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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a vigésima terceira parte:
12 de setembro de 2007
Agora vamos a mais uma comemoração: Mais um recorde batido na expedição ao longo desse mês, 7.000Km em 31 dias, ou seja, uma média de 225Km/dia. Cheguei moído aqui em Mendoza. A moto então, nem se fala, mas isso eu conto no relato. Antes de deixar Jujuy fui visitar as piscinas de águas termais. O problema é que depois de ter conhecido as termas de Dayman no Uruguai e as de Pucón no Chile quando fui em 2005, qualquer um passa a ficar muito exigente. O que encanta nas termas de Jujuy é a paisagem ao redor.
Decidi me aventurar pelas montanhas para tentar chegar nas lagoas que ficam bem no seu centro. Segui pelo caminho de terra torcendo para a estrada estar aberta, ou para, pelo menos, ter um caminho para passar com a moto. Faz parte!!! Voltei para a estrada de asfalto e dei a volta na montanha para tentar mais uma vez chegar nas lagoas. Enquanto fazia isso uma forte neblina desceu e quando finalmente consegui chegar nas benditas lagoas, não podia ver absolutamente nada. Tanto esforço e nada... O jeito foi voltar para Jujuy, pegar minhas malas no hostel e seguir para Salta.
São duas as estradas que ligam Jujuy a Salta, uma duplicada, bem sinalizada, utilizada pela maioria e outra bem estreita, na maioria das vezes com passagem para um único carro, acompanhando o relevo das montanhas da região em um perigoso caminho de "cornisas" (ribanceira em espanhol), mas com um visual, segundo os moradores, de tirar o fôlego. Não preciso nem dizer qual escolhi, certo? Depois de uma manhã frustrada, tinha que tirar o pé da lama e realmente tirei. A estrada era simplesmente linda. Fui com todo cuidado, pois, por trás de sua beleza o perigo é grande, mas de dia e com cuidado, é tranqüilo passar.
Já quase chegando a Salta, a estrada estava fechada para uma procissão. Tinha muita gente. O trânsito estava desviado e os policiais estavam completamente enrolados ao dar informações. Cada um me mandava para um lado diferente e no final acabei caindo no meio da procissão com moto e tudo. Passei devagar enquanto todos pareciam estar vendo um alienígena que acabava de chegar de um planeta bem distante. Só comigo acontece essas coisas.
Em Salta fiquei em um hostel super "buena onda" e me encantei pela cidade. Totalmente estruturada para o turismo, oferece diversas opções de passeios, gastronomia e hospedagem. A noite a parte central recebe uma iluminação especial dando aos amantes da fotografia um belo presente. Perdi as contas de quantas fotos tirei da cidade. Bem próximo a Salta, pude matar as saudades de um bom trekking pela mata, indo conhecer a Quebrada de San Lorenzo. Um parque com uma grande área verde e cheio de trilhas. Imperdível para os amantes das caminhadas.
Na tarde desse mesmo dia, aproveitei um seminário que teria na cidade voltado para profissionais de turismo, o tema era "Turismo Com Sabor e Música Saltenha". Nada melhor para conhecer bem a cultura regional. No final do evento, os organizadores perguntaram se eu poderia falar um pouco sobre a expedição, mostrando alguma coisa da Argentina para a platéia. Por sorte estava com meu pen drive e o arquivo da apresentação que tinha feito na escola de Foz.
Foram 30 minutos de palestra e tentei mostrá-los que, para trabalhar com turismo na Argentina, devem ser os melhores, pois não falta concorrência por aqui. O país tem uma grande adversidade natural e dá ao turista uma gama enorme de opções. No final, os mais de 300 participantes pareciam ter gostado tanto do que ouviram como das imagens que viram . Quando o evento terminou me vi cercado de gente pedindo informações e os organizadores vieram me agradecer dizendo que não poderia ter sido melhor. Fiquei feliz.
No dia seguinte, uma quarta-feira, levantei bem cedo, pois iria dar uma "voltinha" de moto. Algo em torno de 500Km sendo que mais da metade seria de rípio. Pra começar segui já por uma estrada de rípio que serpenteava a montanha mostrando lindos vales que formavam uma bela paisagem.
A primeira parada foi no povoado de Cachi, ao sul de Salta.
Aproveitei para abastecer minha Princesa e segui para o sul pela famosa "Ruta 40". Entrei em outro povoado, Molinos, ainda mais afastado dos roteiros turísticos e por isso, ainda mais tranqüilo. Continuei descendo pela 40 e a tranqüilidade da estrada era realmente de impressionar. Nenhum carro passava nem para o norte, nem para o sul. Mais uma vez o visual era de tirar o fôlego. Em um dos pontos tudo parecia ser tão perfeito que não resisti e fiquei sentado no chão por um tempo contemplando toda aquela beleza. Mais a frente a paisagem mudou um pouco e a estrada começou a passar pelo meio de grandes pedras que pareciam ter sido enterradas no chão.
A volta para Salta foi por uma outra estrada, essa de asfalto. No caminho pude conhecer as formações rochosas que são o grande atrativo da região. Entre elas o Castelo de Pedra, imensas torres esculpidas pelo vento e pela água em uma grande parede de pedra, o Anfiteatro, uma área de acústica natural que até famosos músicos já utilizaram em suas gravações e a Garganta Del Diablo, moldada principalmente pela ação das águas.
Cheguei de volta a Salta as 19:30, exatamente 12 horas depois da minha partida. Foi um dia e tanto!!! Não satisfeito, no dia seguinte fui para o norte fazer outro circuito, um pouco menor, de 400Km. Nesse passeio a idéia era chegar até o viaduto que está a 4.200m, por onde passava o Tem das Nuvens e, de quebra, passar pela pequena Santa Rosa de Tastil onde aconteceria a tradicional festa da Pachamama.
Essa antiga crença diz que o homem deve oferecer a terra tudo aquilo que não quer que falte ao longo do ano que está por vir, por isso os moradores enterram principalmente comida, bebidas, cigarros e folha de coca. No ano seguinte, no dia da festa, abrem o buraco e consomem tudo aquilo que foi enterrado no ano anterior. Esse ritual sagrado é repetido a centenas de anos pelos povos mais isolados que fazem questão de manter suas tradições vivas.
Depois segui até San Antonio de Los Cobres para conhecer o viaduto. No caminho, a mais de 4.000m, um vento muito forte quase me jogou com moto e tudo no chão, mas como estava sem as mochilas, consegui segurá-la. Mas valeu o esforço, e como valeu.
Na sexta-feira, dia 31, deixei Salta e segui para o sul em direção a Tafil Del Valle, uma linda cidade da província de Tucuman onde passaria a noite. No caminho fiz a obrigatória parada nas Ruínas de Quilmes. Os Quilmes ocuparam a região até a chegada dos espanhóis e, como sua língua era apenas falada, não se sabe exatamente quando tiveram início.
Sabe-se apenas que resistiram bravamente a invasão Inca e, por 130 anos, a invasão espanhola. Eram hábeis artesãos, tinham bons conhecimentos de hidráulica e de táticas de defesa. O lugar, antes de ser destruído, chegou a abrigar 2.000 pessoas. Foi muito bonito conhecer tudo aquilo, mas tenho que confessar que fui tomado por uma certa tristeza e tive a sensação de poder ouvir os gritos de socorro de um povo que foi dizimado pela brutal força colonizadora.
Depois disso continuei para o sul em direção a Mendoza. No caminho parei ainda para visitar o Parque Nacional da Talampaya e o Valle de La Luna. Os dois são lindos, mas o segundo é mais do que lindo, é impressionante. Mas isso eu deixo para o próximo relato.
Em Mendoza fiquei na casa do meu amigo Dario e preparamos tudo para nossa partida que aconteceu no último final de semana rumo a Ushuaia. Aproveitei para fazer uma revisão na moto, afinal, depois de 21.000Km, bem que ela merece uma atenção especial: pneus, câmaras, freios, relação, filtros, vela e óleo. Não saiu barato, mas o bem estar da minha Princesa não pode ter preço, afinal ela é essencial para a continuação de mais essa Expedição Solitária.
Garanto o próximo relato estará de tirar o fôlego. Até dormir no meio da estrada a 5 graus negativos eu tive que dormir, pois ficamos presos no gelo. Mas faz parte!!! Curioso??? Então não deixe de acompanhar essa aventura!!!
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Mendoza-EX-Argentina Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira Date: 12/09/2008
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