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Expedição Anehembi : 800km! Um rio, um caiaque e um homem. Acompanhe o relato dos dias 07 e 08 de agosto de 2007 e veja as fotos dessa expedição histórica pelo lendário Tietê.
Levantei e fiquei andando pela vilinha. Vi que alguns pescadores já estavam levantando e arrumando suas tralhas para saírem para pesca. Foi ai que fui conversando com alguns deles, mas eram de pouca conversa, ai pude perceber que o receio era mutuo e que eu havia pensado estava confirmado e foram ficando menos arredios e aquele clima estava mudando.
Eu era o intruso ali, confesso que fiquei até envergonhado pois fiquei preocupado sem motivo. Ali só tinham famílias que vivem do seu sustento difícil que é a pesca, todos de boa índole como em todos os locais que esse valente povo me recebeu.
Arrumei a tralha que havia tirado do caiaque e Rogério, o mesmo rapaz que havia me ajudado no dia anterior estava ali para me ajudar a recolocar o caiaque na água.
Tirei umas fotos dos pescadores que já estavam mais a vontade comigo. Conversamos um pouco e parti as 8:00 h com um cansaço de uma noite de sono mal dormida e uma lição de vida a mais.
Nesse dia estava com a meta de chegar até a eclusa de nova Avanhandava e pernoitar pertinho dela a montante( parte de cima da barragem), no Yat clube Vale do Tietê.
Remei cerca de 22Km e estava na ponte de Barbosa onde ali sabia existir uma praia municipal. Cheguei lá as 10:00 e com intuito de comer um peixe da região .
Foi ai que um Sr. muito prestativo pescador e dono do quiosque da praia de Barbosa me recebeu. Chamou uma das filhas para fazerem uma porção de um peixe que eles apelidaram de "porquinho".
Saboreei um delicioso peixe na companhia do prestativo e simpático Sr.Américo. No bom papo, me contou como era o local antes da construção da barragem de nova Avanhandava.
Ali em frente existia o salto de Avanhandava, local turístico que possuía uma enorme estrutura com restaurante nas ilhas e com enormes passarelas. Toda espécie de peixes do ecossistema natural existiam ali, como pintados, dourados, corimbas, Piaus, enfim os peixes que eram abundantes no rio.
Os turistas podiam observar os peixes em seu habitat como num grande aquário a céu aberto.
Porém tudo isso é passado. O restaurante e as passarelas foram dinamitados para dar passagem as futuras embarcações e o resto ficou em baixo das águas da represa de Nova Avanhandava.
Assim me contou com tristeza Seu Américo o pescador que pegava os dourados com as mãos! Isso mesmo como ele disse não precisava nem de vara anzol ou isca. "Para subir as corredeiras do salto os peixes saltam e alguns caiam em suas margens"ele me disse emocionado: "Não precisava de nada para pescar".
Esse é o preço do desenvolvimento sem planejamento. Hoje essas espécies desapareceram do ecossistema e do Rio Tietê, e outras proliferaram espécies bem diferentes que foram introduzidas.
Os pescadores hoje vivem de uma assistência do governo na época da piracema, época que nem sempre condiz com a desova da espécie introduzida, mas mesmo assim sofrem forte fiscalização dos agentes florestais que estão sim fazendo seu trabalho.
Difícil trabalho que as vezes o "sistema" os impede de autuar os verdadeiros destruidores de todo um eco sistema e culpa o pequeno pescador pelas mazelas do rio, um rio que foi mudado, ceifado e inundado com espécies que não tem nada a ver com a legislação em vigor nas questões da Piracema ( época de desova dos peixes) Fica aqui a pergunta.
No País das incoerências o que é certo e errado?
Quem sempre paga a conta descabida do desenvolvimento a qualquer preço? Como cidadãos de bem que cumprem seus direitos e deveres não podemos permitir que os velhos discursos sobre desenvolvimento nos entorpeçam e não vejamos os problemas sócio ambientais e sem questionar veemente seus futuros e reais impactos.
Meio ambiente é nossa vida inserida nele e não algo a parte.
Sai da praia de Barbosa despedindo do novo amigo e triste por toda realidade que vivemos nesse nosso País.
Remei ate as 17:30 onde avistei a contra sol umas edificações ao longe pois aqui a represa se torna enorme. Solicitei via radio contato com o yat clube marina vale do Tietê, que pelo nome e indicação imagina-se ser uma marina.
Fui atendido atenciosamente pelo prestativo operador Nelson da eclusa de Nova Avanhandava, onde eu estava a cerca de dez Km dela.
Ele fez um contato via fone com o referido local e me disse que não era uma marina. Estranhei pois em minhas anotações do Guidotti estava escrito que era uma marina. Para escapar do sol e dos reflexos na água remei a minha direita e margeei toda orla da praia municipal de Buritama, por sinal local lindo e conservado. Havia passado antes em um condomínio residencial enorme com gigantescas casas e enormes gramados.
Nesse local havia um senhor pescando em um gigantesco deck (atracadouro) e expliquei sobre minha viagem e todo equipamento que carregava e que precisava de um lugar seguro para pernoitar.
Pedi se poderia montar minha barraca no seu gramado, para poder assim sair cedinho para eclusagem de Nova Avanhandava. Toda espécie de desculpas ou indicações que na praia municipal seria melhor para eu passar a noite e coisas do tipo foram ditas para se livrarem do "incomodo", ou seja, eu. As pessoas ficam desconfortáveis em receber alguém estranho e que esse alguém "invada" seu imenso espaço.
Por isso prefiro acampar sempre no meio do nada e no mato, principalmente longe de gente desse tipo!
Realmente as pessoas mais simples têm muito mais para oferecer na questão de acolhida e receptividade. O pouco que tem compartilham. Por isso o mundo anda do jeito que anda!
Engraçado que em alguns municípios sou recebido pelo prefeito ou autoridades, outros pelas pessoas simples que me são muito mais prestativas.
Estava escaldado de passar a noite sem dormir e fiquei com a opção da tal marina que não era marina.
Contatei novamente a eclusa e o operador novamente ligou para o local e pediu para que pelo menos alguém me esperasse na praia.Ali tem um clube e uma pousada a cerca de 500mts da água.
Duas simpáticas atendentes me recepcionaram depois de varias ligações do operador da AES, e não podiam me ajudar pois não tinham um carro para levar minhas tralhas ate a pousada e não podiam me permitir acampar na praia que estava deserta.
Pronto outra roubada!!!
Depois de conversar e explicar bem minha viagem, de avisar que havia mandado material para prefeitura de Buritama, e que a noiite anterior havia passado em claro, ela ligou para outra atendente que disse não haver problema de acampar ali. Isso já eram 19:00, e já estava escuro. Ela então me permitiu acender as luzes da praia para eu me ajeitar por ali.
Havia remado 50 Km nesse dia sentei-me do lado do caiaque, na beira da água, e me alimentei com um kit de café da manha. Estava meio decepcionado pelo local ser chamado Yate clube marinas e não ser nada do que tinha nas minhas anotações e principalmente pela falta de atendimento adequado para quem vem pelo rio.
São as grandes falhas do turismo náutico de nossa região toda: poucos pontos de apoio ao navegante e olha que existem inúmeros proprietários de embarcações de recreio em toda extensão da Hidrovia.
Cheguei a tirar meu colchão e o saco de dormir e iria dormir ali mesmo do lado do caiaque, na beirinha do rio, olhando o dito cujo e o magnífico céu. Partiria o mais cedo possível no outro dia daquele lugar.
Bem fiquei meio indignado por não ter uma solução para eu me hospedar. Minha proposta era atualizar o site e divulgar o município de Buritama, por isso procurei a marina que não era marina. Recebi nesse momento ligações dos amigos que são mais que amigos.
Na noite passada não consegui falar com ninguém.
Refiz-me do cansaço e decidi dormir na tal pousada. Eram oito da noite. Tirei a imensa tralha do caiaque e carreguei as mochilas como pude. Fiz uma cangalha com o remo onde levei os sacos estanques que ficam fora do caiaque.
Carreguei o caiaque com algumas tralhas dentro ainda, e estava pesado, cerca de 200Mts da praia e o escondi do lado de um quiosque.
Apaguei as luzes da praia e peguei as duas mochilas e a cangalha que havia feito e fui subindo ate a tal pousada no escuro, só com minha lanterna de cabeça.
Deixei a tralha na porta do primeiro apartamento que vi e fui até a recepção suando e cansado do esforço. Para espanto das atendentes que me viram ali disse logo que queria um quarto e que não iria dormir na praia não!
Foram prestativas nesse momento e ate seguraram um pouco o serviço do jantar para eu poder tomar um banho e me alimentar melhor.
Jantei muito bem e em seguida fui atualizar o site, pois aqui o sinal da TIM é ótimo.
Obrigado aos amigos que pareciam ter combinado em ligar pra mim, um depois do outro, incrível não.
Consegui apenas descarregar as fotos e adormeci ao lado do computador. A noite anterior foi de matar.
Fonte:
Nilton Zerlin Cidade:
Buritama-SP-Brasil Fotos: Nilton Zerlin Publicado: Thainá Costa da Silva Date: 14/01/2008
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