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Travessia pela Lagoa dos Patos 2001 - Parte 4

Aconteceu no mês de abril de 2001, a travessia pela Lagoa dos Patos que saiu da cidade de Porto Alegre/RS. Confira a quarta parte desta viagem.

Baixo Astral - "Deprê"

Carregamos tudo pelo meio do capim alto e alagado, tentando chegar na beira do canal onde não tivesse mais aguapés e de onde eu pudesse seguir meu destino para o centro da Lagoa.

Depois de tudo transportado, vou colocando a roupa de neoprene, sentado no meio daquele capim alto e alagado enquanto o sócio tenta consertar a cana de leme com uma fita adesiva (Silver Tape). Fomos puxar, para fazer um teste e descolou tudo... Cara,acho que descobri o que é depressão...

Tenta de novo sócio, sem isso vai ficar ruim.

Sobre a roupa de neoprene, coloquei o casaco impermeável e sobre ele coloquei o colete salva-vidas. Trocamos as mochilas; como rebentou a menor, que iria às minhas costas, terei que ir com a maior, carregada dos aparatos fotográficos, a filmadora (que irá dentro de uma caixa de acrílico estanque que eu fiz para a viagem do Rio de Janeiro), lanternas, bóias luminosas, etc. Tento erguê-la.

Cara, quase 10 kg; não consigo nem me mexer direito! Como é que vou remar? O reservatório de água ficou bem atrás das minhas costas, embutido no compartimento do caiaque (feito para encaixar um galão de cinco litros). Cana de leme remendada,entro no caiaque, a mochila pequena presa na proa e o sócio vem e coloca a mochila grande nas minhas costas...Dei apenas duas remadas e o caiaque quase vira ali mesmo !

Que terrível, a grossa esponja que coloquei como assento para agüentar três dias sentado e que deixou tudo confortável como uma poltrona, alterou o centro de gravidade. Fiquei muito alto; como a carga não ficou nos compartimentos estanques (apenas o plástico e o saco de dormir) e sim nas costas (sobre a coberta de proa e popa), ficou super instável.

Tive que arrancar as esponjas que iriam às costas e no pandeiro. Apenas vou levar duas pequenas esponjas para esgotar a água que invadir o espaço aonde vou sentado. Como será? Não sei, agora...

Entro no caiaque de novo, já são quase duas e trinta da tarde, estou mais cansado do que nunca, o tempo está feio e há tempestade para o horizonte. A roupa de neoprene está me enforcando e as alças da mochila machucam. Nada está como eu queria! Estou vacilando, penso em não sair hoje, talvez nem ir mais...Mas só para levar o caiaque de volta para a caminhonete será um suplício.

Vamos Issi !
Não agüento mais de frio!
Essa chuva vai encher tudo e o nível da água vai subir...

- Mas não é uma bicha nojenta?

Estou para morrer, condições totalmente adversas e ele preocupado que está passando frio...

A Hora da verdade:

Entro de novo no caiaque, pelo menos melhorou um pouco a estabilidade. O vento está fraco, em direção do centro da Lagoa. Como única referência, vejo o morro da Ponta da Formiga, uns 70 ou 80 km, para N. Peço para o sócio baixar o leme para mim, pois nem consigo me mexer direito.

Despeço-me do meu amigo, foram oito horas de sufoco para chegar até aqui e ele foi um leal companheiro e ainda vai seguir viagem direto até Florianópolis. Vou seguindo pelo meio dos juncos... Que paradoxo ! Eu não tive coragem de desistir! Às vezes, é melhor morrer tentando do que a humilhação de recuar...Parti sem olhar para trás! Respirei fundo, fechei a boca e comecei a remar automaticamente; os juncos vão passando a meu lado e se curvam com o vento, como que dizendo adeus...Passo pelos últimos juncos que vão ficando para trás, nada mais na minha frente; sinto que o caiaque começa a navegar em águas mais profundas.

A vela está rizada (diminuída), mas segue na minha frente. Posso ver através dela, por uma pequena "janela" (um círculo de plástico transparente, representando o sol e uma gaivota estilizada em pleno vôo, rumo ao infinito...). As águas acinzentadas parecem se fundir no horizonte com as nuvens que cobrem tudo.

A roupa de neoprene está me enforcando, mas não tenho a mínima chance de alcançar o zíper nas costas. Teria que soltar a mochila, tirar o colete salva-vidas, o casaco impermeável e tentar puxar o fecho mais para baixo, isto tudo num caiaque completamente instável.

Ao mesmo tempo, as alças da mochila estão me machucando, vou ficar em carne viva. A desgraçada fica caindo, ora para a direita ora para a esquerda, também pudera, ela está apoiada sobre o bico do galão de água...

Por falar nele, cometi outro erro: deveria ter colocado uma mangueira unindo o líquido do galão com minha boca, pois não tenho como removê-lo do lugar para beber. Agora sei lá quando vou beber... Resolvo virar o caiaque na direção da puxada de arroz para poder ver o sócio, mas já não vejo mais o Aldo. Ele foi embora com tanta pressa que esqueceu de levar as esponjas que eu arranquei do caiaque. Posso vê-las no campo.

Bueno, seu André! Aqui estamos nós de novo, rumando para o centro da Lagoa, sós no mundo e dependendo de nós mesmos para continuarmos vivos. O que é que a vida vai fazer de mim?

Minha defesa é fingir que tudo isto não é realidade, apenas uma espécie de sonho, um jogo em que a vitória consiste em não morrer. Como o desconforto não tem solução, vou me acostumando a remar assim mesmo. Esse é meu treino, aqui no campo de batalha. O cara tem que se virar diante das adversidades e seguir em frente assim mesmo.

Fonte: André Issi
Cidade: Porto Alegre-RS-Brasil
Fotos: André Issi
Publicado: Debora Dias
Date: 14/11/2007 <%insert_data_here%>

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   Aqui os Albuns e Fotos



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