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De Março a Agosto de 2007, Eduardo Feijó botou o pé na estrada e rodou o mundo. Confira a parte 11, na Indonésia, desta grande aventura!
Ubud, 09/06/2007 - 12h00 - A primeira coisa que eu fiz em Bali foi conhecer a praia de Kuta. Praia larga, comprida, ondas boas para o surf. Quem me conhece sabe que eu adoro praia, mas não gosto muito de entrar na água. Observo o movimento durante horas. Surfistas iniciantes que fazem aula. Crianças que empinam pipa. Garotos que jogam futebol. Pessoas que correm enquanto outras simplesmente recebem massagem.
Um rapaz se aproxima e pergunta de onde eu sou. Pensei - o que será que ele quer vender? Respondo e volto a fotografar. Ele conta que trabalha em um restaurante. Pergunta o que eu faço, se eu sou jornalista, como é o clima no Brasil, se as pessoas têm tantos pêlos como eu. Achei estranho, mas havia lido no guia que eles têm o costume de fazer essas perguntas por simples curiosidade. Resolvi deixar a conversa prosseguir. Qual é a minha idade, se eu sou casado (respondo que sim e que tenho 2 filhos), diz que tenho olhos bonitos. Para com isso! Digo que preciso fotografar e me afasto.
No dia seguinte deixo Kuta e sigo para Ubud, distante 33 km e que fica no interior da ilha de Bali. Na estrada é possível observar a mudança da paisagem: plantações de arroz por todos os lados e vários ateliês. Há anos Ubud é considerada a capital cultural de Bali. A pousada na qual estou hospedado fica nos fundos de um ateliê. As portas, os quadros, as janelas, os móveis, toda a decoração é de bom gosto. Há muitas árvores e o tempo todo eu escuto o canto dos pássaros. E olha que estou há apenas uns 500 metros do centro da vila.
Visitei 2 museus, o Puri Lukisan e o Agung Rai. Ambos têm coisas em comum. Ficam numa distância confortável para uma boa caminhada, estão situados no meio de belo jardim e possuem um impressionante acervo de pinturas balinenses clássicas. O primeiro tem a vantagem de permitir fotografias dentro das galerias. O segundo tem um acervo de obras contemporâneas, mas que não me agradam muito.
Nas ruas de Ubud encontro galerias particulares e inúmeras lojas. Acho que nunca vi uma concentração tão grande de obras de arte! Para complementar o astral da cidade, há restaurantes e cafés bem charmosos. Na rua principal fica o Ubud Palace, ainda habitado pela família real (mas que não tem o poder), onde é possível visitar os templos hindus e os jardins.
No mesmo Ubud Palace, à noite, há uma apresentação de Barong, uma das danças típicas de Bali. Os instrumentos utilizados pela banda são feitos de bambu. Fiquei impressionado com a expressão das dançarinas. Olhares, gestos, tudo bem significativo. Além de um ótimo figurino. Ontem assisti ao Jegog, outra performance típica de Bali. A programação normal de Ubud tem 6 ou mais opções todas as noites!
Aluguei uma bicicleta por 2 dias para percorrer as vilas ao redor de Ubud e segui os roteiros sugeridos pelo Lonely Planet. Passei no meio de plantações de arroz, vi um grupo de pessoas ensaiando a performance da noite, fui perseguido por um cachorro, fotografei macacos e encontrei vários templos hindus. O relevo ao redor de Ubud é irregular, e em alguns trechos tive que carregar a bike. Mas o final da trilha de hoje foi ótimo, uma descida de 4 km. Uhuuuuuuuuu!
Sydney, 16/06/2007 - 09h50 - No meu terceiro dia em Ubud fui convidado a tomar o café da manhã com o I Nyoman Suradnya, artista e dono da pousada. Para não passar vergonha, antes do café olhei as obras do ateliê. O estilo dele é moderno, de pouca semelhança com o que eu havia visto nos museus. Por algum motivo o sapo é figura recorrente nas pinturas. Ao lado dos quadros encontro uma série de reportagens. Jornais americanos e franceses elogiam o estilo alternativo do artista. Vejo diplomas de uma universidade americana que agradecem as aulas ministradas. Ah, a foto ao lado não é do Nyoman.
Durante o café da manhã falo sobre a minha viagem. Pergunto sobre as reportagens e os diplomas. Ele me conta que viveu alguns anos na França, na Itália e nos Estados Unidos. Pergunto sobre os sapos. Ele não fala de uma forma direta, apenas insinua que arte não precisa de explicação. Alguns alunos aparecem para a aula de pintura, somente estrangeiros.
Minha última pergunta é sobre a cerimônia de cremação. Ele me explica que para os hindus a cremação libera o espírito para a próxima jornada. A morte não significa o fim, mas a passagem para uma nova existência num ciclo que todos percorrem. A cremação é uma cerimônia alegre. Segundo o calendário de Bali, que é diferente do nosso ocidental, a cremação tem dias específicos para ser realizada. Ele insiste que eu assista à próxima, que aconteceria no dia seguinte. E, adivinhando a minha pergunta, não haveria nenhum problema em fotografá-la.
Eu não estava confortável com a idéia de fotografar a cerimônia, embora tivesse bastante curiosidade. Decidi acompanhá-la, deixando a máquina na mochila. Ao me aproximar, uma senhora me avisa que tenho que usar um sarongue sobre a bermuda. Percebo que há outros turistas nas proximidades, e uma grande quantidade de locais. Eles se cumprimentam, brincam, jogam água uns nos outros. O clima é descontraído, tiro a máquina da mochila e faço as primeiras fotos. Os homens carregam a imagem de um boi e uma estrutura no formato de um templo.
Uma banda acompanha o percurso. A batida é forte, rápida. As estruturas são pesadas, e ora os homens param para descansar, ora se equilibram para mantê-las de pé. Uma pessoa vai à frente para erguer os fios elétricos, nem sempre com sucesso, e vários são arrancados dos postes. O grupo que segue na dianteira canta e sacode a figura do boi. Percorremos cerca de 2 km, observados pelas pessoas nas calçadas, até um grande templo (em Bali os templos hindus são denominados Pura).
No templo acontece a cerimônia de cremação propriamente dita. As estruturas e os pertences também são queimados. A família e os amigos fazem uma espécie de piquenique. Eu, assim como outros turistas, me sinto deslocado neste momento. A emoção por ter participado de algo tão importante é muito forte. É algo para não ser esquecido. É uma lição sobre como encarar as coisas da vida de uma forma diferente.
Aproveito o dia para resolver coisas burocráticas. A partir da Nova Zelândia, e durante o meu percurso na África e parte da Europa, eu estarei enfrentando a avalanche de turistas da alta temporada. Isso significa que não conseguirei descontos como os que consegui na Ásia, e que terei que me programar com uma antecedência maior para evitar contratempos. À noite, para descontrair, assisti uma apresentação de Legong, outra performance característica de Bali.
No dia seguinte fiz uma longa viagem até Gili Trawagan, uma pequena ilha que fica nas proximidades de Lombok (a maior parte das terras da Indonésia está situada em ilhas). São 1,5 horas de ônibus mais 5 horas de barco em mar aberto. A correnteza é forte, e fico ligeiramente mareado. Para evitar problemas, fico sentado o percurso inteiro na mesma cadeira sem me mexer. Algumas vezes fiquei encharcado pelas ondas que invadiam o convés.
O resultado valeu a pena: Gili Trawagan é de uma beleza ímpar, cercada por corais e sem nenhum automóvel. Os únicos veículos são charretes puxadas por burrinhos. As pousadas e os restaurantes são muito agradáveis. Há diversas opções de mergulho. Caminhei por 2 horas, que são suficientes para dar a volta na ilha. Há uma elevação que é perfeita para acompanhar o por do sol. Aproveitei também para ficar algumas horas na piscina.
O retorno para Bali é mais tranqüilo pois o barco segue a favor da corrente. Novamente em Ubud, assisto a performance Kecak Fire and Trance Dance, a mais primitiva e criativa de todas as que assisti. Planejo outro dia de bicicleta, mas o tempo chuvoso não ajudou. É hora de fazer as malas, separar a roupa de frio e seguir para o aeroporto. Uma longa viagem me espera até a Nova Zelândia (esta última frase eu escrevo em Aucklank, onde acabei de chegar depois de 25 horas de viagem desde Ubud).
Ontem completei 50% da viagem. A etapa na Ásia durou 52 dias, em 7 paises. Algumas conclusões desta etapa:
1. O custo para hospedagem e alimentação é relativamente baixo para os brasileiros (para os portugueses também, agora que tenho novos amigos lusitanos acompanhando o blog). Uma média diária de US$ 30,00 é suficiente para conseguir um quarto com ar condicionado (importante no verão), bem localizado, limpo e para fazer 2 refeições completas. Um mochileiro despojado consegue fazer por menos da metade;
2. Os passeios são baratos, muitos são de graça (templos, praias, caminhadas). As exceções são o cruzeiro em Halong Bay no Vietnam (US$ 110) e o Angkor Park no Camboja (US$ 40);
3. As passagens aéreas regionais são relativamente baratas se compradas com alguma antecedência pela internet. Existem boas companhias aéreas de baixo custo operando com aviões novos;
4. O visto de entrada para os países que visitei são obtidos no próprio aeroporto. As exceções são a Índia e o Vietnam;
5. Os asiáticos são muito atenciosos e sempre sorridentes. Pena que conhecem muito pouco sobre o Brasil, em geral somente o futebol;
6. Eles estão sempre dispostos a negociar. Não aceite o primeiro preço oferecido a menos que seja aceitável para o seu bolso;
7. É muito fácil viajar por conta própria, principalmente na baixa temporada. A grande maioria das pessoas fala inglês nas áreas turísticas;
8. Considero Bali na Indonésia o destino mais completo. Há atrações para todas as pessoas, seja para aventureiros, para quem busca conforto ou para um casal em lua de mel. Praias magníficas, atividades culturais de alta qualidade, trekking em vulcões, mergulho, vida noturna, etc. As distâncias são relativamente pequenas, e o aluguel diário de uma bicicleta é de US$ 3.
Fonte:
Eduardo Feijo Cidade:
Ubud - Indonésia-EX-Indonésia Fotos: Eduardo Feijo Publicado: Debora Americo da Silva Date: 12/11/2007
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