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Expedições Solitárias 2007/2008 - 15ª Parte "Quarteto Fantástico"

Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a décima quinta parte:

19 de junho de 2007

San Carlos de Bariloche é uma cidade muito bonita, mas, na minha opinião, está longe do charme e da tranqüilidade de San Martin de Los Andes. A cidade, muito procurada tanto no inverno como no verão por pessoas de todo mundo, cresceu muito nos últimos anos devido à injeção de capital proveniente do turismo e por isso pode parecer um pouco confusa para quem chega. Para me ambientar tirei o primeiro dia na cidade para conhecer as ruas do centro, andando até a beira do lago Nahuel Huapi e apreciar a vista com as montanhas ao fundo.

Um dos passeios obrigatórios de Bariloche é subir o teleférico Cerro Otto que leva a um morro de 1.400 m, localizado a pouco menos de 5Km do centro da cidade. Para chegar até lá tem um ônibus do próprio teleférico que sai do centro de hora em hora.

Do alto do morro a paisagem é fantástica. O branco da neve cobrindo as montanhas, anunciando a chegada do inverno, com a cidade e o lago Nahuel Huapi ao fundo forma uma paisagem realmente inesquecível.

Enquanto estava lá em cima chegou uma verdadeira creche e foi muito divertido ver as crianças se acabando na neve. Dá uma olhada na cena...

Na última sexta-feira conheci um casal de brasileiros que está passando a lua de mel aqui na cidade de neve. O Vicente e a Vanessa, cariocas por sinal, são duas pessoas incríveis e logo surgiu uma grande amizade. A nós três se juntou o Juan Pablo, ou simplesmente Pablito, como lhe chamamos. Ele não gosta muito, mas essa é nossa maior diversão. Um colombiano ligado no 220V, muito engraçado e mestre na arte de fazer "merda". Descuidou, ele apronta uma...

Juntos, tiramos o sábado para conhecer Villa La Angostura. Pegamos um ônibus na rodoviária e fomos. Apesar do sol que fazia em San Carlos de Bariloche chegamos debaixo de chuva a Angostura. O Pablo estava louco para ver neve caindo, mas o máximo que conseguiu foi brincar na que tinha acumulada pelo chão da pequena cidade. Andamos pela rua principal, almoçamos e fizemos várias guerras de neve. Nos divertimos muito. Parecíamos crianças brincando naquele frio todo.

Voltamos a noite para Bariloche com a missão de ainda alugar as roupas para esquiar no domingo. O ônibus atrasou e ainda fomos parados pela polícia rodoviária que olhou todo o ônibus, mas só pediu documento para mim e para o Pablo. Claro que coloquei a culpa no colombiano!!! Tomar dura nessa altura do campeonato, até que foi divertido. Ao chegarmos na cidade já passava das nove da noite e a maioria das lojas estava fechada, mas, por sorte, a loja onde o Vicente tinha visto o aluguel de roupa mais barato ainda estava aberta e alugamos nossas proteções contra o frio das pistas de esqui. Com tudo isso, perdemos o horário do jantar no albergue, porém, como tínhamos almoçado tarde, eu pelo menos não estava com fome, mas eles queriam comer alguma coisa.

- Pablo, já que você fala espanhol, pede uma pizza pelo telefone. - disse o Vicente.
O Pablo concordou e, depois de escolherem os sabores, o Vicente foi tomar um banho enquanto eu e Vanessa esperávamos a televisão e o DVD do albergue liberarem para colocarmos um filme. Vi o Pablo pedindo a pizza e reforçando que queria uma de quatro pedaços, para os três. Não dei muita atenção ao fato, imaginando uma pizza "GRANDE" cortada em quatro "GRANDES" fatias. Assim que o Vicente chegou, o entregador entrou no albergue. Quando olhei o tamanho da pizza comecei a chorar de rir, mas o melhor foi o diálogo:

- Essa é a pizza? - Perguntou o Vicente com seu divertido "portunhol".
- Sim. - respondeu o entregador. - A pizza do Sr. Juan Pablo.
- Não acredito que o Pablo fez merda outra vez. - Disse o Vicente referindo-se as trapalhadas do nosso amigo colombiano.
Nesse momento o Pablo entrou na conversa.
- Não, está errado. - falou cheio de convicção. - Eu pedi uma pizza de quatro pedaços.
Sem pestanejar, o entregador abriu a diminuta embalagem de pizza e respondeu apontando para os pequenos pedaços:
- Então... 1, 2, 3, 4. Quatro pedaços de pizza.
A esse ponto eu já estava me contorcendo de tanto rir. O melhor de tudo era a cara do Vicente querendo matar o Pablo e a cara do entregador sem entender nada. Por sorte ele tinha umas empanadas a mais que serviram para saciar a fome do casal enquanto o Pablo comeria sua pizza de quatro pedaços. Esse colombiano é uma figura!!!

O domingo era o dia da verdade!!! Nenhum dos quatro tinha esquiado antes e combinamos de fazer a aula juntos em Cerro Catedral, a mais bem estruturada estação de esqui da América do Sul, localizada a 19Km de Bariloche. Catedral, como é conhecido, oferece mais de 70Km de caminhos e pistas, sendo que a mais alta, para os mais hábeis, está localizada a 2.100m de altitude. As pistas são divididas por cores que indicam os níveis de dificuldade, sendo verde as mais fáceis e preto as mais difíceis. Para os "marinheiros de primeira viagem" o mais indicado é contratar um instrutor particular ou fechar pacote, bem mais barato, que inclui: passe de um dia para montanha, equipamento completo e quatro horas de aula em grupo de até 12 pessoas, sendo duas horas pela manhã e duas a tarde. Para subir a montanha e se arriscar no nível mais básico de pista, o ideal é que o iniciante tenha pelo menos umas 12 horas de aula e alguns dias de prática na zona de principiantes, onde cair e atropelar os outros é bem aceito por todos. Eu que o diga!!! Só de crianças derrubei umas três, apesar da Vanessa jurar de pé junto que foram muito mais.

O Pablo pegou o jeito bem rápido, mas depois confessou que pratica patinação no gelo e alguns movimentos são muito parecidos. As três crianças que estavam no nosso grupo se divertiam mesmo em cada queda. Vanessa e Vicente estavam receosos, ainda mais quando o Vicente estreou a série de tombos dos adultos. Nos divertimos, mas não podia rir muito, pois sabia que logo chegaria meu primeiro tombo. Eu prestava atenção em cada explicação e somava isso a observação que fazia do Pablo, com isso consegui não cair durante nossa primeira aula. Mas depois... Nosso instrutor se despediu e marcamos nosso novo encontro para as 14:30, teríamos então duas horas para comer e descansar, mas quem disse que queria descansar?

Queria praticar mais e fiquei muito feliz que meus três amigos estavam pensando a mesma coisa. Nem de perto tínhamos chance de subir a montanha, mesmo que fosse para as pistas de nível fácil, mas já começava a sentir confiança em arriscar subir um pouco a pequena ladeira da parte de principiantes para arriscar a descida, coisa que o Pablo já estava fazendo muito bem.

Subimos os quatro, mas antes fiquei observando uma descida do meu amigo colombianos que realmente parecia ter pego a "manha" de esquiar. Ao chegar na parte de cima notei que era um pouco mais inclinado do que parecia, mas não estava na hora de sentir medo e lá fui eu para o meu primeiro tombo numa descida. Quando vi que ia pro chão, tomei o cuidado de cair de forma que protegesse o joelho operado e deu certo, mas agora tinha que praticar um dos pontos ensinados na aula: levantar depois de uma queda no meio da ladeira e sem retirar os esquis.

 Nem acreditei que tinha conseguido levantar tão rápido e fiquei feliz, pois sabia que, como aquele, outros tombos mais viriam. E vieram!!! Consegui chegar na parte de baixo com três tombos. Comemorei, pois, no fundo, achava que cairia muito mais. Eu e Pablo decidimos olhar uma outra descida que parecia ser mais longa e menos inclinada, o que nos daria mais tempo de descida. Vanessa e Vicente ficaram lutando para descer e não vieram conosco, pois foram almoçar.

Chegamos no nosso novo desafio. Uma ladeira bem maior e realmente um pouco menos íngrime. O Pablo, como sempre ou quase sempre, desceu sem cair e eu dei pulos de alegria ao conseguir descer com apenas uma queda, conseguindo, inclusive, parar no final da pista sem atropelar ninguém. O único problema é que ainda não tinha aprendido a fazer curva e isso dificultava um pouco as coisas. Praticamos mais algumas vezes e quando olhamos o relógio faltavam apenas 40 minutos para a aula da tarde, por isso fomos fazer um lanche e beber alguma coisa. Estava morrendo de sede. O esforço físico na montanha desidrata muito mais rápido do que na cidade, pois na altitude, o corpo precisa de mais oxigênio e acaba consumindo muito mais líquido.

Fizemos um lanche e voltamos para nossa aula. Como o instrutor demorou subimos a pista mais inclinada e curta para praticar mais um pouco. A Vanessa e o Vicente ficaram na parte baixa se divertindo, principalmente com os meus tombos. Na primeira tentativa caí feio!!! Por sorte a Vanessa estava filmando e pegou parte do meu tombo!!!

O segredo é não ter medo e não se intimidar com as quedas. A segunda tentativa foi muito melhor e consegui descer sem cair. Claro que não preciso nem dizer que vim freando desde o primeiro momento!!!

Na parte da tarde nosso instrutor separou o Pablo, pois já estava bem mais avançado do que os demais. Finalmente aprendemos a fazer curvas e estava ansioso para voltar para a descida mais longa e praticar. Na minha primeira descida, quando ia fazer uma curva um menino de aproximadamente uns 11 anos passou com a prancha de snowboard justo na minha frente e nos embolamos. Tomei cuidado de protegê-lo e com isso acabei caindo de mau jeito e forçando o joelho. Ele levantou bem e perguntou se também estava bem. Pedi desculpas e ele riu, me lembrando que estávamos em uma pista de principiantes e por isso as quedas são normais, logo não deveria me preocupar. Levantei sentindo um pouco de dor no joelho e continuei minha descida sem problemas.

Com a prática comecei a sentir a evolução do meu equilíbrio e das minhas curvas, claro que não chegava nem aos pés do meu amigo colombiano apesar da sua constante ajuda com dicas e correções, mas estava evoluindo e isso era o que importava. Meus amigos cariocas estavam mortos de cansaço e optaram por descansar um pouco. Apesar da dor que sentia não só no joelho, mas em todo corpo devido as inúmeras quedas e a grande esforço muscular exigido pelo esporte, continuei subindo e descendo. Às vezes subia até a pé, pois a fila do "elevador" estava muito grande e, depois de cada descida, consultava o instrutor para corrigir meus erros. Já estava caindo bem menos. O dia terminou com muitas dores e um gostinho de quero mais.

Ontem amanheci literalmente moído!!! Acho que a única parte do corpo que não doía era o cabelo!!! Estou pensando em ficar mais uns dias em Bariloche, pois dia 20 parece que começa a festa da neve, onde vários esquiadores descem a montanha a noite carregando tochas em um espetáculo que dizem ser imperdível. Depois começo minha subida em direção a Neuquén, seguindo depois para Bahia Blanca.

Um abraço e até breve...

Fonte: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias
Cidade: Bariloche-EX-Argentina
Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias
Publicado: Thainá Costa da Silva
Date: 19/06/2008 <%insert_data_here%>

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  Evento 8011 - Expedições Solitárias 2007/2008

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