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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a quarta parte:
6 de abril de 2007
Deixei Morretes na manhã seguinte e logo ao pegar a estrada que desce até o porto de Paranaguá vi uma fila de caminhões. Tive a curiosidade de contar, diminui a velocidade e comecei, contei 217 caminhões até a entrada de da estrada que leva para Matinhos.
Conversei com um caminhoneiro e soube que chegam a ficar mais de uma semana na fila. Para amenizar as saudades da família, quando podem, levam a esposa e os filhos para a beira da estrada onde passam o dia inteiro esperando para andar poucos quilômetros. E tem gente que ainda reclama do trabalho.
Segui até a balsa de Guaratuba e lá me disseram que teria um caminho alternativo para chegar a Joinvile. Alternativo? É comigo mesmo. Só esqueceram de contar que até a balsa tem uma estrada de terra e que essa estrada de terra tem mais de 30Km.
Uma bela aventura! Pra completar parte da estrada estava com lama e foi um tanto quanto difícil manter minha princesa em pé. Foi um alívio ver a placa indicando fim da estrada e desligar o motor já na balsa. Detalhe que cheguei na balsa 10 minutos antes da partida, por pouco não tenho que esperar por uma hora até a próxima, pouco mesmo.
Ainda não tinha decidido se ficaria em Joinvile, Floripa ou iria direto para Garopaba, mas como estava cedo optei por descer a BR em direção a Garopaba. Estava ansioso para rever velhos amigos. Cheguei pouco antes das seis da tarde e fui direto para a pousada. Na entrada encontrei com o meu capitão, o Fraga, e a Dna. Dilza.
Logo chegou a Dani filha deles e a neta Ângela. Ficamos conversando e me fizeram o convite para ficar com eles em um quarto da pousada que fica reservado para os amigos que passam por aqui. Com isso a pousada ganhou o status de apoiador da expedição e eu decidi ficar até segunda por aqui para poder encontrar o Demorvan, outro filho deles.
Garopaba mudou muito desde a última vez que estive aqui, mas mantém o seu charme. Visitei a Vigia, ótimo lugar para ver o mar, fui até a praia da Ferrugem, da Barra e a famosa praia do Rosa. Conheci pessoas legais, entre elas uma família de uruguaios, muito simpáticos por sinal, que deixou o convite para fazer uma visita na pequena cidade de Atlântida. Convite aceito. Logo passo por lá!
Ontem fui assistir o primeiro espetáculo totalmente ao vivo do teatro do núcleo Ivana Fraga da fundação Vida Urgente. Os atores, a princípio amadores, trabalharam como profissionais e emocionaram a todos que lotavam o auditório da faculdade Unisul em Imbituba. Passaram com clareza a mensagem que queriam, mensagem essa que serve para todos nós: No trânsito há vida!
O Núcleo Ivana Fraga foi inaugurado no dia 18 de setembro de 2004, pelos pais da Ivana, falecida aos 22 anos no dia 03 de maio do mesmo ano em um acidente na BR 101, o Capitão Fraga e a Dna. Dilza. Por obra do destino eu estava em Garopaba e pude participar desse momento tão importante. Cheguei dois dias antes, exatamente no dia do aniversário da Dilza.
Nossa empatia foi instantânea e pude ouvir dela algo que me marcou muito, me marcou pra sempre. Foi naquela tarde do dia 18 de setembro, em meio a correria para inauguração do núcleo. Lembro que naquele momento tive a sensação de sentir o mundo parar de girar, o relógio interromper o ciclo dos ponteiros, enquanto ela, segurando minha mão, dizia com seu forte sotaque gaúcho: "- Tenho certeza que tem dedo da Ivana nessa sua chegada, tenho certeza". Tive que concordar, tentando disfarçar em vão os olhos cheios de lágrimas.
A Dilza, o Fraga e toda família são um exemplo de vida, o exemplo de uma família que não se escondeu atrás da dor e buscou aprender a lição imposta pelo Criador. Com uma força que nunca pensaram que teriam, fundaram o núcleo, o grupo de teatro, lançaram um livro em homenagem a Ivana e estão vivendo, mas agora com a missão de conscientizar os jovens e adultos sobre a importância da vida nas estradas.
Tenho visto muita imprudência nas estradas nesse início de viagem, e olha que é só o início. Caminhões ultrapassando pelo acostamento e ultrapassagens perigosas fazem parte das imagens que não gostaria de guardar, mas que já fazem parte da expedição.
Minha pergunta é: pra que isso? Será que uma vida inteira vale por apenas alguns minutos a mais? Se você tiver a chance de conversar com uma família que perdeu alguém no transito, garanto que irá refletir melhor sobre as suas atitudes atrás do volante. Faça esse teste, procure alguém, dê uma palavra de conforto e escute com atenção o que essa pessoa tem a lhe dizer, mesmo que seja um singelo olhar de lágrimas desprovido de palavras. Dói. Pode ter certeza, dói.
Em cidades como Rio e São Paulo, as mães ficam preocupadas com a violência, assaltos, bala perdida, mas aqui a realidade é outra. Grande parte das famílias já perdeu alguém querido nas estradas da região, principalmente na BR 101, que somente agora está sendo duplicada, por isso a preocupação fica ao saber que um filho está na estrada. Mais do que preocupação, o sentimento correto chama-se medo, medo de que aquela despedida venha a se tornar o último adeus.
Transcrevi um texto da capa do Diário Catarinense de 12 de março de 2007, logo após o carnaval:
Estradas têm fim de semana trágico
Depois do massacre ocorrido durante o Carnaval, as mortes voltaram a ser protagonistas nas estradas de Santa Catarina no final de semana.
Entre a noite de sexta-feira e às 22h de ontem 11 pessoas haviam perdido a vida em acidentes, a maioria na Grande Florianópolis, Vale do Itajaí e Norte de Santa Catarina.
Somando isso com o quadro estatístico que coloquei no início do texto, você pode ver que não estou mentindo, muito menos exagerando sobre a condição das estradas catarinenses.
A vida é urgente. Paz nas estradas! Respeite a vida!
Voltando a falar da viagem... O orçamento está super bem controlado e tudo indica que fecho o primeiro mês com sobra. A solidão é compensada pelas pessoas que conheço pelo caminho e pelo vento no rosto durante as viagens. Minha Princesa está ótima e como disse o amigo Leandro Fregonesi, está até merecendo um pouco de calda de chocolate no tanque para comemorar a páscoa.
Por falar nisso desejo uma feliz páscoa a todos, todos que estão comigo nessa aventura. Aproveite para refletir o que você pode fazer para ser uma pessoa melhor, contribuindo assim para a evolução de todos que por aqui estão. Mude, transforme-se, evolua.
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Paranaguá-PR-Brasil Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Thainá Costa da Silva Date: 06/04/2008
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