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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a nona parte:
10 de maio
No último domingo a noite eu e o Darío decidimos sair de Córdoba no dia seguinte bem cedo para San Luiz e, devido a alguns contratempos climáticos (como você pode ver na foto acima), levamos mais de 10 horas para percorrer míseros 450Km., chegando completamente mortos ao nosso destino. Na terça pela manhã saímos mais uma vez bem cedo para a casa do Velho, na serra de San Luiz, um lugar bem inóspito onde não encontramos nem energia elétrica, nem sinal de celular e muito menos internet.
Ah, quem é Darío e quem é Velho? Isso eu conto no relato... Por falar em relato, aviso logo que dessa vez está meio extenso, mas pode ter certeza de que vale ler cada linha!!! Entrar na Argentina com a camisa da seleção e ainda parar a Aduana; o surgimento de uma nova amizade nada por acaso; nevasca com dois graus negativos a 2500m de altitude; comida com gasolina; e muito mais...
Antes de entrar na Argentina, fui a Uruguaiana para fazer o seguro Carta Verde de uma vez por todas e, mal entrei na cidade já estava morrendo de vontade de sair correndo do meu próprio país, ou pelo menos de Uruguaiana. Que me desculpem os moradores da cidade, mas nunca vi gente tão mal educada. A começar pelos policiais que viraram as costas quando pedi uma informação e depois disseram que na cidade não havia nenhuma concessionária de moto, quando a mesma estava há menos de 200 metros.
Depois veio o garçom, a grosseria em pessoa ao me responder quando perguntei a diferença do preço do quilo para o buffet livre. Por último o gerente do supermercado que quase chamou os seguranças porque, depois de pagar o que tinha comprado, queria atravessar a loja para pegar a moto que estava parada na outra saída. Um verdadeiro absurdo além de uma grande falta de respeito.
Tinha pensado em passar a noite em Uruguaiana, até mesmo porque fui convidado a participar do encontro semanal do motoclube da cidade, mas depois dos acontecimentos peguei minha Princesa e zarpei de volta para o Uruguai, chegando a noite nas termas Arapey ao norte.
No caminho fui parado pela primeira vez pela polícia rodoviária Uruguaia que, com a habitual simpatia desse povo que aprendi a admirar, confessou ter me parado apenas para saber da viagem. No dia seguinte relaxei nas águas quentes de Arapey, não tão quentes quanto as de Daimán, mas quentes o suficiente para aliviar a tensão do dia anterior.
Na última sexta vesti minha camisa da seleção brasileira e segui para Salto, ainda no Uruguai, de onde cruzaria a fronteira com a Argentina entrando pela cidade de Córdoba. Na fronteira levei um susto, pois o policial não conseguia se entender com a minha apólice do seguro, mas no final me pediu desculpas dizendo que era novo na função e por isso tinha se atrapalhado com o documento. Autorizou minha entrada e mandou que pegasse a moto para passar pela inspeção de bagagem.
Passando com a moto os policiais da fronteira mandaram que parasse e perguntaram o que estava carregando. Respondi que era roupa e equipamento de camping, pois estava em uma expedição solitária de 400 dias... Resultado? Consegui o que jamais esperava: parar a aduana Argentina!
Quase todos funcionários, inclusive a chefia, vieram me encher de perguntas sobre a viagem, tirar fotos, dar dicas de caminhos e fizeram questão de frisar para fugir da polícia rodoviária argentina que certamente vai querer me arrancar "plata" a todo custo. Riram muito ao ver o 'mata-fuego" preso no pára-lama dianteiro e a camisa da seleção brasileira que estava usando para entrar no país. Deixaram a promessa de acompanhar a viagem pelo site e nos despedimos...
Segui pela estrada ainda sem saber onde dormiria, em Santa Fé ou em Córdoba, correndo o risco, na segunda opção, de chegar a noite. Numa cidade chamada Paraná, passei pela primeira vez por um túnel subfluvial. O túnel passa por baixo do rio Paraná que, por sinal, segue até Foz do Iguaçu.
Chegando em Santa Fé, notei de cara a diferença do pacato trânsito uruguaio para o trânsito argentino, com motoristas estressados, impacientes e imprudentes quase me jogando para a calçada. Já eram três da tarde e estranhei ao encontrar a cidade toda fechada, só depois fui descobrir que a sesta no interior da Argentina vai até as quatro da tarde.
Estava cansado e pensei em parar o dia por ali, mas alguma coisa na cidade me incomodava e, ao mesmo tempo, algo me dizia para ir para Córdoba. Parei a moto para pensar, pois, estando há mais de 400Km, certamente chegaria a noite ao meu destino. Seria uma decisão arriscada. Senti alguma coisa dizendo para que não me preocupasse e seguisse em frente. Sabendo da companhia que tenho e acreditando na minha intuição voltei para a estrada.
No caminho recebi outro sinal de que tinha tomado a decisão certa. Ao parar para abastecer e comer algo, pois estava praticamente em jejum até àquela hora, conheci quatro missionários que também estavam indo para Córdoba. Abençoaram minha expedição e fizeram o convite para que, caso tivesse algum problema com hospedagem, fosse até o convento onde estariam, pois teria abrigo e comida pelo tempo que precisasse.
A noite começou a cair, o frio aumentou, logo veio a chuva e o breu a se juntarem com uma estrada mal sinalizada, de pista única, sem acostamento e repleta de caminhões. Nesse momento tive a impressão de ter tomado a decisão errada e pensei em parar em um hotel de alguma pequena cidade do caminho, mas sempre que pensava isso, algo forte me mandava para Córdoba e eu obedecia.
Cheguei as oito da noite no albergue da cidade, morto depois de 760Km rodados no dia. Ao chegar vi uma moto parada na porta, uma Transalpina 600cc, muito utilizada pelos viajantes da região. Uma moto trail com o motor em V da Shadow, excelente para longas viagens em terrenos difíceis, porém não comercializada no Brasil.
Perguntei na recepção de quem era a moto e fui apresentado ao Darío, um viajante solitário que estava aproveitando alguns dias de férias para conhecer o norte do seu país e agora estava voltando para Mendoza, onde vive e trabalha como guia no Aconcágua, a montanha mais temida da América do Sul. A empatia foi instantânea e fomos convidados para jantar com o Christian, dono do albergue e também motociclista. Naquele exato momento começava a entender porque tinha ido para Córdoba.
Passamos o sábado andando pela cidade e trocando informações sobre motos, montanhas e expedições. Além da mesma idade, descobrimos muitas afinidades e uma bela amizade se formou. No domingo fomos ao estádio de Córdoba para assistir a última etapa da temporada do rally mundial de carros.
No domingo a noite conversando, decidimos deixar Córdoba na segunda bem cedo e seguir para San Luiz pelo caminho da serra que nos indicaram, por ser muito bonito.
Saímos de Córdoba com uma chuva fina, que, ao entramos na serra, se juntou com uma forte neblina, se transformando em chuva de gelo e logo depois em neve. Tivemos que parar para beber um chocolate quente e esquentar as mãos, pois mesmo com as luvas, os dedos começaram a doer bastante por conta dos 2 graus marcados no termômetro.
Quando a nevasca aumentou paramos no meio da serra para tirar fotos e vimos nossas pernas cobertas por uma grossa camada de gelo, assim como nossas motos. Começamos a rir daquilo tudo, pois era nossa primeira viagem juntos e também a primeira vez que andávamos de moto sob a neve.
Em San Luiz, o Darío tem um amigo conhecido como Velho. Ele tem uma casa no campo, na serra de San Luiz e o convidou para conhecer. O Darío perguntou se eu poderia ir junto, o Velho disse que não tinha problema desde que gostasse de frio e da simplicidade do campo e lá fomos nós na terça bem cedo. O lugar era simplesmente lindo, de uma tranqüilidade tamanha e a noite o termômetro bateu 10 graus negativos, mas estava bem protegido embaixo de uma dezena de cobertores, além é claro, do meu inseparável saco de dormir.
Ontem, quarta-feira, decidimos ir para Mendoza para evitarmos uma possível chuva que parecia se aproximar. Chega de gelo na estrada!!! O Velho pediu para que ficássemos pelo menos para o almoço e não tínhamos como negar, até mesmo porque até Mendoza são apenas 350Km, por isso, mesmo almoçando, chegaríamos ainda com o dia claro. Nesse momento descobri outro ponto em comum entre eu e o Darío: a capacidade de fazer merda!
Para o almoço o Darío pediu ao Velho para que não fosse mais um assado, pois, assim como eu, não agüentava mais comer carne vermelha. Na terça-feira o Velho nos entupiu de carne no almoço e, pra completar, depois fomos jantar na casa de um amigo seu que serviu ainda mais carne.
Eu não comia carne vermelha há três anos, mas, já no início da viagem, aprendi uma grande lição: a humildade do homem deve ser grande o suficiente para aceitar o prato que lhe for servido. Por isso como de tudo que me for dado de coração e, conversando com o Darío, descobri que ele está passando pela mesma situação, pois também tinha bastante tempo que não comia carne de vaca.
Voltando ao almoço, o Velho resolveu então fazer uma galinha ensopada com arroz. Gentilmente o Darío lhe deu dois quilos do arroz que está carregando desde o início da viagem, pois tinha planos de cozinhar, mas logo desistiu. O problema era onde o meu amigo argentino estava carregando o arroz... Com a galinhada pronta, o Velho pegou uma colherada do caldo para experimentar, fez uma cara esquisita e disse:
- Darío, acho que a comida está um pouco com gosto de gasolina.
- Como assim? -perguntou o Darío.
- Experimenta. - respondeu o Velho.
O Darío experimentou e logo veio a resposta:
- E pelo gosto é da Super, com 95 octanos!!!
Quando abri a panela veio o vapor com um cheiro forte de gasolina. A peça rara do Darío levou os pacotes de arroz no mesmo bagageiro da moto onde estavam os recipientes com gasolina extra e, com isso, o arroz pegou não só o cheiro, mas também o gosto da nafta. Choramos de rir olhando para a panela cheia de comida, comida essa que iria para os cachorros que certamente não reclamariam do cheiro. Portanto, para o almoço, não nos restou outra opção a não ser comer o resto da carne de ontem.
Fomos para Mendoza, onde os pais do meu amigo argentino nos esperavam com uma cerveja bem gelada e uma deliciosa pizza. Vi que simpatia era mal dessa família!!! Pra completar, me fizeram o convite para passar a noite com eles e aproveitei para economizar mais um pouco.
Não sei por quanto tempo ficarei em Mendoza, pois as previsões para esse inverno estão preocupantes. O clima já está bem estranho nessa época, a temperatura de 10 graus negativos no campo é rara até nos invernos mais rigorosos e ainda estamos no outono. Dizem os meteorologistas que esse deve ser o inverno mais rigoroso dos últimos tempos no sul da Argentina, por isso tenho que esperar previsões mais seguras para não colocar a expedição em risco. Caso seja preciso, talvez Mendoza seja uma boa base para passar o inverno, já que não abro mão de ir até Ushuaia e tempo eu tenho, basta administrá-lo!!!
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Córdoba-EX-Argentina Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Thainá Costa da Silva Date: 10/05/2008
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