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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a décima terceira parte:
05 de junho de 2007
Uma semana realmente agitada. Desde minha chegada a San Rafael até ontem, quando cheguei a Junin de Los Andes, foram, nada mais nada menos, do que 1.857Km de belas paisagens e lugares inesquecíveis. Conheci pessoas maravilhosas e pude viver coisas até então apenas desejadas. Antes de contar tudo tenho que dizer que esse país chamado Argentina pode se vangloriar por possuir todas, ou pelo menos quase todas as maravilhas naturais que preenchem nosso planeta. Rios de águas cristalinas, montanhas nevadas, desertos, praias, vulcões e tudo isso habitado por um povo simpático e muito acolhedor, claro, desde que você não entre no mérito de discutir sobre futebol.
Em San Rafael, ainda estado de Mendoza, tirei a terça-feira para conhecer uma olivícula e duas vinícolas, sendo uma produtora de espumantes,e outra que produz em pequena escala mas que é de grande importância, uma vez que foi a primeira vinícola de San Rafael.
Na quarta, antes de ser tachado de aventureiro "bebum", deixei as bodegas de lado para conhecer as paisagens que cercam a pequena San Rafael. O circuito do Valle Grande é um passeio obrigatório para quem visita a cidade. São 160Km de paisagens dignas dos mais lindos postais.
O circuito do Valle Grande oferece àquele que se aventura por sua estrada de terra a oportunidade de passar por dentro do Cânion Del Atuel, um dos poucos do mundo que permitem isso, já que, na maioria dos casos, o máximo que você consegue é seguir pelo alto.
Na quinta, aproveitando que a frente polar perdeu força, desci para Malargue em uma viagem de pouco mais de 150Km. O albergue que escolhi fica há uns 6km da cidade, no meio do campo. Era um albergue rústico, porém confortável e muito acolhedor.
Depois desse belo amanhecer de uma ensolarada sexta-feira peguei minha princesa e seguimos para o sul pela rota 40 em direção a famosa Caverna de Las Brujas, por conta do vento logo vi o termômetro despencar de 2 graus negativos para 8 graus negativos. O rípio, como me avisaram, está muito mal conservado nessa área e, pra falar a verdade, de rípio não tem nada, pois é uma estrada de terra muito da mal acabada. Minha princesa se mostrou valente e passou sem reclamar. A paisagem era fantástica e as vezes me perdia em sua beleza. Levei exatamente uma hora para chegar ao meu destino.
Para minha surpresa, na cabana que indicava recepção, não tinha nada, nenhuma alma viva. O vento era forte e o frio de congelar. Imaginei que, como ainda era cedo, os guarda parques ainda estavam para chegar. Parei minha princesa ao lado de uma placa que indicava estacionamento e me refugiei na entrada da cabana, me protegendo assim do frio e do vento forte.
As 10:10 percebi que havia algo de estranho, mas estava no lugar certo e na hora certa, sendo assim pensei que os guarda-parques pudessem ter tido algum problema. Escutei um estrondo e quando olhei vi minha princesa caída no chão, derrubada pelo vento. Resolvi mudá-la de posição, colocando em sentido corta-vento, mas não adiantou e em menos de cinco minutos lá estava ela outra vez caída, mas dessa vez com a haste da bandeira quebrada. Tirei-a do "estacionamento" e a protegi ao lado da barraca, de forma que não sofresse a ação do vento.
Fui ao banheiro para lavar o rosto e notei que a porta da cabana havia aberto e nesse momento um homem de estatura mediana e com jeito de quem acabara de acordar me observava com cara de poucos amigos. Fui em sua direção e ele fez sinal para que entrasse na cabana. Nos apresentamos e fui informado que hoje era o primeiro dia da greve dos guarda-parques, por isso não poderia visitar a caverna.
Conversamos um pouco, falei sobre a expedição, sobre a vontade que tinha de conhecer a caverna e, gentilmente, o Guillermo disse que abriria uma exceção, só que com uma condição: a entrada, normalmente de 20 pesos, deveria ser paga com algumas moedas de real. Revirei minhas coisas e achei uns R$ 2,00 em moedas de 0,50, 0,25, 0,10 e 0,05. Ele ficou feliz da vida e lá fomos nós.
Foi um passeio lindo. Fiquei boquiaberto com a caverna que, muitas vezes me obrigava a rastejar para passar pelos seus apertados túneis que levavam a salões minuciosamente esculpidos pela natureza ao longo dos anos. Inesperadamente o Guillermo seguiu além do roteiro turístico, em partes visitadas apenas por pessoas autorizadas, normalmente pesquisadores.
No caminho de volta para Malargue parei para conhecer umas quedas d'água e fui muito bem recebido por outro Guillermo, proprietário do lugar. Acho que era o dia dos Guillermos!!! Ele me contou que deixou a capital argentina há oito anos estressado com a vida corrida e cheio de problemas de saúde. Trocou tudo que tinha pelo pedaço de terra em Malargue e agora vive sem conta bancária, sem cartão de crédito e com saúde para dar e vender. Suas terras são privilegiadas e oferecem aos turistas vias de escalada de todas as dificuldades possíveis e imaginárias, além de duas belas quedas d'água e trilhas exuberantes sobre o relevo acidentado de um lugar que, há milhões de anos, era coberto pelo mar, guardando até hoje fósseis de diversas espécies.
No sábado, mais um dia de sol, segui para Las Leñas, uma vila localizada há 80Km de Malargue, reconhecida por ser o maior centro de esqui da América latina. No caminho tive que tomar cuidado com o gelo que cobria parte da pista, mas cheguei sem problemas ao meu destino. A vila está se preparando para o início da temporada, marcado para o próximo dia 16 e, sendo assim, apenas operários andavam por suas pequenas ruas.
Voltando para Malargue parei em dois pontos turísticos muito visitados na região, o Posso de Las Ánimas, uma impressionante formação geológica circular que esconde no seu fundo um enorme lago de águas azuis.
O outro ponto turístico é a Lagoa de La Niña Encantada. Uma lagoa de águas cristalinas cheia de enormes trutas. Fiquei sentado sobre as pedras ouvindo o barulho do silêncio que preenchia o tempo naquele pedaço do paraíso.
O outro ponto turístico é a Lagoa de La Niña Encantada.
Uma lagoa de águas cristalinas cheia de enormes trutas. Fiquei sentado sobre as pedras ouvindo o barulho do silêncio que preenchia o tempo naquele pedaço do paraíso.
O entardecer do sábado estava divino. Confesso que só não estava mais perfeito, pois você não estava aqui para desfrutar isso comigo.
No domingo, pelos meus planos, desceria para o sul, mas o Jonny me convidou a ficar mais um dia com eles para participar do assado dominical da família. Como era o único hospede do albergue, acabei fazendo uma amizade muito legal com todos e não tinha como dizer não a esse convite.
Ontem, ao sair de Malargue, confesso que não tinha a mínima idéia para onde iria. O Jonny me aconselhou sair da estrada principal e seguir por uma de terra até a pequena Copahue, uma cidade quase fronteira com o Chile que é muito rica da cultura indígena. Pelos meus planos, desceria direto até Las Lajas ou se possível avançaria até Junin de Los Andes, em uma viagem de 750Km, sendo que 170Km por terra.
Fiquei tentado a seguir o conselho do Jonny, mas lembrei que no final de agosto passo outra vez por esse lado em direção a Ushuaia e aproveito para explorar a mais região. O dia estava ótimo para viajar com confortáveis 10 graus, mas a decisão de esticar até Junin teve seu preço e cheguei na cidade as 19:30 com o termômetro marcando - 2º. Junin de Los Andes, apesar do pouco apelo turístico, é a porta de entrada da Patagônia, ou seja, um lugar de belezas inigualáveis. Fico aqui por uns três dias para conhecer seus arredores e depois sigo para San Martin de Los Andes e Bariloche, o extremo sul dessa primeira fase da expedição, já que o gelo começa a cobrir as estradas, tornando muito perigoso qualquer deslocamento.
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
San Rafael-EX-Argentina Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Thainá Costa da Silva Date: 05/06/2008
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