de viajar. Faço um esboço do roteiro dos próximos dias. Detalho tudo o que tenho que fazer no dia seguinte e anoto no meu caderno;
G) Quase diariamente tenho alguma ação burocrática para resolver, como por exemplo, comprar ou confirmar os bilhetes aéreos, os de trem, reservar hotéis e sacar dinheiro;
H) Além de tudo isso, tenho 2 ou 3 refeições por dia, faço supermercado, resolvo as minhas necessidades de toalete, lavo a minha roupa a cada 15 dias, corto o meu cabelo a cada 3 semanas, carrego as baterias do notebook e da máquina fotográfica, e outras coisas das quais não me lembro neste momento;
I) Os dias de viagem têm uma rotina própria que é determinada pelo horário do meio de transporte. Isso envolve refazer a mala (é um verdadeiro quebra-cabeças, que se eu não monto corretamente acaba sobrando alguma coisa de fora), conseguir uma forma para chegar ao aeroporto ou à estação de trem (especialmente quando os horários são de madrugada), trocar o dinheiro que sobrou por US$ e toda a burocracia de um aeroporto.
Não posso reclamar desta rotina, afinal de contas eu estou fazendo coisas que gosto. Além disso, cada lugar que visito tem características próprias que faz com que a rotina não tenha cara de rotina. Como eu não tenho final de semana ou feriado, fazer as coisas de uma forma mais lenta acaba se tornando um prazer adicional. Após voltar de Pokhara visitei as cidades de Patan e Bhaktapur, ambas com lindas construções históricas que demonstram o talento dos arquitetos nepaleses. Gostei mais de Patan. Além de ser ficar bem próxima a Katmandu (uns 5 km), ela possui um fantástico museu que, por meio de estatuas e outros objetos, apresenta o hinduismo e o budismo de uma forma bastante interessante. E o que é melhor, não há nenhuma restrição para fotografias.
Este museu foi construído na década de 90 com o apoio de uma instituição austríaca, quando o antigo palácio real foi adaptado para as necessidades de um museu moderno. Isso mostra que é possível manter os objetos históricos em seu local de origem, em um ambiente bonito e agradável, e que gera receita para os paises mais pobres. O pessoal do Museu Britânico deve achar que eu estou fazendo campanhas contra eles. O que não deixa de ser verdade! Vou pesquisar na internet se há algum movimento neste sentido.
Sobre Bhaktapur não posso falar mal, mas o passeio foi meio cansativo. Primeiro por causa da negociação com os taxistas aqui em Katmandu. Para você ter uma idéia eles pediam até 1.400 rúpias nepalesas (R$ 37,00) ida e volta. No fim, depois de falar com vários deles, consegui fechar em 600 rúpias. Como eu tenho saudades de um taxímetro! O segundo motivo foi causado por mim mesmo. Ao seguir o roteiro a pé sugerido pelo Lonely Planet, que passa por túneis e passagens estreitas, acabei me perdendo no meio da cidade. Como sou teimoso, tentei encontrar o caminho sozinho e acabei no meio de um labirinto com construções todas muito parecidas. Nenhuma placa. Não senti medo, pois os nepaleses têm uma cultura de respeito aos viajantes. Passei por lugares que provavelmente nenhum turista passaria. Depois de relutar bastante, perguntei para um rapaz com cara de que entendia alguma em inglês e ele me ajudou a achar o caminho de volta.
O terceiro motivo é que depois de visitar tantos templos fica difícil encontrar alguma novidade. Portanto não fiz tantas fotos em Bhaktapur. Na volta gastei um tempo para planejar a minha viagem pela Índia. Exceto a Renata e a Silvia, que falam maravilhas de lá, todos os demais, incluindo os nepaleses, me dizem que não gostam muito da Índia. Decidi ficar o mínimo em Delhi e vou direto para Jodhpur, no sul do Rajastão. Espero que nas cidades menores eu tenha uma melhor impressão de lá. Mas nada melhor do que descobrir por conta própria! Semana que vem eu conto mais sobre a Índia. Decidi aproveitar meus últimos dias no Nepal para fazer um trekking de 3 dias e 40 km. Atravessei uma região de montanhas com altitude variando entre 500m e 2.100m (insignificantes se comparadas com o Himalaia). O único jeito de fazer esse trekking é com a ajuda de guias.
Esse trekking passa pelos povoados de Nagarkot e Dhulikhel. Entre eles, fica a estupa de Namobuddha, um importante centro de peregrinação dos budistas. Por obra do acaso, era o aniversario de Budha quando chegamos ao local. Havia centenas de peregrinos fazendo as suas orações. Mesmo sem ser budista pude acender uma vela em nome da paz. Foi um momento emocionante estar no meio daquela comemoração. Por respeito, evitei tirar muitas fotografias. O nosso grupo era formado por: Gaurav, o guia principal, budista, 22 anos, e muito profissional (caso alguém necessite de um guia o e-mail dele é megaurav1@hotmail.com). Em seguida vem o Carlos (o verdadeiro nome dele é Mahesh, mas como falava espanhol foi rebatizado desta forma), 25 anos, hinduísta, também guia e o mais engraçado de todos. Do meu lado direito aparece a Jenny, americana, 25 anos e que mora a 2 anos na China. O ponto alto do grupo foi o momento karaokê, onde cada um teve que cantar e gravar uma música de sua escolha. Escolhi A dois passos do paraíso, da Blitz.
Com o céu limpo seria possível ter vistas panorâmicas do Himalaia em diversos pontos do percurso. Missão impossível, nada de céu limpo. Por outro lado, o caminho atravessa pequenos vilarejos, com plantações de batata e arroz. As crianças nos olham de forma curiosa. O tempo todo nós falamos hello e namaste para eles. O inglês é obrigatório nas escolas a partir dos 7 anos. Hoje é a minha última noite por aqui, e espero ter a oportunidade de voltar novamente para o Nepal. Nos vemos na Índia!
Fonte:
Eduardo Feijo Cidade:
Katmandu - Nepal-EX-Nepal Fotos: Eduardo Feijo Publicado: Debora Americo da Silva Date: 07/11/2007
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