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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a vigésima quinta parte:
5 de outubro de 2008
Assim que chegamos em Puerto Madryn fomos recebidos por um grupo de baleias que relaxava na costa da cidade, bem próximo a praia. Era a primeira vez que via uma baleia tão de perto e sabia que era só o começo, pois poderia me aproximar ainda mais em Península Valdes. Tiramos o sábado para conhecer um pouco da cidade e também para descansar. No nosso passeio chegamos até Punta Loma, uma grande reserva de lobos marinhos.
Ficamos um bom tempo observando o curioso comportamento desses animais. Os machos tratavam de cuidar das fêmeas do seu harém que pode variar de duas a até doze charmosas lobas. A tarefa de cuidar de tanta mulher não é fácil e por isso vivem estressados e prontos para uma boa briga com qualquer outro macho que tente se aproximar do seu território. Já as fêmeas, quando não estão tentando "dar uma volta no macho", estão dormindo, ou amamentando seus filhotes, ou, quando o macho permite, tomando um bom banho de mar.
No domingo saímos para Puerto Pirâmide, um pequeno povoado de aproximadamente 400 habitantes, localizado em plena Península Valdes. Para entrar na península o turista não-argentino paga 40 pesos, algo em torno de R$ 28,00, mas vale, e como vale. Um dos passeios obrigatórios, porém nem sempre possível devido as condições climáticas, é sair para fazer a observação das baleias do tipo Franca Austral.
Essas baleias são impressionantemente dóceis e muito curiosas, se aproximando sempre dos barcos para ver de perto o que está acontecendo. No final eu já não sabia quem estava fazendo a observação, se éramos nós, os turistas, ou elas, as baleias. Sabia que o barco chegaria perto, mas não imaginava que era tão perto. Em um momento uma das baleias veio nadando em direção ao barco a toda velocidade e, ao se aproximar, diminuiu e fez uma suave curva, passando bem próximo de todos que se debruçavam para admirá-la.
Pelos nossos planos, à noite voltaríamos para Puerto Madryn e, antes disso, daríamos a volta na Península para ver os elefantes marinhos e, se tivéssemos sorte, alguns pingüins. Os moradores do lugar nos desaconselharam a fazer a volta completa, pois disseram que não veríamos nada diferente do que fazendo a meia volta, de aproximadamente 230Km. Aceitamos a sugestão e lá fomos nós pelas estradas de terra.
Como depois do passeio iríamos direto para Madryn, saímos com as motos já carregadas. Com a chuva do dia anterior encontramos alguns trechos da estrada com bastante barro mas mesmo assim, optei por manter o ritmo mais alto e me diverti com as derrapadas. Em um certo momento, entre uma derrapada e outra, notei que não via mais o Dario no meu retrovisor. Parei para esperá-lo. Depois de uns cinco minutos chamei pelo rádio e não obtive resposta. O jeito foi voltar para descobrir o que tinha acontecido. Andei uns 2Km até achá-lo. Ele havia caído.
Por sorte não se machucou e, aparentemente, a moto não tinha sofrido nada. Mas foi só aparentemente, pois, quando tentamos sair, o motor de arranque ficou preso e não parava por nada, desligando apenas quando soltamos o cabo da bateria. A solução foi desconectar o motor e fazer a moto pegar no tranco para que pudesse pelo menos voltar para Puerto Pirâmide. Com meu amigo a salvo, eu consegui fazer a meia volta e pude ver um pouco dos pançudos elefantes marinhos.
O entardecer na península era de deixar mudo o maior dos tagarelas e a minha vontade era sentar no chão e ficar apreciando cada mudança de tonalidade do céu. Mas não podia, pois voltar no escuro era algo que não estava nos meus planos. Segui com meu passeio chegando até Caleta Valdes e vi que estava com sorte. Nesse lindo lugar, pela primeira vez tive contato com os simpáticos pingüins Magalhães. Fiquei encantado com aquelas criaturinhas que pareciam nem se importar com a minha presença em seu território. Uns dormiam, outros aproveitavam o sol e outros emitiam um som um tanto quanto engraçado.
Terminei meu passeio quase às oito da noite e me encontrei com o Dario para seguirmos juntos para Puerto Madryn. A lua estava cheia e iluminou os 100Km de distância. Uma bela noite para um passeio de moto. Só podia estar um pouco menos frio e aí sim eu poderia dizer que estava uma noite perfeita. Mas, depois de passear pela península no entardecer, uma experiência inesquecível, e ter a companhia de uma bela lua cheia durante a viagem, acho que já estava pedindo muito.
Na terça-feira tiramos o dia para consertar a moto do Dario e aproveitei para fazer alguns ajustes na minha Princesa. Nada sério, porém necessário. Na quarta deixamos a cidade rumo ao sul e, antes de chegarmos a Comodoro Rivadávia, paramos em Punta Tombo, a maior reserva de pingüins Magalhães da América do Sul. Quanto pingüim... Era pingüim para tudo que era lado... Um espetáculo!!! Eles são muito fofos!!!
O macho chega em Punta Tombo no início de setembro para limpar o ninho, o mesmo utilizado no ano anterior. A fêmea chega alguns dias depois e já encontra a casa pronta para o verão. Uma verdadeira mordomia!!! Outubro é o mês do acasalamento e entre novembro e dezembro nascem os filhotes. Em janeiro os filhotes trocam de plumas e começam a se preparar para a viagem de inverno em direção as águas quentes da costa brasileira. Onde vão curtir um bom samba e uma refrescante "caipingüina". E assim acontece ano pós ano.
Depois de Punta Tombo a viagem se tornou um verdadeiro martírio. Paisagens que não mudavam nunca e ventos que, ao amanhecer, ultrapassavam 100Km/h, segundo a meteorologia local. Éramos obrigados a inclinar as motos e tomar todo cuidado do mundo para não sermos jogados contra os caminhões. Passamos assim pela nada atraente Comodoro Rivadávia, pela pequena e acolhedora Puerto San Julián e pela outra nada atraente Rio Gallegos. Viajamos todos os dias desde quarta-feira. Nem pensávamos em descansar, pois o destino já era certo e mais do que esperado: Ushuaia, o fim do mundo.
Na saída de Rio Gallegos as coisas ficaram ainda mais complicadas, pois o vento, por mais incrível que podia parecer, conseguiu ficar ainda mais forte e totalmente inconstante. Os "chicotes" de vento mudavam de direção de uma hora pra outra e o esforço para não sermos jogados no chão era mais do que esgotador, era quase insuportável.
Esse trecho também é um dos mais complicados, pois, além desse vento que foi capaz de mover a moto desligada, comigo e com toda carga a incríveis 15Km/h, tivemos que enfrentar 4 aduanas (saída da Argentina, entrada no Chile, saída do Chile, entrada na Argentina), 150Km de rípio e a agitada balsa que atravessa o perigoso Estreito de Magalhães. Aventura pouca é bobagem!!!
As 4 aduanas merecem um capítulo a parte. Durante quase toda a semana, as duas primeiras, a de saída da Argentina e a de entrada no Chile, ficam praticamente às moscas. Todo movimento fica concentrado na manhã de sábado quando os argentinos seguem até Punta Arenas no Chile para comprar eletrodomésticos e eletrônicos, aproveitando assim a isenção de impostos da cidade.
Nas manhãs de sábado qualquer semelhança das duas aduanas com a Central do Brasil ou com o metrô de São Paulo em horário de pico pode ser mera coincidência. E nós, os dois aventureiros sortudos, chegamos justamente quando? Exatamente, no sábado pela manhã. Tinha gente saindo pelas janelas. Filas que se juntavam e se separavam sem qualquer lógica. Uns reclamando, outros discutindo. Só faltava galinha, ou melhor, pingüim, passar voando. Na aduana da Argentina levamos 3 horas para registrar nossa saída do país e na aduana do Chile mais uma hora para passar.
Isso sem falar que, enquanto esperava na imensa fila da primeira aduana, o vento fez o favor de jogar minha moto no chão mais uma vez. Ninguém merece tanto!!! O próximo passo foi encarar a balsa do Estreito de Magalhães que, devido ao forte vento, nos jogava de um lado para o outro sem a menor cerimônia. As motos balançavam e os caminhões que estavam dentro davam a impressão de que virariam a qualquer momento. Mas depois de tudo isso, desse agitado dia, e de 10 horas de viagem, conseguimos atravessar os míseros 370Km que separava Rio Gallegos de Rio Grande já na província da "Tierra Del Fuego". Mal podia acreditar...
Agora faltava apenas 215Km até Ushuaia. Faltando só isso, até você pensou que seria fácil, certo? Duas horinhas e lá estaria eu, mais um brasileiro a chegar ao fim do mundo. É, eu também pensei... Mas estávamos enganados. O vento foi embora, mas trouxe a chuva e o frio que, com a umidade de 100%, nos dava uma sensação térmica literalmente congelante durante todo o percurso. Foi difícil. Muito difícil.
Chegamos a Ushuaia, completamente ensopados e tremendo de frio, às 13:35h do dia 30/09/2007. Não sentia meus pés e muito menos minhas mãos. Mas sentia perfeitamente a emoção de ter chegado ao "Fim do Mundo". Sentia perfeitamente as lágrimas escorrendo pelo meu rosto e se misturando com a água da chuva antes mesmo de tocar o solo. Até aqui já são 204 dias longe de casa, 25.500Km rodados pelo Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile, e 1.240 litros de gasolina gastos. Mas ainda falta, e como falta...
Obrigado pelo seu apoio, pela sua companhia, pelo seu carinho. Agora é hora de começar a subir, afinal, cheguei no fim da estrada... Ou será que aqui é só o começo?
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Puerto Madryn-EX-Argentina Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira Date: 05/10/2008
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