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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a vigésima quarta parte:
22 de setembro de 2007
Ainda antes de chegar em Mendoza parei para conhecer o Parque Nacional da Talampaya e o Valle de La Luna, dois patrimônios da humanidade segundo a UNESCO. O primeiro na província de La Rioja e o segundo na província de San Juan. O Parque da Talampaya, como é conhecido, foi privatizado e hoje é explorado por uma concessionária.
Depois de visitá-lo fiquei com a leve sensação de que o verdadeiro explorado é na verdade o turista que desembolsa no mínimo 68 pesos para conhecer o parque que, pelo menos para mim, teve um certo ar de decepção. O parque é muito bonito, mas depois de visitar as quebradas de Salta com a Garganta Del Diablo e o Anfiteatro, acho que perde um pouco o seu encanto. Mas mesmo assim não se pode tirar a beleza do lugar, principalmente pela facilidade que se tem de ver vários desenhos rupestres nas pedras. Uma verdadeira viagem na história.
Seguindo então para o sul, na direção de Mendoza, passei pelo parque do Valle de La Luna e esse sim é de "tirar o chapéu". Por alguns momentos tinha realmente a sensação de estar andando em pleno satélite natural, algo um tanto quanto indescritível.
Saindo do Vale Pintado segui para um lugar que é conhecido como Campo de Bocha. O lugar recebe esse nome graças as perfeitas bolas de pedra que se acumulam por ali. Essas bolas, por mais incrível que possa parecer, são formadas ao longo de anos dentro da terra que, em um movimento natural, as expulsa em direção a superfície. Eu não acreditei muito nesse papo quando o guia contou, mas depois recebi uma explicação convincente no museu do parque e não tive mais dúvidas. Coisas da natureza!
A última parada do passeio no Valle de La Luna foi em uma formação de pedra que lembra perfeitamente um submarino. Além da curiosa formação rochosa, o lugar também foi habitat de muitos dinossauros no passado e oferece assim uma completa explicação ao turista através de um pequeno, porém muito bem montado, museu. Um lugar imperdível!
Depois desse lindo passeio segui em direção a Mendoza. A distância de aproximadamente 400Km tinha tudo para ser um passeio tranqüilo, mas na estrada sempre se deve estar preparado para tudo. Tudo começou quando já estava mais ou menos na metade do caminho. Tinha apertado a corrente da moto em Chilecito e achei que seria suficiente para chegar em Mendoza, porém, de uma hora para outra, comecei a sentir que estava frouxa. Não tive saída, tinha que parar para resolver.
O problema era que não tinha mais como apertá-la, pois já estava quase toda esticada, me sobrando apenas nada mais do que um mísero centímetro de aperto. Fiz o que podia e quando já me preparava para sair, um vento forte jogou a moto no chão. Tive que tirar todas as mochilas para colocá-la de pé com cuidado, pois o vento tinha ficado ainda mais forte. Esse era apenas o início de uma grande tormenta de um vento que recebe o nome de Vento Sonda, muito comum na região nessa época do ano.
O vento levanta toda terra e fica praticamente impossível passar de moto. Pra piorar não podia subir a velocidade para não forçar a corrente e tive que atravessar os 200Km que me faltavam a 60km/h tomando o cuidado de não ser jogado no chão pela tormenta. No caminho a única coisa que me restava era rezar para a corrente agüentar até Mendoza. Realmente tenho que agradecer as minhas proteções espirituais, pois a corrente resistiu bravamente até a porta da oficina, para onde fui direto. Quando cheguei na oficina, não consegui nem subir a rampa e tive que ser ajudado pelos mecânicos. Essa foi por pouco...
Depois de uns dias de recuperação em Mendoza sendo totalmente paparicado pelos pais do meu amigo Dario que resolveram me botar em uma dieta de engorda, deixei a cidade no sábado dia 08/09 com a companhia do meu amigo. O Dario deve rodar comigo por uns dois meses antes de voltar para casa, já que só em novembro começa a temporada no Aconcágua, seu lugar de trabalho. A minha Princesa também passou por uma bela revisão com direito a troca de pneus, relação (corrente, pinhão e coroa), pastilhas de freio e filtros, entre outras coisas.
De Mendoza fomos direto para Malargue onde passamos a noite em um hostel do grupo para o qual o Dario trabalha. No dia seguinte, um domingo, seguimos viagem para Caviahue, uma pequena cidade já na fronteira com o Chile. Já sabíamos que seria um deslocamento difícil e arriscado, pois em grande parte seria feito por terra, só não imaginávamos o que estava a nossa espera.
Descemos pela esburacada "ruta 40", caminho esse que já tinha feito na primeira vez que passei pelo lugar em junho e depois curtimos poucos quilômetros de asfalto, pois logo tomamos um desvio por uma estrada de terra para Caviahue. Para chegar nessa pitoresca cidade, existem dois caminhos, esse de terra que diziam ser lindo ou um por asfalto por onde teríamos que andar aproximadamente mais 300Km e certamente chegaríamos muito tarde no nosso destino. Com a ajuda do GPS encontramos ainda outra estrada que nos deu a sensação de estar em um rally de motos no meio dos Andes. Fantástico!!!
Quando estávamos a 20Km de Caviahue fomos parados por um morador que nos deu a bela notícia de que dificilmente conseguiríamos chegar na cidade, pois uns 700 metros da estrada estavam cobertos por gelo. Nos olhamos e, depois de uma breve reunião, decidimos tentar passar, ou, caso contrário, teríamos que voltar mais de 150Km de terra e depois percorrer ainda mais 300Km para chegar a um lugar que, naquele momento, estava a apenas 20Km de distância. Depois de receber essa notícia, paramos em uma pequena ponte.
Logo depois disso, o caminho piorou muito. Começou com muita lama o que nos exigiu grande equilíbrio para passar. Logo depois veio o gelo e, em uma das partes, a moto do Dario acabou caindo. Conseguimos tirá-la e avançamos um pouco mais. Já passava das 7 da noite, mas o dia ainda estava bem claro e teríamos ainda aproximadamente uma hora de luz solar para chegarmos a Caviahue.
Passamos por uma placa que indicava 7Km de distância e a essa altura já estávamos respirando aliviados, mas 3Km depois dessa placa chegamos a um ponto da estrada que nos venceu. Depois de várias tentativas tivemos que admitir: estávamos literalmente presos. As motos não saíam e não conseguiríamos andar nem para frente nem para trás. Estávamos exaustos e mortos de fome. Antes dos últimos raios de sol, montamos nosso acampamento bem no meio da estrada, onde o gelo estava mais rígido e as 9 da noite o relógio já marcava 5 abaixo de zero. Acho que nunca tremi tanto na minha vida. Foi a noite mais longa de todas. Como demorou a amanhecer.
Levantamos cedo, pois com o frio e o gelo mais duro, seria nossa única chance de tirar as motos. A noite foi tão gelada que o buraco onde estava minha roda traseira fechou e congelou. Passei uns 10 minutos picando o gelo com uma chave de fenda para poder soltar a roda. Conseguimos sair e no caminho cruzamos com dois carros de neve. Os motoristas não acreditaram quando contamos que dormimos na estrada e desceram dos carros para ver com os próprios olhos que estávamos bem.
Com um belo dia de sol chegamos a Caviahue. A cidade fica entre um lindo lago espelhado e um imenso vulcão. Um lugar indescritível. Por instantes esquecemos onde tínhamos dormido e ficamos parados só olhando sem acreditar que tudo aquilo era real. Fomos conhecer o centro de esqui e pra relaxar um pouco fizemos um passeio em moto neve. Sempre tive vontade de ver como era andar nesses brinquedinhos e depois da noite que tive acho que merecia esse presente. Pude comprovar como é diferente andar na neve com uma moto feita exatamente pra isso...
De Caviahue fomos para San Martin de Los Andes. A viagem foi muito tranqüila e toda feita por asfalto. Chegamos a San Martin com sol, mas logo no dia seguinte o tempo mudou bastante trazendo de volta o frio da cordilheira. Tiramos um dos dias para ir até a cachoeira do Chachil. Como já estávamos muito tempo sem fazer uma besteira, nos enfiamos por uma estrada de terra secundária e acabamos presos na lama. Com muita dificuldade e depois de duas horas, cruzamos o quilômetro que faltava para voltarmos a estrada de terra principal. Terminamos com lama até a alma, mas a vista da cachoeira compensou o esforço.
Para voltar para San Martin optamos pela estrada convencional, pois, pra piorar a situação, descobrimos que a estrada que pegamos e quase ficamos presos na lama, é proibida. Tínhamos passado dentro de uma reserva Mapuche e por sorte os "índios modernos" não resolveram nos preparar para o almoço...
De San Martin descemos para Bariloche e de lá direto para a hippie El Bolsón. A cidade foi invadida pelos hippies na década de 70 e até hoje conserva o jeito alternativo de ser. Um passeio recomendado é ir até um povoado próximo chamado Lago Puelo. O povoado recebe esse nome graças ao lago homônimo que está bem próximo.
Pra colocar um pouco de aventura, resolvemos fazer um trekking até o pico da montanha mais famosa da região, o Cerro Piltriquitron. Infelizmente, depois de um bom tempo de caminhada sobre o gelo, não tivemos como "lograr la cumbre", pois a neve tinha fechado todas as vias de acesso. Sentamos então em um mirante e ficamos apreciando a cidade por um ângulo um tanto quanto diferente.
Para descer, incorporei a criança e fiz o que sempre tive vontade de fazer: Me atirar na neve e descer rolando. Apesar do risco de encontrar um tronco no meio do caminho, foi muito divertido e o Dario acabou aderindo a brincadeira. Rimos bastante.
Na última terça deixamos El Bolsón e fomos para Esquel, já na província de Chubut. Na cidade descansamos um pouco as motos e fizemos o passeio no famoso Expresso Patagônico, um antigo trem a vapor que ainda está em atividade. O trem passa por lugares muito bonitos e termina o passeio em uma comunidade Mapuche onde se pode visitar um museu e desfrutar das belezas da Patagônia argentina.
Antes de deixarmos Esquel pegamos nossas companheiras de viagem e fomos conhecer a "Ruta de Los Lagos", uma estrada de 150Km de terra que passa por lagos paradisíacos. O mais lindo de todos, sem sombra de dúvidas, é o Lago Verde com suas águas cristalinas. O lago fica escondido entre uma verde vegetação e belas montanhas nevadas.
De Esquel atravessamos 670Km e chegamos ao litoral atlântico. Estamos agora em Puerto Madryn, em plena temporada de baleias, pingüins, lobos, elefantes e leões marinhos. Ou seja, o próximo relato estará imperdível. Espero sua visita!
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
La Rioja-EX-Mendoza Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira Date: 22/09/2008
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