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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a oitava parte:
30 de abril de 2007
Deixei Montevidéu pouco depois do meio dia suando embaixo da jaqueta de viagem, mas logo o calor deu lugar ao frio que chegou com uma chuva fraca, porém constante, me obrigando a parar para colocar a luva e a proteção da garganta. A estará estava boa e, tirando o frio e a dor no joelho, foi fácil chegar a Colônia.
Desci a rua principal até o final, logo fui abordado por um casal de ingleses que vieram de navio até o Uruguai e agora estão começando uma expedição por toda América do Sul sem muito planejamento, mas ficarão até o dinheiro acabar. O Paul me indicou o mesmo albergue para o qual pretendia ir. Estou deixando para acampar somente quando pretendo ficar mais de três noites em um determinado lugar ou quando as opções de hotel são muito caras, o que em Colônia não era o caso, pois o albergue sairia por R$ 15,00, quase a metade do preço de Montevidéu.
Fiquei duas noites em Colônia, tempo suficiente para conhecer tudo. As ruas do centro histórico dessa que é a cidade mais antiga do Uruguai lembram Paraty, uma cidade apaixonante ao sul do estado Rio de Janeiro.
Andei por suas ruas antigas, subi no farol da cidade, de onde pude ver os prédios de Buenos Aires a olho nu, andei de bicicleta pela "rambla", rua que margeia a costa do rio, assisti a um lindo por do sol na beira do rio e passei um bom tempo sentado no charmoso cais vendo as borboletas colorirem seu jardim. Fiquei apaixonado pela cidade!
Carinhosamente a apelidei de cidade das borboletas. Uma delas pousou na moto enquanto estava estacionada e só vi depois de subir. Ela continuou imóvel enquanto eu a fotografava e depois seguiu seu destino.
Saí de Colônia e fui para Mercedes, por uma estradinha pra lá de ruim onde encontrei até, acreditem se quiser, uma ponte submergível. A placa dizia exatamente assim: "Ponte submergível, em caso de cheia do rio, não atravesse". Será que não poderiam ter construído uma ponte mais alta? As estradas do Uruguai, na maioria são ótimas, mas pista de avião e ponte submergível não vi em nenhum outro lugar.
Em Mercedes fiquei na casa do Beto, um brasileiro que me conheceu pelo site e gentilmente me convidou para ficar em sua casa. O Beto está trabalhando na polêmica fábrica de celulose em Fray Bentos e por isso está com sua família aqui. Motociclista apaixonado pela estrada pretende, assim que acabar a fábrica, pegar sua XT660 e descer até Ushuaia.
Graças ao Beto tive a oportunidade de ver de perto a construção e fazer umas fotos bem legais. Acompanhei também seu dia estressante de trabalho ao lado do Klaus, outro gerente da empresa. Se alguém acha "start up" de empresa algo estressante, passe um dia numa obra dessa magnitude e veja realmente o que é tensão.
Pra completar, cheguei em um dia de greve de operários brasileiros, por conta de maiores benefícios e uruguaios, por conta de mais segurança na obra, ou seja, um dia daqueles. Mas foi uma oportunidade ímpar poder entrar nessa que, possivelmente, será a maior fábrica de celulose do mundo.
No dia seguinte aproveitei para cruzar a fronteira e conversar com os argentinos que estão fechando a estrada querendo a interrupção das obras e a mudança do local da fábrica. Muitos me desaconselharam ir, dizendo que não me deixariam passar e perguntando se a moto tinha seguro, pois poderia ser perigoso, mas não resisti e lá fui eu e a minha Princesa.
Mas muito pelo contrário, fui muito bem recebido, ainda mais ao dizer que era do Brasil e falar sobre a expedição. Passei o dia inteiro com eles conversando e tomando o mate. Encontrei ali pessoas simples, aparentemente pacíficas, que acreditam que a poluição causada pela fábrica destruirá sua saúde e a fonte do sustento de suas famílias, como a pesca, a agricultura e a pecuária. Por isso estão ali, lutando pelo que acreditam.
Já os moradores do lado uruguaio dizem que os "piqueteiros", como chamam os manifestantes, estão sendo manipuladas pelo governo argentino que ainda tem interesse em levar a fábrica para o seu país e por isso não faz nada para desbloquear a estrada que liga os dois países. Alguns afirmam até que os manifestantes recebem ajuda de custo para manter o acampamento.
A noite o Beto me presenteou com um belo assado uruguaio feito por ele. Com toda família reunida, com o Klaus e mais um companheiro de trabalho tivemos uma agradável noite de despedida com um céu estrelado prometendo sol para mais um dia de viagem. No sábado pela manhã voltei para a estrada em direção a Salto, a Claudia, esposa do Beto, tinha me dito que o percurso era todo asfaltado, mas, seguindo as placas, olha onde me enfiei logo na saída de Mercedes, uma estrada de terra horrível.
Depois dessa estrada de terra com aproximadamente 15Km, cheguei finalmente a uma estrada asfaltada, tendo que escolher para que lado ir, pois não tinha uma única placa informando a direção de Salto ou pelo menos de Paysandú. Virei para a esquerda e logo senti a presença do querido tio "Murphy"!
É óbvio que peguei para o lado errado e acabei chegando na mesma estrada que estava antes de pegar a bendita estrada de terra. Descobri então que a estrada de terra era na verdade um atalho, que, no final das contas, não me ajudou em nada! E o aventureiro trapalhão seguiu viagem.
Conforme as dicas do Rodrigo, filho do Beto, parei em Daymán, um pouco antes da cidade. Achei um camping excelente com uma bela área verde, campo de futebol, luz elétrica, churrasqueiras e duas piscinas de água termal por R$ 4,60. Valeu pela dica Rodrigo! Se Colônia era a cidade das Borboletas aqui é a cidade dos roupões, pois são poucos os que não andam nas ruas de roupão. Até nos restaurantes as pessoas vão de roupão, impressionante!
Em Daymán não tenho muito que fazer, a não ser relaxar nas oito piscinas de águas quentes com temperaturas variadas do parque e isso tudo pagando míseros e coincidentes R$ 4,60.
Em breve me despeço do Uruguai e entro na Argentina para enfrentar o rigoroso inverno desse país de imensa beleza. E aí? Cruzo outra vez a fronteira com a camisa da seleção brasileira como fiz na expedição de 2004?
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Montevidéu-EX-Uruguai Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Thainá Costa da Silva Date: 30/04/2008
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