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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a sétima parte:
23 de abril de 2007
La Paloma é uma graça, mas nessa época do ano mais parece uma cidade fantasma. Passei duas noites na cidade e pude fazer uma bela amizade com os simpáticos donos do albergue, Oscar e Mercedes, e com o William, um carpinteiro americano que nas horas vagas tem como hobbie construir carrosséis para crianças carentes. Ele está no Uruguai para estudar a viabilidade de um projeto que consiste em montar uma escola de carpintaria para crianças órfãs. Ele falava muito bem espanhol e tivemos longos e agradáveis papos.
Deixei La Paloma na quarta e segui ainda sem saber se iria para Piriápolis ou Atlântida. Entrei em Punta Del Este e fiquei impressionado com o seu crescimento de 2004 pra cá. O boom imobiliário, com luxuosos prédios subindo em todos os cantos, é notório. Mas foi só uma entrada rápida para matar as saudades e segui pela rambla, a rodovia que beira o rio, até entrar na estrada interbalneária que me levaria a Piriápolis.
Nesse trajeto um taxista veio buzinando e emparelhou o carro com a moto, seu passageiro abriu a janela e disse que era carioca e naquele exato momento estava indo para o aeroporto para voltar para a Cidade Maravilhosa, confesso que nessa hora a saudade bateu forte...
Entrando em Piriápolis decidi seguir para Atlântida, pois até os fantasmas abandonaram essa pacata cidade - deviam estar em La Paloma - e estava mais deserta do que deve estar o Atacama. Em Atlântida a idéia era procurar um camping ou um hotel barato e fazer uma visita para os Lanza, a família de uruguaios que conheci em Garopaba, mas quem disse que eles deixaram.
Fui recebido com muito carinho e mimos por essas pessoas especiais. Foram três dias muito agradáveis, com muitas conversas e gargalhadas, isso sem falar na comida, pois acho que recuperei todos os quilos que tinha perdido até agora. Acordava com café da manhã na mesa, depois vinha o almoço, o chá da tarde e finalmente o jantar. Uma mordomia só!!!
Me despedir e deixar os braços dessa família que me recebeu tão bem não foi fácil, mas deixamos a certeza de nos reencontrar... Antes ainda de sair, a Sra. Lanza me deu um gorro de lã feito por ela especialmente para mim, disse que era um pequeno presente para me esquentar nas noites de frio que estão por vir. Eles são especiais, mas também tendo conhecido-os onde conheci, não poderia ser diferente.
Exatamente na hora da minha partida de Atlântida o tempo fechou e a chuva veio com força, mas em menos de uma hora já estava em Montevidéu e sentia a diferença da pacata Atlântida para a conturbada capital uruguaia. Cruzei a cidade até chegar ao albergue da cidade velha e, apesar de ter um preço um pouco salgado para o meu orçamento, era o albergue ou acampar na Praça da Independência embaixo do cavalo do General Artigas, e isso ninguém merece!!!
A noite recebi uma inesperada ligação do Gustavo, o Sr. Lanza, simplesmente para saber se tinha chegado bem, por essa e outras coisas é que afirmo que eles são especiais, muito especiais.
Deixei a moto parada e estou curtindo Montevidéu de ônibus e a pé. No sábado fui até a noturna Bartolomeu Mitre, uma rua bem próxima ao Albergue que concentra a maioria das boites e bares da cidade. Ganhei uma entrada free em uma delas e fui conhecer. Estranhei apenas o horário, pois aqui a noite somente começa a ficar agitada as duas da manhã, bem diferente do Rio, ou será que to ficando velho mesmo?
Ontem aproveitei para tirar o dia de turista. Pela manhã caminhei pela 18 de junho, a principal avenida de Montevidéu, até a famosa feira dominical Cristan Navajo. Contrariando todos os conselhos para não sacar a câmera, fiz esse vídeo que mostra um pouco do que é a feira.
Saindo da feira peguei um ônibus, voltando até a Praça da Independência e caminhei pelo centro velho até o Mercado do Porto. O mercado foi revitalizado há aproximadamente 15 anos, antes funcionava ali casas de venda de carne, aves e pescados e agora abriga ótimos restaurantes que servem fantásticos assados, o típico churrasco uruguaio.
Me deliciei com um belo assado de "pollo" e segui para a minha próxima parada do programa "Turista por um dia em Montevidéu".
A próxima parada era o estádio Centenário para assistir ao clássico Nacional e Liverpool pelo campeonato uruguaio. É óbvio que o aventureiro atrapalhado não poderia deixar essa passar em branco. Chegando no estádio, comprei o ingresso, R$ 3,60, na primeira bilheteria que vi e entrei. Só na arquibancada é que me dei conta que estava na torcida do Leverpool, mas até aí tudo bem. Uns dez minutos antes do jogo começar notei que alguns torcedores não paravam de olhar pra mim e comentar alguma coisa.
Mas estava tudo tão tranqüilo. forte policiamento; estádio vazio; nenhuma briga; que não dei muita atenção. Só descobri o motivo dos olhares estranhos quando os torcedores do Nacional, em número bem maior por sinal, levantaram suas bandeiras nas cores azul e vermelha, exatamente a cor da camisa que eu estava vestindo.
Na hora não sabia se ria ou se chorava, mas tratei foi de colocar o casaco e fechar até a gola pra não correr o risco de ser linchado em pleno estádio Centenário. Pra aliviar a barra torci pro Leverpool como se fosse o único time da terra e acho que consegui enganar bem.
O Nacional acabou ganhando por 2 x 1 e de lá peguei um ônibus para ir até o Montevidéu Shopping, para o último programa do dia. Dei uma volta pelos apertados corredores, mas o que queria mesmo era assistir a um filme e por isso fui direto para o cinema.
Cheguei de volta no albergue as onze da noite e completamente quebrado. Meu joelho, aquele que entrou na faca no ano passado, está me matando, acredito que por conta da grande umidade combinada com o frio, mas vamos ver como ele vai se comportar daqui pra frente.
Hoje, segunda-feira, deixo Montevidéu e vou para Colônia, onde devo ficar dois dias e de lá subo até Mercedes. De Mercedes pra cima, parece que encontrarei uma zona rica em termas de águas quentes devido ao solo vulcânico da região, mas ainda não sei se de Mercedes tento furar o bloqueio da ponte feito pelos argentinos por conta da fábrica de papel e atravesso já para a Argentina ou se sigo até Salto e de lá cruzo para Concórdia. Vou decidir no caminho.
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Paloma-EX-Uruguai Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Thainá Costa da Silva Date: 23/04/2008
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