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De volta a São Francisco de Paula 2007

Integrante do evento Pelos Caminhos da Serra 2007 fez um passeio por São Francisco de Paula nos dias 23 e 24 de dezembro de 2007.

No dia 23 de dezembro de 2007, saí à tarde para um treino de bicicleta. Inicialmente, passei pelo Gasômetro.

Era aproximadamente 15h. Decidi ir à Novo Hamburgo, aproveitando as quase 5 horas de luz que o dia ainda propiciaria. Por volta de 16h30min estava em Novo Hamburgo e como pedalar estava bom, segui adiante, pensando em fazer uma parte da RS 239 até o posto Charrua de Sapiranga. Já na RS-239, o vento contra começou a minar o ritmo, aliado ao forte calor.

Detalhe: saí sem água e tinha comigo uma garrafa de mineral de 500 ml, quase no fim. Parei antes do destino, fiz lanche, tomei suco e segui. Em Sapiranga, nova parada. Desta vez, um isotônico. Cada parada consumiu mais ou menos meia hora. Estava sem ritmo, cansado. Sábado havia rodado bastante e deitado tarde.

Segui para Taquara, já pensando em seguir adiante, mas sem cobrar-me ritmo. Apenas queria dar uma relaxada e rodar sem me stressar com a volta. Em Taquara, por volta de 20h, decidi parar novamente. Um iogurte de um litro foi minha refeição. Dali, comecei a subir a RS 020 para São Francisco de Paula. Começava a escurecer. Nos primeiros quilômetros de subida, a noite chegou.

Já é a quinta ou sexta vez que subo ali à noite, duas delas, sozinho. Diria que é um dos pedais noturnos mais clássicos para se fazer. Com dois potentes faróis, a noite não era problema. E logo, veio o terceiro farol, este natural para m ajudar: a lua cheia! Com o pouco movimento e o cair da noite, o silêncio revela os barulhos da serra. Animais, insetos, sapos, barulhos no mato, o vento, enfim.

Uma sinfonia natural que acompanha o viajante, ao longo dos quase 40 km de subida, que por vezes é mais íngreme e por vezes, mais plana. À esquerda, via os contornos dos morros, que se fundiam com a noite. Luzes de cidades distantes e ao longe, relâmpagos e muitas nuvens. Chuva que estava longe, mas poderia vir se o vento a trouxesse. O vento, esse ajudava a refrescar, mas tornava a subida mais dura. Sem ele, eu transpirava muito. Camisa encharcada.

A lua me acompanhava, mudando de posição a cada curva. Às vezes à esquerda, às vezes à direita, às vezes de frente para mim. Onde ela iluminava, era dia. Muitos trechos de mata fechada e seus ruídos tornavam o momento um pouco sinistro por vezes. Mas a noite estava muito boa. Pouco movimento. Alguns passavam acenando e cumprimentando. A sensação era de extrema paz interior.

Nos trechos finais de subida, quase por volta de 22:00, o cansaço foi pegando e eu ansiava pela chegada. Os paredões de pedra e as hortênsias eram os expectadores e a lua continuava a iluminar a estrada. Por volta de 22:15, a subida final foi vencida e vi as primeiras luzes. O clima sensivelmente mais frio fez gelar a camisa. A cidade estava vazia.

Apenas um bar aberto, com pouco movimento. Ninguém nas ruas. Fui à sede do Corpo de Bombeiros, onde tenho alguns amigos. Lá, consegui pouso e um banho. O pessoal, de plantão, já se preparava para descansar. Eu, após o banho, deitei em seguida, enrolado em um grosso cobertor. Dormi um sono de mais de 8 horas.

No dia seguinte, acordei bem disposto, com alguma dor muscular, mas nada sério. Comprei pão, leite, iogurte, nata frutas e frios. Fiz um café bem reforçado. Nesse ponto, o posto do Corpo de Bombeiros estava movimentado. Encontrei alguns conhecidos que não via há anos. Um deles, o Cleber, grande amigo e ciclista, estava de férias. A função da manhã girava em torno de colocar um dos caminhões em funcionamento. Os dois antigos Chevrolet C-60, ainda a gasolina, estavam estragados.

O que estava recebendo manutenção dos próprios soldados (troca de velas e regulagem na carburação), ainda apresentava vazamentos nas juntas do motor, estava fora de ponto e com perda de compressão. Precisava de peças novas, que chegariam na quarta. Pelo que soube, estragou em meio a uma ocorrência. Juntam-se a esses relatos mais recentes outras quebras, falta de freio e uma infinidade de problemas.

Na região, embora a demanda seja relativamente baixa, as ocorrências são comuns em áreas afastadas e de difícil acesso. O relevo e as condições do clima, por vezes não ajudam. Os caminhões enfrentam fortes subidas e descidas em chão batido. A maior reclamação dos funcionários é a falta de verbas e manutenção para as viaturas e o sonho de todos, uma esperada viatura nova que é prometida há anos.

Um motor novo, a diesel, seria bem-vindo e resolveria parte do problema, mas ainda assim, o que todos esperam é uma viatura nova e em boas condições. Uma vez conversando com meu amigo sobre as ocorrências e o nível de dificuldade das mesmas, entendemos que ali, temos homens de coragem e bravura. É preciso mais que preparo físico, mas psicológico e amor ao que se faz. E vendo como o pessoal ali se empenha, vemos que esses requisitos são muito bem atendidos.

Pouco depois, vejo o caminhão circulando pela avenida. A manutenção definitiva ocorreria dia 26 e até lá, pelo menos a viatura estava rodando. Neste momento, eu me ajeitava para visitar um amigo rapidamente e seguir para Gramado. Atravessei o centro calmamente e já na casa do meu amigo, fui convencido que não valeria a pena trocar o sossego de São Francisco pelo possível movimento de véspera de Natal de Gramado.

Acabei ficando para almoço. À tarde fomos entregar presentes onde estava ocorrendo uma festa de Natal para crianças carentes na região. Boa conversa, assistimos alguns vídeos e me lembro que eu comentava que tinha que ir, mas fui ficando e quando me dei conta, já passava das 18h.

Com quase nada de bagagem (apenas uma pochete), me despedi e saí. Passar ali é algo que vem se tornando comum. "Até mais" e vamos indo... Meu amigo me diz: "Vais pegar uma chuva". De fato, quando comecei a descer a serra, os primeiros pingos vieram. À direita, eu via um morro desaparecer entre as nuvens e forte chuva. Caíam raios, vários!

Comecei a forçar. Desta vez, estava de speed e as condições eram favoráveis. Pedalava forte, quase no limite das curvas. Nos trechos sinuosos, os carros eram deixados para trás. Aos poucos, a faixa de nuvens se aproximava e eu tentava sair da sua linha.

Nesse ritmo, pude ver o topo da serra desaparecer em meio a nuvens enquanto onde eu estava, permanecia um tímido sol, entre algumas nuvens e, claro, trovões. Mais uma "viração" (mudança de clima típica da região). Cheguei em Taquara por volta de 19h (mais de 40 de média na descida). Não tinha mais sol, mas não chovia ainda.

Tomei um suco e segui. Na RS 020, saindo de Taquara, começa a chover e eu, mais uma vez, começo a fugir das nuvens, que vinham pela direita e por trás. Com mais 5 km de pedal, mais ou menos, a chuva parou e o asfalto estava seco. Mas atrás, o seu estava roxo! Relâmpagos, raios e claro, tudo no sentido do tradicional vento a favor. Pedalei forte, como poucas vezes fiz, fazendo 82 km em pouco mais de 2 horas. Estando há uns 15 km de Cachoeirinha, a chuva me alcança.

Começam ventos e trovões. Cai um raio na estrada, quase do meu lado, em um transformador. O fogo e o barulho me fizeram sentir um calafrio. Não parei. Mas segui com cautela, num ritmo leve (os pneus muito finos e calibrados por vezes patinavam). A chuva era forte e parei em uma tenda de sucos. Pedi um e como estava fechando, peguei um que ela já estava fazendo (abacaxi com leite condensado). A moça mexeu comigo que eu estava branco... Segui adiante, em ritmo leve, "girando" sempre.

O trânsito foi piorando a cada quilômetro. A chuva estava estável, até fraca, mas muitos pontos alagados. Realmente, eu estava vindo bem devagar, esperando para passar sempre que necessário. Estava escuro, mas havia muitos pontos de luz na estrada, dispensando faróis. Em Cachoeirinha, trânsito caótico, motoristas apertando, passando sinais fechados, retornando em locais proibidos, enfim, um caos. Na saída da cidade, um engarrafamento, proveniente de um acidente próximo à saída da Free-Way.

Pista sendo sinalizada, mas com chuva, muita confusão. Logo nos primeiros km da Assis Brasil, asfalto quase seco. Ali, parecia quase não ter chovido. Voltei a pedalar forte, já que os relâmpagos e as nuvens que eu via ao longe não eram nada convidativos. Passava das 22h. Em casa, minha mãe, que veio passar o Natal comigo, me esperava já preocupada (avisei que chegaria mais cedo).

Após minha chegada, tomei um banho e não demorou muito, a chuva voltou. Choveria a noite toda. No dia seguinte, era Natal e ao final da tarde, fui para Ipanema e mais um contraste da época: um dos mais belos pôr-do-sol que pude assistir... Em meio às nuvens, o sol ia se pondo, muito belo sobre as águas do Guaíba.

Este é o resumo de mais uma viagem que considero bem sucedida. Nenhum problema ou imprevisto que chegasse a prejudicar a ida ou a volta. Tinha comigo as ferramentas básicas que sempre carrego, entre elas, extrator de correia e chave de raios, chaves diversas, remendos, bomba e câmara extras, pisca traseiro e faróis, pilhas sobressalentes, além de óleo (poderia ter levado um pneu de reserva).

A bike estava com Mr. Tuff (proteção anti-furo) e pneus novos, além de manutenção em dia. Como tinha conhecimento básico da estrada e confiança no equipamento, esse tipo de pedal já não exige muita preparação. Para quem deseja se aventurar pelas estradas, é fundamental saber adaptar-se às condições e lidar com alguns imprevistos, que com o tempo, ao passo que vamos adquirindo experiência, se tornam corriqueiros. No mais, é só entrar no espírito e curtir a liberdade de estar na estrada.

Bom 2008 a todos!

Fonte: Rodrigo Hart Fagundes
Cidade: São Francisco de Paula-RS-Brasil
Fotos: Rodrigo Hart Fagundes
Publicado: Thainá Costa da Silva
Date: 02/01/2008 <%insert_data_here%>

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