|
Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a décima segunda parte:
28 de maio de 2007
Antes de me despedir de Mendoza peguei minha princesa para darmos uma volta pela alta montanha. Um circuito obrigatório para todo bom turista. A paisagem é de cair o queixo, não sabia se olhava para a estrada ou para as montanhas. Uma estrada entre a cordilheira com uma estonteante combinação de cores: o verde claro de uma vegetação que ainda resiste ao frio; o marrom avermelhado da terra; o marrom claro das folhas secas do outono; o azul do céu; e o branco da neve cobrindo os picos das montanhas a oeste.
Por mais que tente descrever, jamais conseguirei colocar em palavras a emoção que estava sentindo, emoção essa que era capaz de me distanciar do frio que a esse ponto já fazia parte do cenário e me dava a sensação de estar segurando cubos de gelo.
A primeira parada foi em Penitentes, porta de entrada do Parque Nacional do Aconcágua. Por enquanto tudo ainda está muito calmo, mas com a chegada do inverno a pacata vila se transforma para receber os turistas que chegam de todas as partes em busca das suas pistas de esqui.
Andando mais um pouco cheguei na Puente Del Inca, que recebe esse nome graças a formação que passa sobre o rio Mendoza, como uma ponte natural, formada pela ação das águas quentes do local. Juntos as pontes existem ruínas dos banhos de um antigo hotel que foi construído junto a ponte para aproveitar o fácil acesso as águas termais.
Logo depois da ponte encontrei um "mirador" do Aconcágua, esse era bem mais próximo da montanha do que o outro que cheguei com o Dario no domingo que saímos de moto, dando a sensação de que a montanha não é tão difícil como dizem, mas no fundo sei que não passava de uma mera sensação.
Seguindo na estrada cheguei a 3200m de altitude e comecei a notar os primeiros efeitos do ar rarefeito, quando, subir uma simples escada não é uma tarefa tão simples. Minha princesa também estranhou a altitude e tive que guiar mantendo o giro alto para que o motor não parasse. Nesse momento estava em Las Cuevas, o vilarejo que faz fronteira com o Chile e que tem uma estátua do Cristo Redentor a 4 mil metros de altitude, porém infelizmente estava fechada devido aos fortes ventos que castigavam a altitude. Foi um belo passeio de mais de 400Km e de paisagens inesquecíveis.
Na sexta-feira, 25 de maio, dia da revolução argentina, me despedi de Mendoza e segui com o Dario para San Luis onde estava tendo o encontro de motos do "Veteranos Del Camino M.C.". Confesso que não foi fácil deixar a cidade que tão bem me acolheu. Nesses quase 20 dias que fiquei em Mendoza fiz bons amigos e conheci lugares fascinantes, mas assim é a estrada, não posso esquecer que estou apenas de passagem, sempre de passagem. Na estrada para San Luis nos juntamos com o pessoal do "Maldita Suerte M.C." e fomos juntos para o encontro. Os caras são muito "buena onda" como dizem por aqui e em poucos minutos me disseram que, se por acaso voltar para Mendoza, irei ficar na casa clube do grupo, podendo assim economizar uma boa "plata".
O encontro, apesar de ser o primeiro dos Veteranos, estava muito bem organizado e fui muito bem recebido por todos, mas como bons argentinos, a brincadeira sempre girava em torno do bom e velho futebol.
Fizemos várias caravanas, na primeira delas fomos visitar um quartel militar. Você pode até pensar, "mas que graça tem visitar um quartel militar?", mas observando o rosto de cada motociclista entendi o motivo de tanto orgulho. Pude perceber que meus companheiros argentinos, ao roncarem seus motores dentro do quartel, estavam dando um grito de liberdade, liberdade essa que foi reprimida durante todo o tempo da ditadura militar. Desfilavam orgulhosos na casa daqueles que, por um bom tempo, foram, talvez, seus piores inimigos e agora lhes recebiam com direito a banda de música e tudo.
Uma outra caravana, ou motociata como chamamos no Rio, nos levou ao circuito dos lagos, ou circuito serrano de São Luis. Passávamos de 70 motos e todos que estavam no caminho paravam o que estavam fazendo para ver as motos passarem. Vale ressaltar que todos os passeios eram acompanhados por uma escolta da polícia local que se encarregava de cuidar do trafego para que pudéssemos passear sem preocupação.
Na noite de sábado tivemos os jogos do encontro. Nos jogos são feitas várias provas, sem moto, como cabo de guerra, corrida do saco e queda de braço, e outras com moto, como, marcha lenta, onde ganha o motociclista que chegar por último sem colocar o pé no chão, e zigue zague, onde o motociclista tem que passar entre caixas até uma ponta, descer da moto, tomar um copo grande de cerveja e voltar em zigue zague, ganhando quem chegar primeiro. Numa dessas, enquanto um dos competidores tomava a cerveja, o pessoal do "Maldita Suerte" roubou a moto e escondeu. Todos morreram de rir quando, ao terminar a cerveja, o dono da moto se virou e não encontrou sua companheira. O clima do encontro estava ótimo e vi como os "malditos" são queridos por todos os lados.
Antes de ir embora o presidente dos "Veteranos Del Camino" me entregou uma placa em agradecimento pela minha presença, mas, como disse a ele, na verdade eu é que devo agradecer pela hospitalidade de todos.
Nesse momento me despedi do Darío com a certeza de ter ganhado um grande irmão nessa expedição. Ele seguiu seu caminho para Mendoza enquanto eu congelei nos 270Km que me levaram a San Rafael. O vento estava forte e a temperatura realmente muito baixa, com uma sensação térmica de um grau negativo. Um pouco fresco...
Cheguei ontem em San Rafael e devo ficar até quarta ou quinta, pois a cidade oferece passeios bem interessantes e, além do mais, quero esperar a temperatura subir um pouco, pois essa noite nevou e amanheci com a minha princesa coberta de gelo e com dois graus negativos no termômetro. Viajar assim, só vestido de pingüim...
Conversei com alguns mendozinos mais experientes e todos afirmaram que esse frio nessa época do ano não é nada comum, por isso revi os planos e minha chegada a Ushuaia está sendo adiada para setembro. Sendo assim, devo ficar bastante tempo em solo argentino e vou aproveitar o tempo para explorar bem esse país de distintas belezas naturais. Agora desço no máximo até Bariloche, depois subo para Neuquén e sigo para leste em direção a Bahía Blanca. Volto a subir e, depois de passar por Mar Del Plata, chego dia 03 de julho em Buenos Aires onde receberei a visita da Dna. Marcia (minha mãe) e da Carol. Um belo presente de aniversário!!! Em agosto passo por Rosário e começo a descer vagarosamente, sempre de acordo com o clima, chegando possivelmente em setembro ao fim do mundo!!!
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Mendoza-EX-New Zeland Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Thainá Costa da Silva Date: 28/05/2008
<%insert_data_here%>
|
|