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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a vigésima segunda parte:
27 de agosto de 2007
Conforme combinado, no domingo, eu, Denis e Karina, fomos até as cataratas pelo lado argentino. Para chegar, diferente do lado brasileiro que vamos de ônibus, temos a opção de caminhar ou ir de trem. Como o dia estava frio e com um pouco de chuva optamos por seguir de trem.
Muitos insistem em discutir qual lado é mais bonito, o brasileiro ou o argentino, mas posso afirmar que são passeios completamente diferentes. No lado brasileiro você consegue ter uma visão melhor dessa grandiosa obra da natureza, porém, pelo lado argentino, você chega bem próximo da queda d'água, podendo vê-la de cima e se impressionar com sua força.
Como combinado, na segunda levantei acampamento e parti em direção a capital paraguaia. Foi difícil me despedir de amigos tão queridos, mas a expedição tem que continuar. Foram tranqüilos 360Km por uma boa estrada. Estava muito receoso com a minha visita a essa cidade devido ao risco de roubo e violência, por isso já cheguei com todo cuidado.
Assim que chego nas cidades, antes de ir ao hotel, procuro dar uma volta de reconhecimento, mas em Assunção fiz questão de ir direto para o lugar onde dormiria. A cidade não possui albergues, já que não é um destino turístico muito comum, por isso a melhor opção foi um hotel barato do centro. Os donos, um casal de senhores, eram muito simpáticos e logo que cheguei fizeram questão de me alertar quanto ao perigo na cidade.
1 - O primeiro conselho foi para guardar a moto em um estacionamento e dar preferência em caminhar pela cidade.
2 - Táxi, apenas chamando por telefone, pois as ligações são gravadas.
3- Não caminhar pela cidade a noite, pois os moradores das vilas, ou favelas, normalmente vão para as ruas, se aproveitando do fraco policiamento noturno para praticar assaltos.
4 - Câmeras fotográficas e filmadoras, nem pensar.
Quando fui colocar a moto no estacionamento, o dono do lugar fez questão de esconder a moto atrás dos carros, pois disse que se vissem que ali tinha uma moto de um viajante, certamente invadiriam o lugar para roubá-la. Não preciso nem dizer como já estava me sentindo...
Senti falta do colete a prova de balas, uma roupa camuflada e a faixa do Rambo para amarrar da testa. Mas queria dar uma chance a cidade e mesmo assim saí para conhecer um pouco do centro que, durante o dia, é fortemente policiado. Já próximo ao hotel, em uma das principais praças da cidade, encontrei um grande acampamento.
Descobri depois que são pessoas que se autodenominam "Sem Terra" e pressionam o governo até conseguirem alguma. Quando conseguem, vendem as terras e voltam a acampar na cidade, alegando que as terras eram improdutivas. Os donos do hotel me disseram também que não deveria de forma alguma atravessar a praça, pois são constantes os roubos aos turistas desavisados.
Assunção, apesar de ser uma capital, nem de perto lembra uma. Com apenas 600.000 habitantes, poucos prédios e poucos carros, a não ser nas horas de rush, poderia até ser uma cidade linda e tranqüila se não fosse por conta da grande diversidade social. Atravessei a praça para ter uma melhor visão do rio e me surpreendi com outra visão que tive. Um policial se aproximou, me pedindo mais uma vez, para tomar muito cuidado e jamais descer em direção ao rio.
Mesmo com toda tensão da cidade, uma agência de viagens oferece dois passeios de barco muito interessantes, um de dois dias e três noites pela região do Chaco e outro de seis dias e sete noites pelo Pantanal. Os passeios são bem caros, mas a gerente da agência me convidou a escolher um e tentar assim tirar a má impressão do país.
Cada passeio acontece apenas uma vez por mês, por isso deixei a possibilidade de talvez voltar a cidade em outubro para conhecer melhor essa região pouco explorada turisticamente. Na noite de terça fiquei até tarde debruçado sobre mapas para decidir o que faria. Já estava decidido a deixar a cidade na quarta, mas não sabia se entraria pela Argentina ou se iria pelo noroeste paraguaio, entrando na argentina já na altura da província de Salta, perto da fronteira com a Bolívia.
Como tenho que estar em Mendoza no início de setembro para começar minha descida para Ushuaia com o Dario, optei por entrar logo pela Argentina e depois, caso realmente volte a Assunção, entrar pela Bolívia, passando assim pelo noroeste paraguaio para chegar a capital.
Com essa minha decisão sabia que teria uma quarta-feira difícil, já que teria que percorrer mais de 1.200 Km em um único dia até a cidade de Jujuy na Argentina. O pior é que a estrada não está toda asfaltada e certamente isso me faria perder um bom tempo, mas já que aventura pouca é bobagem, tomei a decisão de arriscar.
Para conhecer Salina Grande tive que atravessar uma estrada que chega a 4.170 metros de altitude. Não foi fácil passar de moto, pois devido a falta de ar, minha princesa sentiu muita dificuldade e tive que subir alternado em 1ª e 2ª marcha em uma velocidade entre 25 e 40Km/h.
Depois disso, muito feliz por não estar me sentindo mal, desci até 3.500 metros e cheguei ao Salar Grande. Parei a moto e fiquei admirando mais essa maravilha argentina. A grandiosidade do lugar era realmente de tirar o fôlego, ainda mais ao imaginar que, no passado, tudo aquilo tinha sido uma imensa lagoa e agora era um grande deserto de sal.
Em Tilcara, outro povoado da região, fui visitar a tal fortaleza que os antigos habitantes construíram para se proteger de possíveis invasões, chamada Pucará de Tilcara. Em queshua, língua dos Tilcaras, a palavra pulcará quer dizer fortaleza. Por último, mas não menos importante, Pulmamarca. Interessante observar como o povo da região apresenta traços bem bolivianos, assim como alguns costumes, como o forte colorido dos artesanatos.
Em um dos dias que estava em Jujuy, quando saía para conhecer algumas dessas maravilhas naturais, encontrei uma pequena procissão. Um senhor me explicou que era uma festa tipicamente boliviana e que a santa em questão não era reconhecida pela igreja católica, porém, em respeito a cultura local, era reconhecida pela igreja da região. Disse ainda que os carros coloridos, cheios de coisas penduradas como talheres de prata, dinheiro, e bichos de pelúcia representam os escravos da santa que oferecem a ela suas riquezas. Os bichos representam então seus animais.
Ontem, domingo, antes de deixar a cidade me aventurei um pouco mais para conhecer as piscinas de águas termais e umas lagoas cercadas de montanhas, mas isso eu conto no próximo relato. Adianto que agora estou na cidade de Salta e, depois de visitar ontem a secretaria de turismo, posso garantir que não faltará aventura essa semana. Prepare-se!!!
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Assunção-EX-Paraguay Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira Date: 27/08/2008
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